Era uma vez um estudante que decidiu montar uma empresa de tecnologia em seu dormitório na faculdade. Uma década depois, aquela startup conquista a liderança absoluta no mercado em que atua, tornando seu fundador e CEO um dos trintões bilionários da indústria de tecnologia.

O bilionário dos drones

05/10/2014

Era uma vez um estudante que decidiu montar uma empresa de tecnologia em seu dormitório na faculdade. Uma década depois, aquela startup conquista a liderança absoluta no mercado em que atua, tornando seu fundador e CEO um dos trintões bilionários da indústria de tecnologia.

A descrição acima não é de Mark Zuckerberg, o dono do Facebook, nem de Steve Jobs, o criador da Apple, e tampouco de Bill Gates, da Microsoft. O personagem mencionado é o chinês Frank Wang. Com 36 anos, ele comanda a DJI, sigla para Dà-Jing Innovations Science and Technology. Fundada em 2006, a DJI hoje domina o mercado global de drones não-militares.


Segundo a consultoria americana Frost & Sullivan, a empresa de Wang detém uma fatia de impressionantes 70% deste segmento, que deve movimentar US$ 6 bilhões neste ano. “Eu não sabia o quão grande esse mercado poderia ser”, disse Wang, em uma entrevista à revista americana Forbes em 2015. “Nossa ideia era criar um produto e montar um time com 10 ou 20 pessoas.”

Veja também: A primeira ação promo no Brasil utilizando drones

A DJI é hoje uma potência. Com 11 mil funcionários espalhados por 17 cidades no mundo, a companhia chinesa está avaliada em US$ 10 bilhões. Wang tem uma fortuna estimada em US$ 3,6 bilhões, o que faz dele o bilionário mais jovem da Ásia na área de tecnologia. Os investidores já despejaram US$ 576 milhões em cinco rodadas de captações. Entre os fundos que apostam no sucesso dos drones chineses está a Sequoia Capital, a mesma empresa que investiu na Apple e no Google em seus primórdios, quando não passavam de ideias interessantes.

O presidente do conselho de administração da Sequoia, Michael Moritz, chegou a comparar o Phantom II, um dos equipamentos fabricados pela DJI, ao lendário Apple II, considerado o primeiro computador pessoal da história. “Nossa visão é tornar a pilotagem dos drones algo simples, o que fará com que os produtos fiquem cada vez mais confiáveis e seguros”, disse à DINHEIRO, Roger Luo, presidente da DJI (leia entrevista ao final da reportagem).

Apesar de a história da DJI ser semelhante a de muitas startups de tecnologia, ela começou bem antes do dormitório na Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, onde Wang estudou. Durante sua infância em Hangzhou, o jovem passava seus dias lendo histórias em quadrinhos sobre um helicóptero vermelho. Aos 16 anos, já entusiasmado pelas aeronaves, Wang ganhou o seu próprio helicóptero de controle remoto como recompensa pelas boas notas.

A alegria durou pouco. Com um sistema bastante complexo de controle, o brinquedo se despedaçou no chão logo no primeiro voo. Para piorar, o garoto teve que esperar meses para consertar a aeronave, já que as peças de reposição vinham de Hong Kong.

A Tudo foi pioneira no uso de drones em locais fechados em 2014

Veja também: 2014, o ano em dos drones no live marketing brasileiro

Enquanto cursava a faculdade, no início da década passada, o estudante teve a ideia que mudaria a sua vida. Ele queria desenvolver uma aeronave que fosse fácil de ser controlada, algo que não existia até então. O projeto, que virou tema de seu trabalho de graduação, fez com que o universitário faltasse às aulas e, algumas vezes, até passasse noites em claro trabalhando.

Em 2006, com três funcionários, a empresa se mudou do dormitório da faculdade para um apartamento de três quartos. Para pagar as contas, Wang utilizou o dinheiro que sobrou de sua bolsa escolar. Posteriormente, a startup recebeu US$ 90 mil de Lu Di, um amigo da família. A quantia foi essencial para que a companhia aumentasse seus negócios e começasse a exportar para os Estados Unidos, Austrália e Inglaterra. O investidor, por sua vez, ficou com 16% da companhia, fatia que hoje equivale a US$ 1,6 bilhão.

