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Diversão é preciso, confusão não é preciso!

Por: 27 de Dezembro de 2018

Tempos atrás escrevi um artigo: “Bom senso e respeito com vizinhos de eventos”.

Me pareceu propício resgatá-lo com o trágico acontecimento em Paraisópolis desses dias e que muitos já esqueceram ou traçam comentários rasos e distantes da realidade dessas grandes comunidades.

Obviamente a discussão sobre o entretenimento nas grandes metrópoles e a falta de espaços para a vivência deste, é uma discussão socioeconômico que demanda resgatarmos conceitos de lazer, apropriação de espaços públicos, manifestações culturais, entre outros.

Como gestora de eventos, atuante em comunidade com projeto social e cidadã, trago algumas pontuações como profissionais da área de eventos podem considerar e contribuir para que tenhamos um bom ambiente em ações de eventos públicos.

Para as questões mais filosóficas (que também me agradam, destaco alguns materiais abaixo para os leitores mais aficcionados, mas não será meu foco de discussão aqui).

A questão da reapropriação do espaço público em São Paulo tem sido uma demanda forte dos cidadãos e governantes, que precisam pensar “como” esta retomada de áreas deve ser feita.

Os parques, praças, ruas, museus devem ter programações e oportunidade de arte, cultura, esporte e música (é preciso checar se estes equipamentos tem condições estruturais para tal, né?!).

Aliás, marcas que continuamente querem se aproximar de seus consumidores, principalmente os da classe C,D, ... deveriam pensar mais em patrocinar atividades de lazer para as comunidades efetivamente, pois trazer um show num parque pode atender quem mora perto ou não tem problema em gastar o dinheiro de 4 conduções, coisa que mais de 40% da população não pode. Talvez isso seja um alerta para quem cria e patrocina projetos somente para certos cidadãos, não é mesmo?!

Citando alguns locais, temos o Pacaembu - não recebe eventos musicais há mais de 5 anos, devido a uma ação movida pela Associação Viva Pacaembu de moradores do bairro, apoiada no PSIU – Programa de Silêncio Urbano, onde eventos podem ter até 45 decibéis após as 22h00 (uma missa faz mais barulho que isso, portanto…eventos diurnos e olhe lá!).

Também no Jardim Europa fizeram abaixo-assinado devido a barulho com certas festas que ocorrem no MIS, bem como filas gigantes que atrapalham as calçadas, carros nas garagens, ônibus de excursão escolar dificultando a passagem, entre outros. (aliás recentemente, ele abriu uma “nova unidade” para uma região genuinamente de fábricas o que já é um caminho para o convívio positivo).

Moradores da Pompéia e trabalhadores da região já se ressentem do núcleo de 2 shoppings + um estádio numa mesma rua, que tem poucas opções de estacionamento, além de ser um lugar que alaga com facilidade.

Muito do que vemos, se deve ao fato dos locais terem sido construí­dos há um bom tempo, com outros objetivos, quando o entorno era desabitado, porém hoje impacta na vida de muitos moradores e empresas. E cabe aos organizadores de eventos, patrocinadores e gestores públicos equilibrarem perdas e ganhos destas mudanças.

Lembrando que o entorno desses espaços também serve de caminho, moradia, trabalho para muitas pessoas e a convivência deve ser harmônica.

“Gentileza gera gentileza”, “A sua liberdade termina quando começa a do outro” são sábios provérbios populares de convivência e importantes no check list de eventos, principalmente os públicos e abertos. Fiz uma lista de ações que podem ajudar a minimizar impactos de eventos abertos e manter a positividade destes para todos os envolvidos.

  • Informe os moradores do entorno sobre a ocorrência do seu evento e das montagens. Com uma carta simpática e convidando para o evento,  por exemplo;
  • Pense em benefí­cios e facilidades para que moradores e trabalhadores do entorno tenham alguma facilidade para consumir seu “produto de evento”. Exemplos: descontos, assistir ensaios, ir no preview ou algo do gênero;
  • Indique alternativas de roteiro e horários para os impactados. Seja alguém que traga solução, não problema;
  • Instrua fornecedores sobre horário e forma de entregas. A mesma coisa para caravanas e excursões, tente fazer bolsões e ter sempre staffs gerenciando o mesmo para que este embarque/desembarque seja o mais breve e silencioso possível. Isso também serve para carros de artistas e famosos que costumam trazer fãs;
  • Montagens e desmontagens, precisam ser rápidas e bem arquitetadas, para que evitem obstruções e barulhos, e as vezes são necessárias criar benefício de estacionamento cortesia para estes moradores e acompanhamento de staff neste trajeto, quando realizado a noite (fiz isso numa festa tradicional de são Paulo, e foi só elogios da vizinhança que se sentiu considerada);
  • Escute as reclamações, elas podem ser solucionadas em conjunto e de forma harmoniosa;
  • Tenha profissionais especí­ficos para atender as demandas de reclamações, que sejam checadas constantemente e que saibam o que está ocorrendo e possam dar um pronto atendimento, direcionamento e alinhado com assessoria de imprensa;
  • Mude o formato! O Instituto Tomie Othake , por exemplo, agora entrega senhas para as Mostras maiores, minimizando as imensas filas e concentrações de pessoas em calçadas, portões, escolas. E todos saíram ganhando;
  • Faça ações sociais com ONG´s e escolas da região que você está. E anuncie isso para a vizinhança, boas ações diminuem má impressão, pois referem-se a propósitos de marca e entidades;

Nunca esqueça que pessoas são seus consumidores de eventos e formadores de opinião, e cada vez mais os negócios precisam e crescem com a coparticipação de cidadãos. Uma cidade inclusiva precisa de eventos inclusivos, com critério e respeito a TODOS.

José Datrino, criador da frase e consolador voluntário em tragédias, escreveu frases positivas em viadutos do RJ e era considerado o Profeta da Gentileza.

 

Dicas de leitura para refletir:

O Lazer na Periferia : Iolanda Barros https://revistas.unifacs.br/index.php/sepa/article/view/23/16.

Documentário Fluxo: https://www.youtube.com/watch?v=ChFb8lhhjs8.

Favela on Blast: https://www.youtube.com/watch?v=Cugdwa7mndA.

 

Por Líbia Macedo.

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