Vestindo a camisa (ou não…)

06/01/2020


A ideia era ótima: líder de uma grande equipe no desenvolvimento de um novo produto, o gestor recebeu com muita alegria a iniciativa de um dos seus colaboradores que estava conseguindo com um dos parceiros do projeto a impressão de camisetas para toda a equipe.

Nela estaria o nome do produto, o nome da empresa e o do parceiro, mas mais do que isso, ela sintetizava um trabalho em grupo, e, assim como qualquer equipe esportiva, ter todos uniformizados e comungando o mesmo prazer em fazer parte era uma forma de terminar o ano em alta, devolvendo para todos os desenvolvedores o orgulho e o prazer de serem reconhecidos, ainda mais depois de um projeto tão desafiador e que exigiu de todos muita dedicação.

Sim, era apenas uma camiseta, mas o ato de “vestir a camisa” significava muito como mensagem, incentivo e como convergência de todos os interesses, atenções e energia do time que ficaria ainda mais pilhado em terminar o novo produto com a excelência exigida.

Por uma questão de justiça e para que o ato em si fosse cercado de uma atmosfera de meritocracia, o líder defendeu que a camiseta seria entregue apenas aos profissionais que estavam envolvidos no projeto. Afinal, como item material, era só uma camiseta – não via nela nenhum gift que gerasse tanto interesse.

Como conceito, falava de um projeto específico e de um time alocado apenas para ele, não via também como pudesse ser interessante para mais alguém.

E assim foi feito. As camisetas chegaram e foram entregues, para alegria e uso imediato de todos do time, que orgulhosos a vestiam gerando exatamente o efeito esperado.

Uma foto com todos reunidos selou este momento mágico, postado em seguida para mostrar para todos como o time estava unido, empenhado e focado em cumprir sua tarefa. E realmente era interessante ver como uma simples camiseta tinha tanto poder. Até mais do que o líder imaginava…

Subitamente, ele começa a receber uma série de reclamações de outras áreas, outros líderes, chefes e diretores acima dele, questionando porque eles não tinham recebido também suas camisetas? Porque não estavam na foto? E tudo isso levava a um sonoro e visível questionamento do porque não havia sido dado a eles a mesma visibilidade, o mérito e o senso de pertencimento deste projeto?

Completamente surpreso com esta reação, e ainda mais porque entendia que tudo o que havia feito estava dentro do mais ético e justo processo, ele repetia a todos que apenas havia colocado aqueles que estavam diretamente ligados ao desenvolvimento do projeto, e que isso claramente não era um demérito a ninguém, apenas um reconhecimento a partir de um item, que feito sem nenhum movimento da organização, se voltava primeiramente ao seu time.

Entre o sentimento de justiça feita e o incômodo dos questionamentos, ele se perguntava: O que eu fiz de errado?

Conversando com ele em uma das inúmeras confraternizações e encontros do final de ano, pude reconhecer no caso muito do movimento natural e extremamente bonito que existe em muitos líderes e gestores, buscando na justiça uma forma de exemplificar e conduzir seus times, trazendo para eles o reforço do orgulho e do sentimento profundo de pertencimento, mas e infelizmente mas, ele esqueceu que precisava também ter sido político.

E é lógico que a política aqui não tem nada a ver em dar o devido highlight a quem merece por estar dentro do projeto, mas em ser generoso em deixar outras pessoas saírem na foto, mesmo que pouco ou nada tenham feito. E tudo isso simplesmente porque eles precisam também fazer parte!

Assim é a política, e, em todas as empresas, existe uma novela mexicana chamada “Direito de Pertencer”: Aquela que faz com que as reuniões aumentem o número de participantes quando o projeto tem mais visibilidade. Aquela que faz com que a lista de créditos às vezes seja maior do que efetivamente a dos que realmente desenvolveram um projeto.

Mas, possivelmente, a forma correta e justa de se manter em ambientes e processos institucionais cada vez mais políticos e carentes de movimentos neste sentido, como forma de se manter apoiado ou simplesmente não ser visto como uma ameaça, mesmo que isso nunca tenha sido sua intenção.

