Como destruir uma marca com lama

29/01/2019


Vão dizer que minha origem mineira me fez escrever esse texto. Talvez...

Foi. Mas não só isso.

A verdade é que tenho ficado impressionado com o Marketing, as áreas de Compliance de muitas marcas por aí.

Com a (in) capacidade de muitas empresas em acompanhar o mundo e seu tempo.

Uma marca de aplicativos de automóveis Âncora firma faz contrato de patrocínio com importante cidade para o Carnaval.

Eu disse contrato. Coisa séria.

E rompe, unilateralmente, sob o argumento de que o presidente de uma das Escolas foi preso por outra atividade que desempenha, a de parlamentar (diga-se de passagem, justa.) por corrupção e a marca não poderia estar associada a isso.

Pergunto, porque sou leigo. O que tem a ver a Escola com isso, o Carnaval, a cidade, o povo da cidade que brinca e assiste o Carnaval? Eles também são corruptos?

Mais, como esse patrocínio é uma renovação de anos anteriores, pergunto. A Escola não tinha esse presidente antes? O quadro era diferente do atual quanto às Instituições?

Compliance agiu de maneira imprudente, coisa normal, e expôs a marca a uma percepção de inimiga da cidade, de sua cultura, de seu povo, porque tinha maneiras mais efetivas de manter um contrato, questão de conformidade e respeito às leis, inclusive, fazendo exigências para o uso de sua verba. Não?

E o Marketing? Marketing? A  empresa prova que não tem. Desconsiderou o mercado e por isso toma surra do concorrente.

Voltando ao meu tema e marca em específico. Como pode uma empresa que, pela natureza de sua atividade, afeta o meio ambiente não se preparar tecnológica e conscientemente para evitar tragédias e crimes ambientais? Mormente por haver um precedente.

Investiu no bloqueio e lobby político (coisa cara, cara) e não na contenção de barragens? Por quê?

Além de muita, muita gente, morrer, morre a esperança do fim de práticas espúrias que não preservam gente e o meio ambiente. Cadê seus valores, cadê suas causas?

Perdem-se valores que a marca preconiza em seu site. Perde-se, além do Rio Doce de sua marca, a confiança de uma nação, especialmente de um Estado.

Dói em Minas Gerais, mas, não se esqueçam, dói no Brasil, que viu Mariana chorar e sumir, e Brumadinho perecer. Ambos, na lama.

Na mesma lama que uma marca forte some, afundada, na falta de respeito com o ser humano e a natureza.

Cadê o Marketing, cadê o Compliance?

Meu respeito às Forças Armadas, e, muito especialmente, aos profissionais de Saúde e aos Bombeiros de Minas Gerais pela bravura e comprometimento que faltou à marca em questão.

As marcas da saúde e dos bombeiros mineiros ganham o destaque pela ação, sem precisar de Marketing ou Compliance. Sabem por quê? Gente, o humano, tomou a frente.

Concluo meu texto com o conterrâneo Drummond.

Fragmento da poesia Últimos Dias, Carlos Drummond de Andrade

..." E cada instante é diferente, e cada homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra o silêncio global, mas não seja logo.”...

Mas foi!

 

Por Tony Coelho.