Para muitos o consumo é um entretenimento, um relax.

Pandemia ou terapia?

30/10/2017

Por Marina Pechlivanis

“O consumismo é o mais formidável dispositivo que alguém já inventou para controlar as pessoas. Novas fantasias, novos sonhos e aversões, novas almas para curar. Por alguma razão peculiar, chamam isso de fazer compras. Mas é de fato a forma mais pura de política.”
    J. G. Ballard, O reino do amanhã

Comprar compulsivamente, a oniomania (vício em compras), é uma verdadeira pandemia, atingindo, mundo afora, milhões de pessoas. Hospitais especializados em tratar as diversas variedades de vícios possuem tratamentos para os compradores compulsivos cujas complicações sociais são similares às dos demais vícios (como fumo, álcool, drogas, jogos…), com danos físicos, emocionais, psíquicos e — principalmente! — financeiros. Cabe lembrar que para tratar viciados em compras também se faz necessária uma boa dose de consumo: além de medicamentos, existem livros de auto-ajuda, clínicas e spas de desintoxicação, roteiros turísticos especiais… 

A doença já se espalhou pelo globo e dá sinais de gravidade. 
E se para uns o caso é motivo de tratamento, para outros é um despertar para a fé. Pois consumir tem seus templos, suas crenças e seus rituais. Michel Maffesoli, sociólogo da Sorbonne, toma partido desta opinião ao concluir que “as marcas são pequenos deuses falantes”. Afinal, a ciência já comprova que visualizar uma marca ou grife com a qual se tenha vínculos emocionais pode ativar as mesmas áreas cerebrais que os ícones e as figuras religiosas. Não por acaso, Beatriz Sarlo, critica cultural argentina, afirma que “na comunidade dos consumidores, o livro sagrado é o advertising, o ritual é o shopping spree e o templo, o shopping”.

Para muitos o consumo é um entretenimento, um relax. O professor italiano de sociologia do consumo Giampaolo Fabris confirma que comprar, assim como colecionar, é uma espécie de passatempo. E pontua que o desafio é “substituir os bens de consumo pelos bens de relação. Será necessário repensar o tempo livre. Isto é, passar do gastar ao falar, do olhar as vitrines ao olhar-se nos olhos. Não é fácil, mas é uma grande oportunidade.”

No mundo Gifting acontece a mesma coisa. Competidores profissionais de concursos e sorteios, chamados (em inglês) de “comper”, que gastam tempo e dinheiro apenas pela mania de participar de todas as ações, sempre acreditando na grande chance de levar o grande prêmio, de ter uma coleção completa, de obter a peça rara ou de ter algo antes de todos os outros terem. Serve para carro, viagem, bonequinhos, utilitários e acessórios, acessos, ingressos…

Gostou? Ao invés de acabar com os recursos do seu cartão de crédito comprando coisas e mais coisas, que tal ficar atento e participar das várias oportunidades que mundo gifting proporciona?
Dá, inclusive, para consumir sem gastar.
É uma boa forma de terapia. E se essa pandemia pega…

Sócia-fundadora da Umbigo do Mundo, agência de comunicação estratégica criada em 1999, e sócia da UDM&Co Projetos para Comunicação Eficiente, consultoria para negócios alicerçada em relações de troca. Mestra em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM. Criou as metodologias Gifting&Rituals Map e Dádivas de Marca/The Gift of a Brand, aplicadas em cases premiados no mercado. Ministra palestras e cursos sobre o tema Gifting (estudo que estrutura políticas de troca em todas as plataformas de comunicação corporativa definindo parâmetros de valor, métricas de circulação e rituais proprietários), incluindo aspectos de Compliance (parceria com o IBDEE). Autora dos livros GIFTING (2009) e ECONOMIA DAS DÁDIVAS: O NOVO MILAGRE ECONÔMICO (Alta Books, 2016), entre outros 20 títulos.


 


Fonte:: Redação