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A crise da solidão consentida

Por: Tony Coelho. 2 de Fevereiro de 2016

Vivemos num mundo de milhões e nos tornamos solitários.

A solidão é ato egoísta e nos priva da saudável opção de dividir coisas. E essa talvez seja a razão de não encontrarmos mais saída para nada.

Existe o solitário da dor, esse o mais conhecido, que vai para o canto e sofre sozinho, muitas vezes sem que ninguém saiba de sua dor, motivos e origem. Angustiado pela própria dor, numa atitude que nem ele entende ser egoísta, sucumbe, morre, ou se mata, em vida, ou de verdade.

Foto: Reprodução.

São egoístas porque acham que ninguém entenderia sua dor, já que é sua. Esquece que muitas dores são nossas, de todos, iguais, e que muitos podem dar ideias, saídas, no mínimo, conforto.

Há os solitários das alegrias, esses poucos conhecidos, mas piores. São os que escondem e não dividem conquistas, alegrias, felicidades, não compartilham nada.

São egoístas da pior espécie, pois não ensinam, transmitem e educam outros. Sua alegria pode ser fruto de saída, maneira de ser, convicção ou atitude diferenciada que bem podiam ser exemplos.

No mundo das tecnologias que nos unem a milhões de quilômetros de distância, somos os solitários mais estranhos. Não dividimos sequer verdades, pois nos tornamos avatares de curtidas tolas e histórias dos outros, compartilhadas como se nossas fossem.

Nós nem a vivemos, na maior parte das vezes. Não raro as enviamos para não nos comprometermos, tipo: “Se der merda, alguém criticar ou me imputar reponsabilidade eu digo: foi fulano, é do site tal, quem me mandou foi sicrano...”

Triste. Nem mais olhamos nos olhos para dizer um eu te amo ou mesmo um vai a merda.

No passado dos selvagens tudo era dividido. Tanto as alegrias das tribos, do nascimento de um novo membro ou as conquistas individuais dos guerreiros, quanto as tristezas de qualquer de seus membros que, amparados, conseguiam se erguer rapidamente.

Hoje, no tempo dos tecnólogos das gerações W, Y ou Z. Dos caras que fazem MBAs e cursos nas universidades do mundo não dividimos nada com ninguém.

Dançamos sozinhos, bebemos sozinhos, vencemos sozinhos, perdemos sozinhos e morremos sós. A sós, na torpe ilusão de que os outros, os idiotas são os caras do Big Brother que não sabem, como nós, dividir nada, a não ser seus micos, capturados nas câmeras do grande irmão.

Os nossos micos acontecem na nossa escuridão. Só com o infravermelho da consciência é que somos devassados.

A crise, nome bonito que encontramos para nossas covardias solo, mostra o quão egoístas somos.

Há dezenas de opções e saídas, e, no máximo, escolhemos a que todos tomam e sai divulgada com pompa, nos noticiários de TV pelos economistas sanguessugas e pelos jornalistas terroristas.

Crise há. Sempre houve. Mas sempre ofereceram saídas só vistas por quem toma ciência dela e não se entrega à derrota anunciada.

Vejam, virão momentos ruins. Mas se alguém te chamar pra dançar, dance junto. Quem sabe não rola abrir um escola de dança? Quem sabe não surge uma parceria ou um casamento?

Em tempos de palavras maravilhosas, usadas com irresponsabilidade por gente que gosta de falar muito e fazer pouco, as dicas são ouro.

Colaborativismo, coworking, complementaridade são a saída. Parceria não, a palavra foi usada demais por gente escrota. Dividir para ganhar, isso sim faz sentido.

O ano começou cheio de manchetes excelentes para solitários de plantão. Textos de deprimir a Poliana – ainda bem que não a li hoje, mas acredite, não traga o jornal para si.

Somos mais fortes juntos, sempre. Precisamos aprender a dividir tudo. Precisamos nos encontrar mais com os outros. No trabalho, em casa, na vida.

Ao invés do Facebook, que tal o face to face, no lugar das fotos do Instagram o selfiegram na praia, no campo, nos velhos encontros de casa, sai o Twitter entra o tu e eu. Sua tristeza é minha, suas angústias são nossas.

Vamos nos reunir na Ampro, se a questão forem saídas conjuntas para seguir no mercado. Vamos nos encontrar mais na agência para dividir os caminhos dela em encontros mais de papo que em reuniões tolas de imposição.

Que tal sair mais com a família para andar, caminhar, se encontrar na praia, na praça, nos clubes, virar tribo mesmo. Assumir uma de selvagem que abre o peito e entra na sua frente quanto a dor vem e diz: dor dividida dói muito mesmo.

Enfim, é só... Só não, não quero essa palavra. É nóis!

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