Intolerância à tolerância

24/06/2019


Lactose, glúten, levedura, álcool, histamina, frutose, ao ovo, a soja, ao milho, peixes, ervas, carnes, nozes, castanhas, vegetais, leite e derivados, frutos do mar, enfim… a muita coisa. É só ir em um supermercado para a gente descobrir que o universo das intolerâncias realmente domina um novo momento da indústria de consumo.

A categoria dos alimentos ganhou uma série de novas formulações, promessas e adequações aos hábitos alimentares da população atual e principalmente aos problemas alimentares que recentemente são cada vez mais estudados, analisados e muito bem trabalhados para a sorte de suas vítimas, mas também para o grande negócio de muitas empresas.

Poderíamos ampliar esta lista para uma quase intolerância conceitual, que mesmo relacionado ao mundo da alimentação, não determina um problema orgânico em si, mas de consciência: são os vegetarianos, lactovegetarianos, ovolactovegetarianos e os veganos. Outras classes muito bem trabalhadas pela indústria de alimentação e serviços, também muito bem servidas em produtos cada vez mais presentes e “que nutrem muito bem” um negócio milionário.

E já que estamos falando do mundo da intolerâncias, não dá pra deixar de comentar as intolerâncias humanas mesmo. Estamos falando da intolerância racial, social, religiosa, sexual, o sexismo e toda e qualquer forma de ser intolerante ao fato das pessoas serem o que são, do jeito que são ou como optaram ser. É a famosa intolerância à diversidade ou simplesmente ao fato de aceitar que as pessoas possam ser diferentes do que somos e está tudo bem.

Mas se na intolerância alimentar temos a reação, por vezes violenta, do corpo em relação às substâncias que ele não administra, tolera, absorve ou faz um bom uso. Não é muito diferente quanto estamos submetidos à exposição de outras substâncias tóxicos como  ódio, preconceito, sexismo, ignorância e outros tantos venenos da humanidade. Mas se esta coluna aqui não está sendo publicada na Revista Boa Forma, afinal onde eu quero chegar?

Se não bastasse “levantar uma bola” no que todo este novo “recorte” da população mundial e seus “novos” hábitos traz de novos e muito bons negócios, produtos, abordagens e o quanto isso exige das empresas um entendimento em tempo real do que está se passando no ser humano e com muita agilidade se reformatar para agir com respostas muito rápidas a tudo isso, eu queria aproveitar que estamos falando de pessoas, para falar hoje da intolerância ao tolos, tolerantes e intolerantes, inclusive nós mesmos.

Pois não foi apenas no mundo da alimentação que as coisas mudaram e se descobriu que muitos problemas estavam relacionados com a dificuldade de ingerir certos alimentos, também não foi apenas no destaque que mundo dá hoje ao respeito às diversas formas de ser que a intolerância passou a ser uma palavra em grande uso. Hoje a gente vive uma verdadeira crise de intolerância no sentido mais amplo e ela é diária, constante, presente e também leva muitas pessoas aos sintomas mais clássicos de intolerância alimentar: dores, diarréias, náuses, vômitos, azia, enfim… o famoso “passar mal”.

Afinal, quem nunca “passou mal” depois de mais um dia stressante, mais uma reunião de trabalho, um novo projeto preocupante, um ambiente nocivo, uma liderança pouco atuante ou todos os questionamentos que fazem parte do dia a dia corporativo?

Quem nunca “passou mal” com sua própria auto crítica, com sua auto estima, com seus questionamentos pessoais, com suas dúvidas, encantos e desencantos ou por simplesmente as vezes sentir que está corredo numa esteira e ela não está te levando à lugar nenhum?

Quem nunca “passou mal” logo pela manhã, ao encarar o dia e sentir que ele não está fazendo tanto sentido assim?

Quantas pessoas você conhece que hoje são tratadas com os sintomas do stress, depressão, síndrome de burn out, crises de ansiedade e inúmeros outros problemas como pressão alta, diabetes, doenças cardíacas e inclusive câncer?

Se você acha que tudo isso não se relaciona, então realmente chegou a hora de ser intolerante com a tolerância!

Tá fácil encontrar hoje um produto alimentício que contorne a sua intolerância alimentar, é de bom tom também seguir a cartilha que prega uma consciência do seu papel como pessoa e o respeito as demais que convivem com você neste planeta, mas além disso: como é que estão as coisas entre os seres humanos, suas relações pessoais ou aquilo que vemos nas redes sociais? Como está o nível de julgamento das pessoas? O quanto estão se preocupando demais com sua imagem, com os outros, com opiniões desnecessárias ou com o perigoso hábito de seguir modas, tendências, opiniões, correntes, pensamentos ou a “boiada” das conclusões, sem ao certo ter medido, pensado ou ponderado se isso faz sentido?

