Existe uma sala de reunião, em algum lugar, acontecendo neste exato momento, onde a frase “queremos algo completamente novo, nunca antes visto” está sendo dita. E, do outro lado da mesa, há um criativo sentindo aquele calafrio familiar: a pressão esmagadora de ter que tirar um coelho da cartola, de novo.
Essa pressão não é um sentimento isolado, mas sim a consequência direta de uma lógica que venho questionando em nossas conversas. A obsessão pela novidade a qualquer custo é o que nos leva a criar os “eventos Frankenstein” que discuti anteriormente — projetos remendados com excessos para parecerem diferentes. Fazemos isso porque, como apontei na minha primeira coluna, caímos na armadilha de perseguir o “memorável” como um fim em si mesmo, em vez de focar em resultados concretos.
Em 2025, essa lógica se torna ainda mais perigosa. Com a inteligência artificial capaz de gerar mil moodboards em um minuto, a novidade virou commodity. É por isso que vivemos o mito da criatividade infinita. Acreditamos que nosso valor está em sermos uma fonte inesgotável que jorra ideias espetaculares. Mas a verdade é que essa fonte seca. E esse é o segredo que ninguém gosta de admitir.
A busca incessante pela “ideia genial” é uma armadilha. Ela nos paralisa e nos faz desprezar as boas ideias em busca de uma perfeição que talvez nunca chegue. Ela nos faz acreditar que a criatividade é um raio que cai do céu, e não o que ela realmente é: um músculo que se desenvolve com o treino, mas que também precisa de descanso para não romper.
Talvez o nosso maior ato de criatividade, hoje, seja redefinir o que significa ser criativo.
Criatividade em eventos não é sobre inventar algo do zero a cada projeto. Criatividade é a arte de resolver problemas de forma elegante e relevante. É sobre ouvir o briefing com uma profundidade que nem o cliente sabia que existia. É sobre visitar um espaço e enxergar uma oportunidade onde todos veem uma limitação. É sobre conectar duas ideias aparentemente desconexas para gerar uma nova emoção.
É aqui que entra a defesa do trabalho que não parece criativo: a pesquisa, a conversa, o entendimento profundo da marca. As melhores ideias não nascem de um brainstorming desesperado, mas sim de uma imersão disciplinada no problema.
Então, a todos os designers, arquitetos e estrategistas que sentem o peso da página em branco: respirem. Nosso valor não está em sermos uma fonte de novidades, mas sim em nossa capacidade de sermos observadores atentos, conectores de pontos e solucionadores de problemas com sensibilidade.
Talvez a ideia mais original que possamos ter hoje seja nos dar a permissão de não precisar ser original o tempo todo. E, pode ser nesse espaço de calma e aceitação que as ideias verdadeiramente boas encontram lugar para florescer.
Nos vemos na próxima coluna, boa semana.
Eventos
Designer e cenógrafo com 18 anos de experiência em projetos de cenografia voltados para brand experience. Com olhar técnico e sensível, traduz sua vivência prática em análises que revelam tendências, movimentos e transformações do mercado de eventos.
Designer e cenógrafo com 18 anos de experiência em projetos de cenografia voltados para brand experience. Com olhar técnico e sensível, traduz sua vivência prática em análises que revelam tendências, movimentos e transformações do mercado de eventos.