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Sabe quando começa o ano de sua vida?

Por: Tony Coelho. 12 de Janeiro de 2016

E nós, que estamos aqui todo ano, até quando Deus nos permitir, achamos mesmo que temos “novos” 365 dias pela frente.

Um texto, de Drummond, um dos meus poetas preferidos, diz  que “Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.”

É isso. Precisamos de esperança e a melhor maneira de fazer isso é termos um tempo marcado para nossos fracassos ou vitórias.

Se não houvesse o ano novo, como poderíamos empurrar com a barriga o final do ano e deixar de fazer coisas com a desculpa: é assim mesmo, no fim do ano ninguém trabalha.????

Ou, quem sabe, refazer a promessa de parar de fumar, de emagrecer, de não votar mais em... Deixa pra lá, porque é certo que vamos continuar errando muito porque outros anos virão.

Como diz o velho e genial poeta “...Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos...”

E não é que a gente entrega mesmo.

- Se até novembro eu não conseguir, fica para o não que vem..

- Esse ano foi terrível, desisti dele no meio...

- O ano ruim...

Bom, e esse é sempre o melhor jeito da gente “sifu”, porque se tem alguém que pode mudar os anos e os tempos esse alguém somos nós. Daí, ao entregarmos os pontos, entregamos o ano que, por certo, se já era ruim, vai ser muito pior.

Nós não nos damos conta de que, enquanto o medo e os ouvidos dados a políticos, economistas e jornalistas nos destroem a força, ficamos paralisados.

Pergunte a quem não teve medo, embora tenha receado pelo ano, e empreendeu, como foi o ano dele. Você vai se surpreender com a resposta de quase todos eles, a maioria mesmo. E ela será: Bom! Muito bom! Ou Promissor!

Foto: Marcelo Carvalho.

Isso porque eles não deram ouvidos ao tempo dos outros e fizeram o seu próprio. O limiar de dois mil e tal não tem final. São anos de nossa vida. Nosso tempo. E só param nele os tolos e fanáticos que ficam a defender os outros e não defendem a si mesmo.

Levanta aí e vai trabalhar, empreender, ousar, encontrar saída. Já sei bem que fulano, sicrano e “os injustiçados” normalmente são párias e vivem pela defesa dos outros, porque são inúteis.

E “a gente somos, ou não somos, inútil”. Lembra?

O velho poeta de Itabira diz que por contra da noção de que existe um novo ano “...entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.”

E se a gente não é Drummond, que tinha a mais nobre das profissões que é a de escrever os textos que nos fazem refletir – e vamos combinar que isso é um trabalho enorme num País em que não se lê e, por óbvio, pouco se reflete -, cabe-nos desejar, focar e fazer. Realizar em ação o que as palavras nos inspiram.

E o poeta nos deseja: “...Para você, desejo o sonho realizado. O amor esperado. A esperança renovada... todas as cores desta vida. Todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar...”

Mas ele deseja isso de sempre, desde 1987, ano em que escreveu essa crônica.

Ele ignorou os anos e os fez todos continuidade de vida. Por isso, continua sentado, em frente a praia de Copacabana, no Posto 6, às vezes com óculos, às vezes não, quando cegos lhe tiram como empréstimo.

Cegos, que como tantos outros cegos, devem comemorar todo ano um ano novo (ano novo pra quê, se nada vem, nada enxergam, nada fazem de produtivo para si e para o mundo?).

Sabe quando o ano de sua vida começou? O dia que você nasceu. Sabe quando ele acaba? Quando você desejar. Isso mesmo.

Por isso, concluiu o poeta: “Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo à sua felicidade!”

Faça seu ano novo todo dia e se faça feliz, como nesse 2016.

Porque não é uma questão de vida ou morte. É uma questão de ficar, ou não, no lugar do seu desejo (praia, campo, casa, nas mentes de quem ama, nas palavras do mundo... 
Como Drummond, que está na praia, nossa praia, praia de felizes encontros. Todo ano, em qualquer ano. 

Partes do Texto Desejos de Ano Novo - janeiro, 17/8/1987- de Carlos Drummond Andrade  
 

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