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Porque eu não fui ao Cannes Lions 2014

Por: 0 17 de Junho de 2014

Talvez seja fácil dizer isso agora que já sabemos que os resultados de P&A não foram o que lutamos nos últimos cinco anos. Mas a verdade é que esse ano eu não fui ao Cannes Lions, encerrando de forma irresignada uma etapa da minha vida profissional. Não foi por causa da Copa, foi por uma espécie de desilusão com o mercado brasileiro de marketing promocional/live marketing, cuja camisa vesti espontaneamente, em todas as vezes que fui lá até hoje. Dizer que Cannes não é um festival para todas as agências não é exagerado. E não digo isso por causa dos quase dois mil euros que pode-se chegar a pagar para participar. Cannes não é para todas as agências por causa do formato de evento que se estrutura. Por causa da mentalidade aberta e disposta a aprender, mas necessária para ir até lá. Por causa da abertura necessária para o networking, com foco no mundo e não em pequenos feudos de controle de informação e clientes, como acontece em vários países que estão lutando pelo desenvolvimento econômico. Pela coragem necessária para conseguir trocar com outras agências, concorrentes ou não, e gerar negócios além das fronteiras do que entendemos por criatividade. Não se vai a Cannes só pelos Leões que se leva ou que se deixa de levar para casa. Se vai a Cannes para se atualizar, para aplaudir, para melhorar as bases das críticas ao mercado e para aprender a ser (auto-)criticado - no caso, quando o case fabuloso não fica nem em shortlist e ao ver os resultados a reação é "podia ter feito esse trabalho". É preciso coragem e ousadia para ir a Cannes. E é preciso atitude para voltar lá e tentar de novo. Entendo, respeito e concordo com a posição de não inscrever e fazer crescer ainda mais a receita do Cannes Lions e ao invés disso, investir do lado de dentro, como defende o Rodrigo Rivellino. É fundamental ter uma equipe forte dentro de casa, é o primeiro passo para chegar onde quer que seja. Mas a Aktuell é uma agência que já está no mundo, que trabalha com clientes globais e locais, que aprendeu a lição de casa. Que tem trabalhos de vulto e reputação para mostrar ao mercado, pode se dar a esse luxo. São 15 anos de estrada. Por outro lado, vejo também um risco bastante grande em não inscrever. É como se esse trabalho grande e de ótima reputação junto aos clientes fosse invisível para mercado. Não mostrar com quantos paus se faz esse marketing de carne e osso, enfraquece o crescimento e o surgimento de outras agências. Não contar o passo a passo, deixar prevalecer o secretismo é uma espécie de roubo - um roubo de conhecimento, que fica oculto em prol do crescimento próprio. Que poderia ser maior se tivesse colaboração, diálogo e até uns pratos quebrados de vez em quando. Se concorrência fosse algo perigoso, o Vale do Silício não existiria. Quando uma agência especializada sequer tenta estar no shortlist, deixa um buraco que vai ser ocupado por outra não-especializada. Casos que representam o desenvolvimento deste mercado no Brasil não aparecem, dando lugar para projetos pseudo-criativos e de impacto questionável. Só eu não acredito que o #SomosTodosMacacos é mesmo o que de melhor se fez no Brasil em 2013/ 2014 quando o assunto é Promo e Ativação? Minha irresignação é ainda maior ao pensar que este ano teremos um dia para celebrar a criatividade brasileira em Cannes e ninguém do mercado promo está lá. Tínhamos que ter um Oliva, um Medina, um Rivellino, um Cláudio Xavier - apenas para citar alguns nomes que já ouvi ecoar com sotaques estrangeiros pelo Palais. Ou então tínhamos que fazer pressão para este dia ser em 2015, depois da Copa, antes das Olimpíadas. Por quê os maiores nomes do mercado promo não estão lá? O mercado está indo muito bem, obrigado, em termos de marketing, de resultados. Mas está faltando aquele aproach, aquela forma estratégica de relacionar, aquele j'ai ne sais quoi que as agências promo/live traduzem brilhantemente no mercado por relacionamento próximo dos consumidores. O meu contato com a organização do festival é direto, e, em cinco anos, nenhum outro site especializado, blog, canal chegou tão perto da essência do festival quanto nós chegamos. Cheguei a ser consultada para pedir indicações de nomes para o Dia do Brasil, depois de ouvir que "o festival não tem contato continuado com os profissionais brasileiros de Promo como tem comigo". Mea culpa: eu me aproximei, na inocência de que estando perto estaria contribuindo para aumentar essa presença lá. O caminho ficou aberto, mas ainda está sobrando marketing e faltando relações públicas para o mercado live brasileiro mostrar mais forte que "quem sabe faz ao vivo". É importante manter a postura de abertura ao aprendizado. É importante mostrar ao mundo o poder do live marketing brasileiro. É importante conhecer os caminhos e saber como mostrar isso, pois até hoje este mercado não descobriu. Tivesse descoberto, estava lá na mesa do Brasil Day e em tantos outros eventos globais, ao lado de outros nomes da criatividade brasileira, fazendo frente às grandes agências que comem a verba e travestem de publicidade os orçamentos destinados à P&A. Tivessem descoberto, estavam lá como a agência digital de um querido amigo, a W3 Haus, que terá a presença do seu CEO, Chico Baldini, nesse tal Dia do Brasil que me refiro. A W3 sabe que o Brasil não é o começo nem o fim do caminho. É um ponto de partida para chegar onde conseguir dentro da sua "nonconformity", que também dá nome à holding das suas empresas. O mundo, aliás, é dos não-conformes. A criatividade é disruptiva. E se o modelo Cannes não colabora para que um mercado com status de indústria se destaque na Riviera, é hora de ir pra cima. É hora de brigar pela bola durante o jogo e no dia seguinte estar perto do adversário no churrasco de comemoração. Em Cannes ainda não existe esse mercado brasileiro de marketing promocional que se fala todos os dias aqui no Promoview. Existe um Anuário, existe um que outro jornalista reporta sobre os prêmios. Mas não existe diálogo, não existe presença. Existe a boa e velha presunção de se fazer presente, pensando em si e esquecendo que uma andorinha só não faz verão - nem no Brasil, nem na Riviera Francesa. Há muito o que se aprender aqui do lado de fora para tornar o Brasil ainda maior. Cannes considerou fazer um dia de evento em São Paulo, este ano, devido à Copa do Mundo. Um dia Live, que poderia ser do Live, em São Paulo e acabou se perdendo no meio do caminho por desconexão. Por maior que seja o trabalho, como o que fizemos nos últimos cinco anos, e a boa intenção, não há como ver a gente incrível deste mercado dividindo a mesa com outros nomes ainda. É isso que me desiludiu. Enquanto o mercado não estiver lutando pelo mesmo interesse, como massa, sem burocracia, a desfragmentação será mais forte. E isso quem está de fora, apenas observando e reportando, como eu, percebe de cara. Não dá para vender aquilo que não se compra. Sou uma fã deste mercado e do trabalho de vocês, mas o meu negócio não é live marketing, o meu negócio é um trabalho de bastidores, que só aparece para as pessoas quando é mal feito ou está em falta, chamado relações públicas. Foi isso que fiz nestes quatro anos e é o que voltarei lá para fazer de 2015 em diante. Não acredito mais na ideia de levar o P&A brasileiro para Cannes da maneira que foi feito até hoje. Da minha parte, Cannes foi uma ideia maluca que tive num dia em Lisboa, quando ninguém dava muita bola para a categoria, nem muitos jornalistas na volta dos jurados após a coletiva havia. Aprendi muito e deixo aqui essas lições, que talvez sejam úteis, talvez sejam ignoradas. Pelo menos ficam registradas. Mesmo de longe, vou estar sempre torcendo pelo dia em que o GP metálico em forma de Leão levantado no palco será de um de vocês que me leem. 

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