SRCom apresenta bastidores da abertura Olímpica e Paralímpica enaltecendo escassez de recursos para criação. Veja como foi.

Gambiarra de Ouro

19/06/2017

Marcada por muitos recursos visuais, a apresentação da SRCom recebeu admiração dos participantes no auditorio Lumiére neste domingo em Cannes. Intitulada “O poder do storytelling para tocar o coração das pessoas” a palestra desenvolvida por Flavio Machado, Daniela Thomas e Vik Muniz mostrou o valor da autoestima de toda uma nação, resultado obtido em 6 de agosto do ano passado, quando foi ao ar, para todo o mundo, a cerimônia de abertura dos jogos. A palestra foi mostrada ao vivo do perfil da SRCom no facebook

E se para as estruturas de competição o custo foi por um preço muito acima do inicialmente orçado, para o evento de abertura a verba foi curta e exigiu criatividade.
“A gente sabia que teria menos dinheiro para fazer a abertura desde o início”, lembra Machado. Já que era necessário economizar e improvisar, o conceito da festa acabou adotando o jeitinho brasileiro e passou a refletir o espírito da “gambiarra”. O termo, que acabou ganhando destaque nos sites especializados que cobrem o festival, mostra também a maneira como brasileiro trata com bom humor as situações de dificuldade.

Embora Machado não confirme o orçamento da festa, fontes dizem que a cerimônia custou cerca de R$ 100 milhões – bem menos do que os R$ 400 milhões dos jogos de Londres, em 2012, e cerca de um décimo do recorde que havia sido gasto em Pequim, em 2008. A mudança da temperatura da economia se refletiu na festa, segundo o Flávio. “Não havia nem clima para uma proposta muito extravagante.”

A cerimônia lá de 2016 contou também com os cineastas Fernando Meirelles e Andrucha Waddington como diretores, porém Machado afirma que Daniella Thomaz merece o maior crédito pelo conceito visual do evento. “Ela se dedicou à abertura como ninguém. Trabalhou muito bem o conceito do que quer mostrar, buscou uma razão para o que foi mostrado visualmente.”

Por sua vez, aqui em Cannes, Daniela mostrou como algumas ideias foram desenvolvidas tecnicamente, como a reprodução das florestas com fios de elástico e projeções, assim como a recriação dos cenários das favelas dentro do Maracanã. Outra inovação destacada na apresentação do Lumére foi "colocarmos um caldeirão como pira olímpica", lembrou ela.

“Somos seres emocionais e só há memória com emoção”, lembrou Flavio Machado, enquanto explicava a estratégia do evento, planejado em meio a uma enxurrada de más notícias na economia e na política que criaram resistência à Olimpíada do Rio, que foi realizada no meio de uma recessão econômica e muitos protestos no país, além das posições céticas da imprensa internacional.

Enquanto a Olimpíada teve o improviso como tema e também tentou resumir a história do Brasil para uma audiência internacional, a abertura da Paralimpíada trabalhou para despertar os cinco sentidos da plateia e de quem assistia ao espetáculo pela TV. Entre as cenas icônicas destacou-se o “balé” com a atleta Amy Purdy, que ganhou uma medalha de bronze competindo com snowboarding na Paralimpíada de Inverno de 2014.

Flavio Machado, Daniela Thomas e Vik Muniz no placo do Lumiére

Em sua apresentação, Vik Muniz contou que aceitou trabalhar no projeto olímpico porque nunca tinha ido a nenhuma cerimônia olímpica e por se tratar justamente da Paralimpíada. 

Com o escritor (e cadeirante) Marcelo Rubens Paiva e o designer Fred Gelli, Vik disse que teve de lidar com a total instabilidade. “As pessoas esperavam que falhássemos”, ressaltou o artista plástico. Mas o grande desafio, para ele, era o fato de que tudo estaria em jogo naquelas três horas da cerimônia, sem a opção de um segundo take.

 Mas, como “somos todos deficientes em alguma extensão”, lembrou ele, o caminho foi seguir adiante, reconhecendo isso. E o resultado foram momentos tão belos quanto a dança da atleta de snowboard americana Amy Purdy ou Clodoaldo Silva vencendo a escadaria diante dele para acender a pira olímpica.

Mas para Vik Muniz o momento mais emocionante foi um com o qual ele não teve nada a ver: o silêncio das milhares de pessoas quando a veterana medalhista Marcia Malsar, de bengala e caminhando com dificuldade, deixou cair a tocha olímpica e, na sequência, a explosão do público quando ela, enfim, consegue repassar a tocha para outra atleta, após levantar e retomar a caminhada, depois de ser ajudada pelo staff do evento.

E opinião final dele sobre o trabalho, depois de todas as dificuldades e instabilidades enfrentadas: “Faria de novo um milhão de vezes!”.


Fonte:: Rodrigo Arnaut