A Web até aceita tudo, mas cobra alto por isso

25/08/2019


Impossível não ter sido impactado em alguma navegação nas redes sociais - nos últimos dias – referentes a atitude que um “notório” funkeiro brasileiro protagonizou no Exterior, mais precisamente a caminho de um dos parques temáticos da Disney, em Orlando, Flórida, nos Estados Unidos.

Em um vídeo de poucos segundos, a tal subcelebridade em questão, MC Gui, em seu momento de férias, utiliza de seu smartphone ostentação para gravar imagens de uma menina de pouco mais de 8 anos, que nitidamente demonstrava desconforto da situação, até porque o “artista” desconhecido por lá, com total indiscrição e riso solto, debochava de forma cristalina da imagem captada.

O alvo dessa estapafúrdia ação, contrária a tudo que pensamos e acreditamos sobre empatia e noções de civilidade pública, denota ainda mais crueldade pela questão da menina estar se convalescendo de um câncer, com seu corpo fragilizado, sem pelos, cabelos, e, por isso mesmo, usa como recurso a aplicação de uma peruca.

E como o local é pura fantasia e incentiva essa vivência, a menina ali buscava embarcar para um momento de total diversão, apaziguador de dores e impulsionador de esperanças.

Porém, o que vivenciou, por pura irresponsabilidade e imbecilidade humana, foi a caracterização do bullying, em ter sua imagem como foco de chacotas, risos frouxos, sem nenhum tipo de filtro e compaixão.

O Ser intitulado MC, só se for de cerimônias nefastas, fique claro, não se contentou em dividir sua visão com seus “parças” presentes no local, mas avançou no desenfreado compartilhamento digital, como uma sequência de stories retratando seu comportamento que, em sua concepção limitada e insensata, mereceria destaque e ganharia a adesão de seus “seguidores”.

A hostilidade veio avassaladora no meio digital, e, ao ser contrariado e receber críticas de muitos, o tal MC Gui, de forma petulante, disse que a “Internet está muito chata”... Como assim? O meio que o próprio utiliza para proliferar seu “chamado trabalho artístico” e documenta sua experiência de vida para dividir com seus mais de 7 milhões de seguidores (sic) só quer saber de curtidas... de corações... e quando a inversão ocorre justamente por conta de sua irresponsabilidade, ele detona o meio?

Rapidamente excluiu seus stories, achando que seus problemas acabariam... ledo engano... Não há como realizar essa reversão... já que sempre alguém antecipou-se a esse fato e salvou o comprovante de tal rastro desaparecido.

O “artista” então voltou às redes para, de forma pouco crível, pedir desculpas e explicar que contrariamente o que a imagem demonstra, não teve a intenção de gerar tal estupidez. Ele ensaiou um choro - mais falso que lágrimas de crocodilo - e chegou a usar clichês como: “Errar é humano, mas perdoar é divino.”, para tentar sensibilizar a opinião pública, que em boa parte estava escrachando sua atitude cruel.

Nada adiantou... os shows do pseudo artista começaram a ser cancelados e contratos publicitários também foram quebrados... sua imagem e reputação entraram em colapso!

É importante que haja uma reflexão maior sobre o poder das redes sociais e seu uso, principalmente por parte das celebridades, que não conseguem compreender que na atualidade não há mais uma separação entre o público e o privado. Não há só bônus, o ônus vem com a ausência da privacidade, muitas vezes estimuladas pela própria figura pública.

É preciso usar sua fama, sua pretensa identidade influenciadora para, com muita responsabilidade, fomentar o bem e propiciar discussões saudáveis. Tem muita gente com voz ativa nas redes sociais que não possuem estrutura moral para desempenhar esse papel e que acaba contaminando diversos grupos sociais com suas ideias e atitudes.

A Web não é território liberado para tudo ser exposto... há a necessidade de ter profissionais da área de comunicação para realizar de forma metódica e técnica a gestão dessa vida digital, pois de forma centrada poderão ser o crivo selecionador do conteúdo compartilhado, e, nesses casos, ainda é comum, que muitas celebridades ofereçam esse trabalho a colegas, sem nenhuma competência para isso... o que os deixarão ainda mais vulneráveis.

Outro ponto relevante é filmar terceiros sem suas autorizações, sobretudo de crianças. Isso é cabível de processos judiciais, tendo comprovações fortes que não geram nenhuma margem para apelações.

Desconhecimento hoje em dia frente a tantos acessos às informações é uma desculpa pouco convincente. Até porque os artistas e figuras públicas contam com assessoria jurídica e são orientados com relação a isso... pois bem ... deveriam.

O gerenciamento de crises é algo que independente de PF ou PJ deve estar no radar de todos, pois é cabível que em sua trajetória alguma situação seja delicada e induza conduções de como mitigá-la e não permitir que avance e corroa ainda mais sua imagem frente a cenários adversos.

Aliás, esse assunto merece um artigo específico, aguardem!

A história do MC Gui ainda não acabou, até porque, infelizmente, outros virão, por incrível que possamos imaginar, pois muitos não aprendem com seus próprios erros e nem com os dos colegas.

Por enquanto, busquemos expor nossas opiniões, sempre com equilíbrio, de forma educada e sem gerar mais violência, que vai muito além da física, inclui também a moral e humana. Não sejamos similares àqueles que não são referências, não são compatíveis com o viver bem em sociedade. Sejamos conscientes, mas sempre com muita civilidade!

E antes de postar algo nas redes sociais, pare alguns segundos, releia, reveja ou escute novamente sua produção e faça algumas breves perguntas: Isso atende aos meus princípios? Isso desrespeita outros? O que isso irá acrescentar em minha vida e nas dos outros?

Perguntas-chaves... Respostas-chaves ou não para o bem conviver socialmente!

Não as esqueçam! Pois um dia a cobrança chega... e chega alta!

 

Por Andrea Nakane.

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