GERAL

As lições das Olímpiadas sobre desempenho baseado na raça


21 de Agosto de 2021

As medalhas de Ouro e de Prata recentemente conquistadas pela ginasta negra brasileira Rebeca Andrade, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, são bem emblemáticas quando o fator raça entra na conversa sobre o desempenho profissional. 

No Brasil, assim como em outros países, existem crenças generalizadas – e infundadas – que relacionam a etnia à capacidade física ou intelectual. “Orientais são bons em ciências exatas” e “Negros são melhores velocistas” são algumas afirmações reproduzidas frequentemente.

Essas falsas crenças ganharam grande repercussão na fala cheia de emoção da ex ginasta Daiane dos Santos, que conquistou nove medalhas de Ouro em campeonatos mundiais, ao comentar, em rede nacional, ao vivo, a conquista da primeira medalha olímpica de Rebeca.

“Não é atletismo, é ginástica artística. Durante muito tempo disseram que as pessoas negras não poderiam ser ginastas, que as pessoas negras não poderiam fazer alguns esportes, e ter a primeira medalha para uma menina negra, tem uma representatividade muito grande atrás disso.”, afirmou Daiane.

Essa presumida “limitação” atrelada à raça se repete em diversas modalidades e já foi ouvida por várias estrelas mundiais do esporte, como as tenistas Venus e Serena Williams, o golfista Tiger Woods e o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton.

Infelizmente, não ocorre apenas no mundo esportivo. Esses argumentos genéticos sem comprovação científica, aliados à discriminação racial, exercem uma pressão concreta na vida profissional de negros e negras.

Isso gera nestes profissionais uma preocupação extrema em não falhar, ou mais que isso, em buscar superar o desempenho dos colegas de outras etnias, para simplesmente serem considerados no mesmo patamar que os demais. 

Essa pressão é reforçada pelos discursos e atitudes, conscientes ou inconscientes, no ambiente de trabalho.

Ursula Burns, ex CEO da Xerox, conhecida defensora do capitalismo inclusivo e da equidade racial, é absolutamente clara sobre este tema em sua recente entrevista à Harvard Business Review:

“Mesmo ao final da minha carreira, as pessoas diziam: ‘Oh, meu Deus, você é tão incrível’. Eu finalmente percebi que o que eles estavam dizendo, sem saber, é que para eu liderar uma força-tarefa, ou ser CEO, eles teriam que me identificar como ‘espetacular’ ou então reconhecer que outras pessoas que se parecem comigo, que agem como eu, que vêm de onde eu venho, podem estar à mesa também. Eu não sou incrível. Estou aqui porque sou tão boa quanto você.”, diz a ex executiva. 

Ursula foi a primeira mulher negra a liderar uma das 500 maiores companhias listadas pela Fortune.

Portanto, o compromisso com a diversidade e a promoção da equidade no mundo dos negócios e na comunicação das marcas requer, necessariamente, uma revisão dos mitos e verdades sobre raça que os esportes nos ensinam em cada oportunidade.

 

Foto: Getty Images.

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