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<!--:pt-->Nada de reclamações... Flavia Goldenberg<!--:-->

Por: 0 31 de Maio de 2010

Flavia Goldenberg*

Nada de reclamações, mãos a obra!

Foi neste tom que Mohammad Yunus apresentou-se no lll Fórum de Comunicação e Sustentabilidade, realizado no Rio de Janeiro na última semana. Um verdadeiro elixir de motivação e inspiração, baseado em fatos, provando os infinitos efeitos positivos de reagir frente aos problemas, ao invés de somente denunciá-los ou lamentá-los. Em sua fala, de pouco mais de uma hora, Yunus não citou nenhuma das inúmeras barreiras e condicionantes que teve que enfrentar quando iniciou seu programa de microcrédito em Bangladesh. Yunus não falou da submissão que a cultura muçulmana impõe à mulher, a ponto de ter que falar-lhes por meio de paredes de bambus, sem poder olhá-las nos olhos. Não comentou as dificuldades que o programa de microcrédito teve para driblar a violência doméstica, uma vez que muitos maridos não aceitavam o fato de suas mulheres emprestarem dinheiro. Não contou para a plateia sobre o analfabetismo que assola a maioria da população de Bangladesh, nem sobre a fúria da natureza, inundações e terremotos, que dizimavam as plantações e matavam os animais adquiridos com os empréstimos. Não falou da desigualdade causada pelas castas, do descrédito do governo, do preconceito. Enfim, não reclamou de nada. Ao invés disto, tudo que Yunus fez foi falar de suas iniciativas e conquistas, dos empreendimentos sociais criados do zero e alertou: “Crie uma empresa social para cada problema social que seu país tem e ajude a resolvê-los, não espere por benefícios fiscais nem por qualquer ajuda do governo, faça com que o negócio seja social e independente”. E assim, este homem de quase 70 anos, discorreu docemente com um ar jovem e quase travesso a respeito dos projetos que encabeça há praticamente 40 anos. Me senti diante do menino do dedo de ouro do bem social, um anjo que enfrenta as problemáticas mais complexas e as transforma-as em solução. Emocionei-me ao ouvi-lo dizer que ele hoje retorna às aldeias, onde os primeiros empréstimos para educação foram feitos pelas mesmas mães que antes emprestaram para iniciar seus negócios, comprando uma vaca ou um pedaço de terra para plantar. Ele vê mãe e filha juntas, tão parecidas fisicamente, a filha médica e a mãe analfabeta, e pensa que esta mãe também poderia ter sido médica, se tivesse tido esta oportunidade. Aí fica clara sua maneira de pensar. Não sossegar, não se conformar, não descansar enquanto houver pobres neste planeta. Yunus é incansável na maneira de pensar, na determinação em prover o acesso das populações mais carentes a uma melhor qualidade de vida. Geração de renda, educação e saúde são seus principais focos. Exemplo disso são as empresas que criou, em conjunto com a Danone, para prover iogurte a 7 cents para a população mais pobre com o objetivo de diminuir a desnutrição; a fábrica de calçados que está negociando com a Adidas para calçar os pobres de Bangladesh e assim evitar a contaminação de parasitas e de outros microorganismo; além de outros empreendimentos sociais, para levar a telefonia móvel, médicos de família e água potável para aldeias pobres e distantes. Seus projetos são incontáveis e são provas de que é possível transformar a miséria do mundo. Seu sonho é que a pobreza seja assunto de museu e que, um dia, visitemos estes museus com nossos netos e fiquemos surpresos com a maneira indigna que a humanidade viveu até os primeiros anos do século XXI.

[caption id="attachment_28594" align="aligncenter" width="373" caption="Flavia Goldenberg - VP de Comunicação da Ampro e sócia-diretora da Sob Medida Comunicação."][/caption]

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