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<!--:pt-->Alexandre Hohagen fala de internet móvel<!--:-->

Por: 0 1 de Fevereiro de 2010

Alexandre Hohagen, 40, foi contratado em 2005 para turbinar a venda de anúncios para o Google no Brasil. Em 2009, passou a comandar a maior empresa de mídia do planeta na América Latina. Hoje, a companhia domina a internet no Brasil, as receitas cresceram 60% (a maior taxa do mundo) e, a partir de 2010, elas serão diversificadas com o Nexus, o primeiro celular com a marca da empresa. Com ele, o Google vai para cima da Apple, hoje líder de navegação pelo iPhone.

[caption id="attachment_44224" align="aligncenter" width="360" caption="Alexandre Hohagen."]Alexandre Hohagen.[/caption] No Brasil, o preço dos pacotes de telefonia celular e o poder das operadoras entre os fabricantes de telefones podem atrapalhar os planos do Google. Hohagen diz que esses entraves atrasaram a chegada do Nexus ao País. O aparelho será lançado no Brasil no início do segundo semestre deste ano. Ainda segundo ele, a companhia pressiona as teles a baixar os preços dos pacotes de dados para massificar o uso da internet móvel. Isso seria importante para a próxima fase do Google, que prevê a oferta de aplicativos e outros serviços via celular que exigem conexão permanente e estável. Promoview reproduz abaixo a entrevista que Alexandre Hohagen deu para Julio Wiziack da Folha de São Paulo. Folha - Com o iPhone, a Apple passou a liderar o uso da internet via celular. Foi por isso que o Google lançou o Nexus? Alexandre Hohagen - Cerca de 65% dos acessos à internet móvel ocorrem pelos smartphones [celulares que são pequenos computadores]. Dentro desse universo, a Apple detém 60% de participação com o iPhone. O Google nunca escondeu que a internet do futuro será via celular, com serviços personalizados. Essa internet identificará quem acessa, será capaz de localizá-lo, identificar seus gostos, "saber" o que ele procura na internet. A plataforma móvel tem vantagens enormes sobre a fixa para esse tipo de funcionalidade. A ideia do Google sempre foi fazer a convergência da plataforma PC [internet fixa] para a móvel. O lançamento do Nexus tem a ver com o nosso interesse em oferecer essa experiência ao usuário sem nenhum tipo de interferência. Folha - Que interferência? Hohagen - Hoje as empresas de telecomunicações detêm o controle total do que vai nos celulares. Elas definem o sistema operacional, que aplicativos serão instalados, se vai acessar internet, em que rede o aparelho será usado. A estratégia do Nexus é deixar o cliente completamente livre, tanto em relação à operadora quanto ao conteúdo nele instalado. Folha - Esse modelo encontra barreiras nas operadoras, cujo negócio está atrelado à venda de aparelhos subsidiados. Acredita que será possível quebrar as regras? Hohagen - Por isso o modelo é híbrido. Vendemos o aparelho bloqueado -e, nesse caso, vinculado a um pacote de uma operadora- e desbloqueado, para o uso de qualquer chip. FOLHA - Quando o Nexus chegará ao Brasil? Hohagen - No início do segundo semestre. Em breve, devemos enviá-lo para a homologação na Anatel [Agência Nacional de Telecomunicações]. O aparelho está sendo apresentado para as matrizes das operadoras brasileiras. Folha - Por que o Brasil não está entre os primeiros da lista? Hohagen - Porque não chegou ao ponto de inflexão que países como a Índia atingiram. Aqui as operadoras não têm planos de dados com tarifas mais baixas. O Brasil está entre os países com mais celulares, mas o volume de buscas pelo Google via celular no país é baixíssimo. Folha - As teles também reclamam que o tráfego de dados em sua rede é baixo. Hohagen - No fundo, não faz parte da estratégia delas baixar o preço dos pacotes de dados nem vender planos sem limite de uso, que incentivariam a utilização da rede. Quanto custa um iPhone no Brasil? R$ 1.200, mais R$ 200 por mês por um pacote de dados? É um absurdo, estamos falando de quase US$ 150 em dados por mês. Em um ano, acaba custando mais que o aparelho. Na Índia, as operadoras vendem planos ilimitados por US$ 5 mensais. É isso o que chamo de inflexão e é o que o Google espera da América Latina. Infelizmente, a região ainda está muito atrasada. Folha - As teles dizem que os planos são caros porque os investimentos da rede 3G ainda não foram amortizados. Hohagen - Talvez seja por isso que ainda seja caro. Mas, sem planos acessíveis, não