Assim que ganhou musculatura, a DJI montou a sua própria sede em Shenzhen, o maior centro financeiro do sul da China. Na porta da sala de Wang, placas escritas em chinês alertam: “Somente para aqueles com cérebro” e “Não traga suas emoções”. As inscrições ajudam a refletir sua personalidade forte. Perfeccionista e descrito como esquentado com seus funcionários, Wang diz que aprecia as idéias de Steve Jobs.

“Eu o valorizo, mas não há ninguém que eu admire pra valer”, disse ele, em uma entrevista. “Para dar certo, basta você ser mais inteligente do que os outros — é preciso ter uma distância das massas. Se você conseguir criar essa distância, será bem-sucedido.”

A força do reinado de Wang está também relacionada com a diversificação do portfólio de produtos da DJI. Com uma produção estimada de mais de 2 milhões de drones por ano, a DJI fabrica desde modelos sofisticados e com capacidade para voar longas distâncias por horas, até produtos mais simples destinados para os pilotos de primeira viagem.

No site da empresa, os dispositivos recreativos saem entre US$ 500 e US$ 3,5 mil. Os drones profissionas custam mais caros e são bastante utilizadas nas áreas de mineração e de obras, além de permitir a captação de imagens aéreas que são usadas em filmes, séries e videoclipes. Essa última função, inclusive, fez com que a DJI faturasse até mesmo um Emmy, tradicional prêmio da indústria televisiva. A honra foi concedida por seus trabalhos na captura de imagens para seriados como Game of Thrones, Better Call Saul e The Amazing Race. “A demanda por serviços realizados por drones era muito grande”, diz Gerald Van Hoy, analista da consultoria americana Gartner. “A DJI aproveitou os benefícios disso.”

No Brasil, o voo da DJI ainda não é muito alto. Os drones da empresa começaram a ser exportados para revendedores brasileiros em 2013. O sistema de revenda com o cadastro de empresas interessadas em se tornarem distribuidoras, entretanto, foi implantado somente em 2015. “Notamos um grande interesse das empresas da América Latina em aprender e utilizar a tecnologia em seus negócios”, diz Luo.

Por enquanto, os drones da companhia chinesa não são baratos por aqui. Em geral, o preço cobrado pelas distribuidoras parte de R$ 2.700 e podem chegar até R$ 80 mil, no caso de modelos profissionais. Os mais caros são usados em serviços de manutenção de instalações de energia eólica e possuem sensores termais acoplados.

Ao todo, seis companhias realizam a venda das aeronaves no país: Walmart, Digipron, Aldo Componentes Eletrônicos, Sky Drones, Golden Distribuidora e Go Hobby. “Desde 2013, quando passamos a trabalhar com a DJI, dobramos de tamanho a cada ano”, revela Adriano Buzaid, responsável pela GoHobby. O sucesso foi tanto que expõe apenas produtos da companhia chinesa em seu catálogo online.

Entre seus clientes estão emissoras de televisão, hospitais e órgãos públicos. No Walmart.com, entre abril e julho de 2016, as vendas do modelo Mavic Pro aumentaram 433%. Na época, o produto estava custando R$ 6 mil. “Os drones são o gadget do momento”, diz Guilherme Matiello, vice-presidente comercial da divisão online da varejista. “Eles juntam os atributos dos smartphones, câmeras e videogames em uma única plataforma.”

Para o futuro, as estimativas do setor são positivas. A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos espera que a frota de drones usados somente para atividades de lazer triplique até 2020, alcançando algo em torno de 3,4 milhões de unidades. O Gartner, por sua vez, estima que a receita possa chegar perto de dobrar dentro dos próximos anos.

A consultoria americana avalia que o setor vai movimentar US$ 11,2 bilhões em 2020. Já os dispositivos utilizados para fins comerciais devem crescer em até dez vezes ao longo desse período. “As possibilidades com esta tecnologia são infinitas”, diz Luo. Frank Wang, que foi rejeitado por MIT e Stanford, duas das mais renomadas universidades americanas, antes de criar a DJI, sabe bem disso.


Fonte:: Redação