Ex-diretora de marketing de uma multinacional, empresária abriu agência após se frustrar com os serviços que encomendava

‘É ilusório achar que o negócio vai vingar sem estar 100% nele’

04/09/2017

Juliana Escandura, de 38 anos, era diretora de marketing de uma multinacional quando começou a se incomodar com o trabalho fornecido pelas agências que ela contratava para eventos esporádicos.

“Na maioria das vezes, eu acabava tendo de fazer coisas que caberiam às prestadoras do serviço. Isso me fez enxergar ali uma oportunidade de negócio”, diz.

A tarefa não seria fácil, já que a concorrência na área é grande. Mas ela decidiu apostar na deficiência justamente da concorrência para se firmar. “Havia uma lacuna entre o que as empresas precisavam e aquilo que lhes era entregue. Decidi, então, que criaria uma agência de envolvimento, não apenas de execução.”

Foi assim que surgiu, em 2008, a Elu! Live Marketing. No começo, se resumia a uma pequena sala com dois funcionários. Após um ano e meio, o investimento inicial já havia sido pago. Hoje, são mais de 40 colaboradores que desenvolvem, em média, 500 projetos por ano.

A Elu! não divulga seu balanço, mas diz ter alcançado em 2016 um faturamento superior ao do ano anterior. A crise econômica, segundo Juliana, não atrapalhou as atividades. “Pelo contrário, as empresas se deram conta de que investir na fidelidade dos clientes, nesses momentos, é crucial.”

O portfólio da agência, inicialmente focado no mercado farmacêutico, hoje inclui marcas como Nestlé, Linkedin e Adobe. E os trabalhos vão desde Segundo Juliana, o impulso empreendedor vem da infância.

Nessa época, organizava entre amigos festivais de teatro e cuidava das vendas de ingressos para familiares. Na faculdade, subiu um degrau na profissionalização dos eventos: passou a promover festas e shows de bandas do momento. “Acho que sempre tive isso em mim, fazia dinheiro desde criança.”

No momento em que decidiu abrir o próprio negócio, a empresária sabia o caminho que devia trilhar. “Passei um ano fazendo estudos da área e montando meu planejamento estratégico, queria saber onde entrar primeiro.” Mas ainda lhe faltava o capital, que acabou aparecendo por meio de um sócio investidor.

Cabeça de chefe. “Nas empresas por onde passei como funcionária, sempre sustentei uma mentalidade de dona. Hoje, isso tem nome, é ser um intra empreendedor. Essa postura ativa sempre fez parte do meu trabalho, é uma marca da minha trajetória profissional.”

Desafio inicial. “A dificuldade foi navegar sozinha no universo gigante que é o das agências do setor. Não tínhamos nenhum parceiro, a carteira era zerada mesmo. Mas eu contava com uma expertise no mercado, o que ajudou muito na hora de formular as estratégias de inserção. Procurei um sócio investidor e, então, o desafio passou a ser criar a rede de contatos. Começamos pela indústria farmacêutica, por onde eu também já havia passado, para só aos poucos ir diversificando o portfólio. Esse foco inicial é muito importante.”

Consolidação. “É ilusório pensar que um negócio vai vingar se você não estiver 100% presente. Tocar diretamente em tudo, no começo, é essencial para criar uma visão do todo. Claro que depois as coisas vão sendo delegadas, e para isso dar certo uma equipe afinada com os valores da empresa é essencial. Outra coisa: buscar conhecimento e oferecer o inovador. Sempre me preocupei em ver o que as agências de fora estavam fazendo e trazer isso para o Brasil, mesmo com nossa limitação inicial de tamanho.”

Erros. “Levou bastante tempo para percebermos que focar tanto nas concorrências se mostra contraproducente. Muitas licitações, infelizmente, são viciadas. Nos primeiros anos, participávamos de tudo, colocando toda a nossa energia em projetos que não vingavam. Vimos, então, que não tínhamos de estar em todo tipo de concorrência, que filtrar os projetos e criar uma relação de longo prazo com os clientes é bem mais saudável.”

Autoconhecimento. “Muitas vezes competimos com agências que têm o dobro do nosso tamanho, mas encontramos também aí vantagens. Temos uma estrutura mais enxuta, o que nos dá agilidade. Ou seja, ser pequeno pode virar uma estratégia, se não enxergamos isso como um limitador.”

Presença. “Nosso foco é entregar para o cliente o que ele, de fato, precisa. Para isso, mergulhamos em todo o processo de desenvolvimento da ação. Saímos de uma posição de empresa demandada para outra de agência que ajuda a criar estratégias alinhadas ao objetivo final. Essa proximidade muitas vezes muda o produto inicial, que, por falta de expertise do contratante, acaba sendo ineficiente.”

Resiliência. “Com a experiência, aprendi que não existe um manual para lidar com os desafios do cotidiano. Acredito que o êxito vem de como você enfrenta as situações, se vai aprender com fracassos anteriores.”


Fonte:: Estadão