E é no conflito de ser certo ou se achar errado ou no (na minha opinião) horroso questionamento em “Estar certo ou ser feliz”, que vemos um grande movimento do mundo em descontruir ou, no mínimo, reformular, as intenções mais nobres, justas e coerentes, para se vergarem a um formato onde dar a vez, dar lugar, convidar ou deixar fazer parte outras pessoas, mesmo gerando um natural desconforto no time foco, é a maneira mais correta de se manter também fazendo parte.

Alguns dirão que faz parte do jogo, outros que é assim que as coisas são, mas infelizmente para os de espírito mais puro e focados na execução do trabalho, e felizmente para os que já entenderam que “o mundo não é dos que fazem, mas dos que vendem”, permanecer em um ambiente corporativo pede a flexibilidade quanto a todos estes movimentos, e, no final das contas, trabalhando isso internamente e não levando para nenhum lado pessoal ou que questione seus atributos morais mais elevados, tudo isso nem é tão difícil assim.

Poder fazer e deixar pessoas fazerem parte é uma ótima mensagem para começarmos o ano de 2020, pois ela pede da gente mais do que simplesmente o extremo senso de realização do nosso trabalho, mas um exercício mais aberto de como fazê-lo com o famoso “Um olho no peixe e outro no gato”.

A competitividade hoje não está necessariamente na capacidade técnica de cada um, mas sim na navegabilidade que a pessoa pode ter dentro destas ondas políticas, que te colocam como alguém do time, mesmo que seu conceito de time seja outro.

Não vou ficar aqui discutindo a capacidade e o mérito de quem está em uma posição hierarquicamente acima de qualquer profissional. Ainda que tecnicamente ela possa ser questionada, politicamente, certamente não poderá ser, pois o cargo mostra isso.

O mundo pede política, apesar de ser uma palavra tão mal empregada hoje em dia. E ao nos entendermos como Seres que, para viver na sociedade que vivemos, precisamos ter este poder, precisamos apenas definir que não podemos ser uma pessoa só.

Como um ator que veste seu papel a cada trabalho, precisamos ter em mente que a sinceridade pura de propósito e a dificuldade em se distanciar da persona que você de fato é, pode ser um verdadeiro atentado para si próprio, quase uma forma não intencional de se sabotar.

Vestir a camisa também significa isso: ter a consciência do papel e da posição em que você joga e fazer o seu melhor, mas entender que o time não são só os 11 em campo, mas a equipe técnica, os profissionais do clube e até mesmo a diretoria e o presidente.

Pensar mais aberto significa abrir mais seu campo de justiça e entender que todos fazem parte do sistema e praticar esta política, que eu chamarei de generosidade profissional, é ela é a maneira mais coerente de enxergarmos 2020 como uma oportunidade de novas oportunidadades, da criação de novos conceitos e de definitivamente evoluirmos e buscarmos uma abundância sem precendentes, pois justamente a antítese dela é a escassez ou o medo de “ficar sem”, que é irmão do F.O.M.O. (Fear or Missing Out – Medo de perder alguma coisa), astro principal da novela “Direito de Pertencer”, e membro ativo e atuante do maior grupo que temos no mundo digital e na sociedade: aqueles que têm medo de não fazer parte.

Vista a camiseta da cor que você quer, com a marca, o logo, a empresa ou o produto que você queira, mas saiba em que momento é a camiseta de jogo, em que momento é camiseta de treino e em que momento você não está jogando nada e sendo simplesmente você mesmo, usado a camiseta que representa simplesmente você e do jeito que é, mas que claramente não deve ser usada quando você está a serviço e fazendo parte de um sistema.

Vista sua camisa e que nela esteja escrito exatamente o que pra mim é o #MTT (MondaytoThank) de hoje: o mais simples, óbvio e necessário:

#MTT2020

SIM. ESTE SERÁ O MELHOR ANO DA MINHA VIDA!

 

Por Dil Mota.

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