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É gratis! Oba!*

Por: Marina Pechlivanis 25 de Março de 2018

Marina Pechlivanis

No passado, grátis era a fartura com a qual éramos servidos pela natureza: os recursos naturais por si davam conta da subsistência humana. Curiosamente, é o momento atual que recebe o nome oficial de “era do grátis”: tudo aparentemente disponível, acessível, sem barreiras e tarifas, resultado do imediatismo na comunicação e informação. É toda uma “cultura do grátis”, associada a gratificações instantâneas e cultuando prazeres imediatos e fáceis de se obter, aparentemente sem custo.

Diz o velho ditado — e os ditados são ótimos para isso — “quando a esmola é grande o santo desconfia”. Em um mundo de valores que se dissipam a cada segundo, não seria este grátis relativo? 
São tantas alternativas grátis que as pessoas investem tempo em descobrir caminhos alternativos para dispor de entretenimento e informação sem ter que pagar por isso. “As pessoas que compreenderem o novo grátis dominarão os mercados de amanhã e abalarão os mercados de hoje”, diz o autor do livro Free, o Futuro dos Preços. E completa: “hoje em dia, qualquer pessoa que cresça em uma casa com banda larga provavelmente terá como pressuposto que tudo o que for digital deve ser grátis”, referindo-seà geração dos que têm menos de 20 anos, já nasceram nas plataformas digitais e esperam sempre que as informações sejam infinitas e imediatas. 

“É grátis? Eu também quero!” 
Em psicologia, o processo se chama desejo mimético — se um quer, todos querem, pois as decisões dos outros validam as nossas. Todos se sentem no direito de pegar à vontade, pois, “se estão dando, pegue”. E também desvalorizam, pois, se é dado, talvez não tenha valor. Há quem creia que a informação comoditizada, em que todo mundo recebe a mesma versão, tende a ser grátis; e a informação customizada, em que você recebe algo único e que faz sentido para você, logo tende a ser mais cara. Será? E o que os experts em “frees e freemiuns” pensam disso? Dan Ariely, autor de “Previsivelmente Irracional”, teoriza que “zero é um poderoso botão emocional — uma fonte de empolgação irracional. Boa parte das transações prevê vantagens e desvantagens, mas quando o negócio é grátis, as desvantagens desaparecem, pois as pessoas não têm medo de errar na escolha. O grátis é uma garantia de não perder.” Já Chris Anderson declara que “o grátis não é novo, mas está mudando. E isso está acontecendo de maneiras que nos forçam a repensar algumas de nossas premissas mais básicas em relação ao comportamento humano e incentivos econômicos. As pessoas que compreenderem o novo grátis dominarão os mercados de amanhã e abalarão os mercados de hoje”. 

O grátis não é mais o que costumava ser.
É, não se trata de um milagre da disponibilização irrestrita das coisas a custo zero, um oferecimento gentil da evolução das redes de conectividade e acesso. Especialmente na internet, cuja história e tecnologia se baseiam na noção de que as informações, programações e praticamente todo o resto online são colaborativos, co-criativos, de todos e, além de tudo, grátis. Mas oh, os presentes na web sempre vem acompanhados de um alto preço invisível aos olhos mas de grande impacto.
Por isso eu concluo com Chris Dodd, da Motion Pictures AssociationofAmerica, que resumiu a história toda de um modo muito prático: “conseguiram convencer muita gente de que na internet tudo é de graça. Mas nada é de graça. O modelo de negócios destes sites é você. Cada vez que você busca algo, você está dando audiência para eles. Está dando suas informações, seus gostos e hábitos, e serão vendidos. Não se iluda, não é caridade. Eles vendem publicidade com seus hábitos.”

Achou que era grátis? Mas eu te disse, não te disse?

Fonte: Economia das Dádivas, O novo MilagreEconômico.  Alta Books 2016.

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