Ninguém perdoa nada amigos: um deslize no português, uma opinião contrária à sua, um firme posicionamento pessoal, um erro de julgamento, uma exposição pessoal desnecessária, um alinhamento político que você não concorde e uma série de outras coisas que vão do time de coração, passando pelo estilo musical preferido, o jornal que eventualmente você leia ou até mesmo a decisão de trabalhar de carro, moto, transporte público ou bicicleta…

Vivemos o tempo aúreo da intolerância em todos os sentidos e quando isso não está apenas instalado na gente como um negro download, podemos fazê-lo diariamente e a todo instante. Basta acessar um veículo de imprensa, uma rede social, ouvir a conversa de alguém no elevador ou simplesmente se deixar levar pelo consciente coletivo, que julga, sentencia e condena tudo aquilo que lhe convir, sem ao menos dar o direito universal da defesa.

Simplesmente não dá para você acordar e assistir, ler ou ouvir os noticiários do dia. É pedir para tomar uma dose de mal humor, desencanto com o ser humano e pensar duas vezes se vale a pena sair de casa. Muitos dirão que é assim que é o mundo, mas eu me questiono o quanto ter uma pauta diária marrom nos jornais, faça realmente bem às pessoas, por mais que a gente saiba que notícia ruim rende e isso eles sabem trabalhar muito bem.

Não cabe aqui nenhum tipo de alienação, mas entender que da mesma forma que um alimento que nos traga intolerância nos fará mal, nos alimentarmos de informações, notícias e comentários intolerantes ou que geram intolerância também fazem. E para isso não existem remédios tão óbvios na prateleira. Imaginem que toda vez que somos expostos à conteúdos como estes, o simples fato de nos abrimos à eles, pensarmos, julgarmos ou divulgarmos, nos faz cúmplices de tudo isso, nos transformando em mais um incauto tolerante à intolerância.

O que realmente importa se o jogador famoso fez isso ou aquilo? Como realmente acreditar que aquela notícia ali é verdadeira? Que sentido há em repassar aquela imagem chocante que expõe pessoas? Como ter certeza de que a revelação de uma questão polêmica realmente está trabalhando para o bem da comunidade ou apenas como uma forma de nos conduzirmos para uma das vertentes? Como fomentar e contribuir com os ruídos, mimimis, rumores, fofocas, fake news e as diárias notícias ruins, se sentindo ainda um grande veículo de notícia ao retransmitir ou compartilhar o que recebe, desligando o botão do bom senso, das boas práticas ou de uma intolerância que deveríamos ter à este tipo de tolerância?

Não adianta colocarmos o mundo, os seres humanos e toda a sortidez das pessoas na terceira pessoa, pregando ao mundo que “o mundo está perdido”, como se nós não fizéssemos parte dele. Fazemos parte de tudo isso e está em nós mesmos o poder e a possibilidade de mudar isso!

Minha provocação hoje está em buscarmos agir como quem realmente se volta contra esse “controle” do que somos, pensamos e agimos, nos negando a pensar, consumir e nos alimentarmos como todo mundo. É engraçado dividir uma piada, um meme ou uma brincadeira, mas não tem graça nenhuma ficar sistematicamente discutindo temas ou assuntos polêmicos, repassando sem questionamentos o que lhe chega e sem ao menos ter certeza de que isso foi obtido e compartilhado de forma lícita, correta, isenta e não maquiavelicamente direcionada.

Está na hora de também nos preocuparmos em compartilhar boas notícias, bons conhecimentos e bons assuntos. Compartilhe sua playlist, divida com os outros uma indicação de filme ou série, fale do novo livro que leu, do restaurante incrível que foi, do sorvete incrível que experimentou, da viagem que acabou de fazer, das pessoas incríveis que você encontrou, do casamento inesquecível que você foi, da balada top que conheceu, do projeto incrível que você fez, de ter sido apresentado ao cliente mais legal da sua vida, de como está feliz pelo sucesso das pessoas e de como descobriu que difundindo assim coisas “tão legais” você se contamina de boas energias, boas palavras, bons sentimentos e mesmo não caindo na armadilha das inevitáveis e muitas vezes chatas imagens de um sol nascendo com uma frase de bom dia, você realmente está contribuindo para um bom dia das pessoas e principalmente o seu.

O mundo precisa de positivismo e se realmente você quer ter hoje um dia melhor, mais saudável e com energia lá em cima, talvez valha a pena pensar assim, além de comandar para você mesmo estas três frases abaixo,  começando a combater uma parte do mal que somos expostos simplesmente todo santo dia:

Chega de bad news!

Chega de fake news!

Chega de sermos tolerantes aos intolerantes!

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