Canal
Geral

O CAP e a mídia: a insustentável inocência do ser

Por: 0 1 de Abril de 2013

Por Nelson Rósário dos Santos Carta do Presidente do CAP "No início deste ano, adotamos uma Política de Comunicação inovadora no Clube Atlético Paranaense. Recebi de um dos nossos conselheiros, Dr. Nelson Rosário de Souza, Doutor em Sociologia, uma excelente análise sobre a nossa política e o relacionamento com os veículos de comunicação. Este espaço da Palavra do Presidente é destinado a minha opinião, aos meus pensamentos. Compartilho os mesmos pensamentos e argumentos do Dr. Nelson Rosário sobre este assunto, e, desta maneira, neste momento cedo este espaço para publicar a sua análise. Boa leitura. Saudações rubro-negras, Mario Celso Petraglia.

  O Clube Atlético Paranaense (CAP) adotou uma política inédita para área de comunicação. A nova gestão da informação tem como objetivo, segundo o clube, valorizar os meios de comunicação desenvolvidos pela própria instituição, entre eles: o sítio na internet, a TV-CAP e a Rádio-CAP. O conjunto de medidas gerou forte reação da imprensa de Curitiba que se sentiu perseguida e passou a acusar a direção do clube de autoritária. Uma rápida visita à mídia local é suficiente para coletar vários rótulos, expressões e adjetivos por ela cunhados e repetidos cotidianamente com a pretensão de sensibilizar, e, claro, ganhar a opinião pública: ‘lei da mordaça’, ‘atentado à liberdade de expressão e de imprensa’, ‘perseguição aos comunicadores’, ‘cerceamento à pluralidade da informação’, ‘centralização’, enfim, ‘ataque à democracia e ao interesse público’. Os mais exaltados se sentiram à vontade para traçar paralelos entre a gestão do CAP e regimes ditatoriais como da ‘Coreia do Norte’ ou da ‘China’. No meu modo de entender a atitude radical do CAP, sim, radical, pois, vai à raiz do problema, revela mais sobre os limites dos próprios meios de comunicação (MC) do que sobre supostos vícios na gestão do clube. A política que o CAP propõe mostra-se rica em significados sobre o momento atual do futebol, mas, principalmente, sobre os desafios que batem à porta das instituições midiáticas frente aos avanços recentes nas tecnologias da informação e da comunicação.

