A Estação Luz

24/12/2018


Era dia 24 de dezembro, quase noite, e a Estação da Luz fervilhava de gente que buscava o trem, dentro, e a esperança, fora.

Num canto semi-iluminado, sem dinheiro, mãos estendidas, José buscava a esmola que pudesse ajudá-lo a levar Maria para um hospital público.

O casal, negro ou afrodescendente, porque na dor pouco importa o título, veio do Haiti, fugindo da miséria e da falta para São Paulo, Terra Santa, Belém da estrela, mas só encontraram a miséria da indiferença.

Maria, grávida, sem pré-natal, quase no Natal, estava prestes a ter seu filho. No chão, sem manjedoura, mas sendo manjada por muita gente ao redor.

Sua pele escura reluzia à média luz do seu canto, enquanto um rapper cantava “Mãe” de Emicida e a fome permeava os outros olhares.

De Guarulhos, chegavam senhores e senhoras, vestidos, com malas recheadas, sabe-se lá de que.

E à meia-noite, cansado da espera, num verão, primavera, nasce o negro rebento, batizado Jesus, no mesmo momento em que Fátima, de Belém, saltava na Estação.

Três homens, recém-chegados, vendo a luz naquele canto e penificados com o choro incontido da criança, levaram ao menino, presentes comprados no free-shop ou que tinham em mãos.

Belchior ofereceu sua canção, Sujeito de Sorte, Baltazar deu uma bola e Gaspar deu-lhe um lençol.

O choro atraiu, também, a gorda do bolo, um PCD pedinte e um velho cego cantador, os únicos a se ajoelharem ante o menino.

Cães, gatos, ratos e pássaros, atraídos pela luz, achegaram-se para formar um quadro diverso que, na Luz, produzia imagem de esperança.

Silêncio!

E a lua rasgou o céu e fez a moldura sobre um Jesus negro que, naquele instante, já sorria.

Uma paz estranha para o lugar se fez e a multidão ao redor atraiu polícia, bandido e mídia.

Assim, a imagem correu o País, o menino ganhou guarita numa casa de Deus, embora Ele, Deus, já estivesse de olho no menino faz tempo.

E assim aconteceu mais um Natal...

Eu que vi na TV essa história guardei-a na memória para desejar luz um dia, e ele é hoje.

Que procuremos, então, os Jesus do dia a dia na nossa fantasia de Natal, na busca de um Ano Novo, real, de paz e amor.

 

Por Tony Coelho.

 

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