dá para trazer ao Brasil aparelhos com mais recursos nem serviços sofisticados. Temos uma série de novidades. Os serviços de tradução são extremamente importantes para a estratégia do Google, mas dependem de haver conexão estável com o usuário. Sem uma rede parruda, não dá para oferecê-los. Folha - Pelo que se observa, a infraestrutura de telecomunicações do país ainda atrapalha a expansão do Google na internet móvel. Mas a crise fez muitas empresas apostaram na web. Isso não ajudou vocês? Hohagen - Sem dúvida. Na crise, muitos passaram a pesquisar preços na internet, procurando ofertas, promoções. As empresas, principalmente as tradicionais, entenderam esse comportamento do consumidor e aumentaram os anúncios. O setor financeiro, incluindo bancos, seguradoras e financeiras, a indústria automobilística e até as empresas de bens de consumo aumentaram os investimentos no Google. O resultado é que crescemos cerca de 60% no Brasil. É a maior taxa do mundo para o Google e, além disso, o país também registrou a maior margem de lucro [cerca de 50%]. O mais importante é que conseguimos equilibrar nossa dependência das empresas ligadas à internet, a base de expansão do nosso negócio. Há cinco anos, 85% dos anunciantes eram empresas do "core business" [empresas do mundo on-line]. Hoje, representam menos de 40%. Folha - Ainda existe preconceito das empresas tradicionais em anunciar na internet? Hohagen - Essa barreira existiu porque essas empresas, principalmente as de bens de consumo, são mais focadas na criação de marca [anunciando em outros canais de comunicação, como a TV e os veículos impressos]. Quebramos essa barreira. Hoje, o Google no Brasil já é o principal destino da Unilever. Em 2009, a GM dobrou seus investimentos, o Santander ampliou seus anúncios em 400%. Ambos não estavam entre os dez maiores anunciantes do Google em 2008. É um sinal de que o mercado brasileiro começa a amadurecer. Na Inglaterra, o volume de investimentos em internet já passou o da TV paga. Folha - Como se comportaram as pequenas e médias empresas? Hohagen - Elas foram um dos fatores que ajudaram a manter nosso crescimento. Grandes grupos não surgem da noite para o dia. Noventa e oito por cento das empresas brasileiras são de pequeno e médio porte e cerca de 25% delas estão conectadas à internet. É um volume brutal de negócios que podemos atingir. Há cinco anos, nenhuma delas anunciava. Hoje são centenas de milhares. Há um empreendedor em Guarulhos (SP) que vendia suplementos alimentares no fundo da casa de seus pais. Ele começou a anunciar no Google e hoje se transformou no maior vendedor de suplementos e equipamentos de ginástica do país. Folha - O Google vai ceder e pagar pelo conteúdo das empresas de Rupert Murdoch [magnata dono de um grupo de mídia que controla o "Wall Street Journal"]? Hohagen - Essa é uma discussão que põe em xeque a distribuição de conteúdo dos jornais impressos. O Google não quer se tornar uma empresa de criação de conteúdo e competir com eles. O que fazemos é simplesmente colocar nossos usuários em contato com o conteúdo dessas empresas no canal Google News. Seríamos como jornaleiros exibindo manchetes na banca. As empresas têm controle total da nossa indexação e da exposição de seus conteúdos em nosso site. Podem até dizer que não querem aparecer nesse canal, como alguns fazem [e como Murdoch quer fazer com seus jornais, como forma de pressionar o Google pelo pagamento]. Mas acho um desperdício, porque geramos 1 bilhão de cliques por mês para esses sites, que poderiam canalizar o tráfego para melhorar sua audiência e atrair anunciantes. Muitos que nos deixaram voltaram atrás porque entenderam que podemos ajudá-los como distribuidor de conteúdo. Folha - Então por que a discussão? Hohagen - Os produtores de conteúdo estão percebendo que a notícia virou commodity. O terremoto no Haiti é uma commodity, porque o internauta encontrará essa notícia em qualquer site jornalístico. Uma entrevista com o general brasileiro no Haiti ou uma análise do episódio passam a ser conteúdos exclusivos. A questão é: como cobrá-los? A internet já tem modelos de micropagamentos que poderiam ser usados para monetizá-los. O que não dá mais é proteger a notícia que todo mundo já tem. É esse modelo que o debate entre Murdoch e o Google deixa exposto. E o Google levará essa discussão até o final, se for o caso.

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