Infelizmente, os agentes da imprensa não conseguem decifrar, ou não querem enxergar, as novas configurações da comunicação social. Procedendo desta forma os MC perdem a oportunidade de uma verdadeira ‘auto-reflexão’, algo que seria fundamental para determinar sua trajetória futura. Não é difícil descolar os rótulos que a mídia criou e fixou no CAP durante esta batalha, rótulos consumidos por mentes distraídas ou maldosas. Boa parte da diretoria que hoje está à frente do CAP foi responsável pela alteração dos estatutos do clube que permitiu, em período recente, não só a eleição direta dos representantes pelos associados como também a ampliação do colégio eleitoral transformando-o num dos maiores entre os clubes brasileiros. A atual direção foi forjada num processo de intensa disputa democrática no Conselho Deliberativo (CD) durante a gestão anterior, onde demonstrou capacidade de argumentação e convencimento sobre o projeto mais adequado ao futuro da agremiação. Depois de tomar posse essa diretoria não fez nenhum gesto de restrição à participação dos associados na vida política do CAP, muito ao contrário, viabilizou a criação de diferentes câmaras temáticas onde a comunidade atleticana pode atuar e vivenciar o dia-a-dia do clube. Temas polêmicos foram levados ao debate no CD onde o livre direito de contestação foi, e continua sendo, amplamente exercido. No campo específico da comunicação, vários canais foram criados não só incrementando o processo de informar o público, como também, viabilizando e incentivando a livre manifestação de idéias, críticas e contestações por parte dos conselheiros, associados e torcedores, um exemplo é a ‘Fan Zone’ no sítio virtual do clube. Não são apenas os fatos acima enumerados que contrariam os rótulos produzidos pela mídia sobre o CAP. Quem acessa os canais de comunicação do clube vê diariamente vários atletas, membros da comissão técnica e diretores se manifestando, nenhum deles parece estar ‘amordaçado’. A própria imprensa nunca falou tanto e de modo tão crítico sobre o CAP, logo, não tem sentido dizer que a associação limita, impede ou, mesmo restringe, o trabalho dos profissionais da comunicação. Aliás, clube e mídia são instâncias autônomas, mesmo que quisesse o clube não teria como cercear a livre produção de informação, opinião e críticas. As falas e imagens de diferentes personagens estão disponíveis nos canais de comunicação do CAP, assim como as entrevistas pré e pós-jogo, e a mídia pode reproduzir este material como bem entender, inclusive manifestando comentários críticos sobre ele. [caption id="attachment_278232" align="alignleft" width="562"] Perspectiva da Nova Arena do Atlético Paranaense.[/caption] Neste sentido ela pode exercer a liberdade de discordar, duvidar, ironizar e até debochar do material publicado. Ao reclamar da nova política do CAP a mídia se diz impedida de informar o torcedor, ou seja, se alça à condição de representante da torcida, especialmente dos mais humildes que não têm como acessar a internet. Ora, se esta é a principal preocupação da imprensa, porque ela não faz uso do farto material produzido pelos profissionais de comunicação do CAP? O ponto crucial é que a mídia ao rotular revela um paradoxo, ou seja, a dificuldade em cumprir o papel que se espera dela numa sociedade democrática, qual seja: promover o debate, o conflito de idéias, enfim, mostrar os diferentes lados dos temas. Ao acusar o clube de amordaçar, a mídia, contraditoriamente, mostra que a mordaça está em suas mãos. Primeiro ao recusar o debate, segundo ao não pagar custo de acesso a palavra exclusiva. Ao contrário de uma comunicação democrática, capaz de efetivamente representar o interesse dos cidadãos, ou no caso em foco, dos torcedores, os MC nos presenteiam com a caricatura da realidade onde de um lado estão os ‘maus’ e no seu reduto está o ‘bem’. É interessante notar que só um veículo de comunicação, justamente de fora de Curitiba, noticiou a atitude do CAP como um gesto que abria “o polêmico debate sobre institucionalizar a cobertura do time”, infelizmente o jornalista Bruno Freitas da empresa ‘UOL’ estava equivocado, pois, a imprensa, especialmente a local, não quer debater, talvez porque participar de polêmicas discussões oferece risco e exige reflexão, logo, prefere a confortável arma do ataque. Para debater, a imprensa precisaria primeiro suspender os rótulos e assumir que está diante de uma ‘questão’, um ‘fato’, uma ‘política’, ou seja, não se trata de ‘mordaça’ ou coisa parecida, mas, de uma proposta legítima da direção de um clube democrático que, ao pretender valorizar os seus canais de comunicação, regulamenta a captação de imagens e sonoras dos seus profissionais, ou seja, pessoas que são seus contratados e cujos contratos prevêem, inclusive, formas específicas de uso da imagem. Trata-se, portanto, de reconhecer que no ambiente profissional e caro do futebol é legítimo um clube se valorizar não fornecendo acesso gratuito para a mídia aos seus contratados, tanto mais, que essa mídia não é filantrópica, seu principal objetivo é o lucro. Tudo isto num contexto em que o principal canal de comunicação não aceitou os valores que o clube pediu pela venda da imagem. Seria mais honesto se os agentes da mídia dissessem: ‘o clube quer cobrar pelas entrevistas, pelo acesso aos jogadores, nós não queremos pagar, não achamos correto, é muito caro, não vale a pena etc.’ O risco que os MC correm é grande, pois, só conseguirão imputar ao CAP a responsabilidade da mordaça frente a um torcedor de olhos vendados. O presente episódio e também o histórico da mídia nos faz desconfiar da sua pretensão de representar o público, ou, neste caso, os torcedores. Na sua defesa a imprensa e seus advogados falam em ‘pluralidade’ e ‘descentralização’, o que soa muito estranho, pois, a mídia brasileira é fortemente caracterizada pelo monopólio e pela centralização. Países que levam a sério a palavra democracia impedem na sua legislação o monopólio na cadeia de comunicação, no Brasil esta centralização é tolerada. Aqui uma mesma empresa pode ter o controle de: rádios, TVs (aberta e fechada), jornais, revistas, internet etc. Também é pouco sensato, se pensamos em ‘liberdade’, deixar para um mesmo grupo o controle da produção da informação (e de outros produtos da cultura midiática) e da sua difusão; pois, esta é outra característica da nossa mídia. O que falar do acesso aos meios de comunicação? A legislação brasileira e seus agentes burocráticos não promovem a pluralidade e a diversidade ao franquearem o uso da mídia. Muito ao contrário, as concessões públicas seguem critérios clientelistas, associações de moradores, comunidades, sindicatos, movimentos sociais, clubes, etc. são preteridos em favor daqueles que têm poder político ou econômico. Este cenário de centralização, monopólio e privilégios, explica porque a mídia representa tão pouco, ou tão mal, os interesses dos torcedores. Onde está o interesse do torcedor, por exemplo, quando o jogo do seu time é marcado para as dez horas da noite? Onde está o interesse do torcedor quando um programa de rádio consome 30% do seu tempo com propagandas, fora os intervalos comerciais? Onde está o interesse do torcedor local quando os comentaristas esportivos manifestam sua paixão pelos times do eixo Rio-São Paulo ou do Rio Grande do Sul? Onde está o interesse do torcedor quando a mídia decide boicotar o patrocinador do ‘naming rights’ do seu clube? Interessante o critério de ‘liberdade de expressão’, ‘descentralização’ e ‘pluralidade’ que os MC mobilizam. Os fatos e argumentos indicam que o CAP com sua nova política de comunicação está sim promovendo a descentralização, a pluralidade e contribuindo com a liberdade de informação, pois, produz conteúdos fora da máquina midiática marcada pelo monopólio e pela centralização, ao mesmo tempo, o clube, na defesa dos seus legítimos interesses, não impede que os profissionais da imprensa expressem as suas opiniões. Enfim, a grande questão que se abre para a mídia é: diante dos avanços tecnológicos no campo da informação e comunicação, transformações que criam as condições para que diferentes agremiações, associações, clubes e até indivíduos produzam e divulguem suas próprias informações para o seu público com qualidade e velocidade, o que justifica a manutenção da atual estrutura midiática? O quê as grandes redes de comunicação têm a oferecer quanto à produção de informação? Qual o seu diferencial? Será que o torcedor precisa de representantes ou interlocutores? E mais, com o avanço democrático é aceitável o monopólio e a centralização que marcam a estrutura dos MC atualmente? No caso específico do futebol, por que as entrevistas ‘gratuitas’ feitas por profissionais das empresas de comunicação atenderiam melhor os interesses dos torcedores do que aquelas produzidas pelos profissionais do próprio clube? Questões que se tornam mais instigantes diante da principal inovação promovida pelo CAP, no meu ponto de vista: a possibilidade de o sócio participar das coletivas após o jogo. No horizonte próximo não será surpresa ver os sócios se revezando na cobertura dos treinos e dos bastidores do clube. No meu modo de entender, diante dessas mudanças e inovações só sobreviverão na mídia esportiva aqueles que forem mais ágeis e inteligentes. Olhando para o comportamento da mídia diante da política do CAP vemos que, enquanto a maioria choraminga pelos cantos e recusa o debate e a autocrítica, alguns poucos, mantém a audiência, pois, mostram habilidade para acessar ‘fontes’, exercitam autonomia em seus blogs, revelam competência para análises táticas que não subestimam a inteligência do torcedor, enfim, produzem informações úteis e interlocução que não dependem da velha prática de parasitar o clube e, definitivamente, não se auto-proclamam os representantes de ninguém. Toda novidade exige debate e reflexão, infelizmente, o atual ambiente midiático não parece estar preparado para este tipo de desafio.

Tags: