Especial
Brand Experience em 2020

Fernando Figueiredo: Sempre vivemos no limite

Por: Redação 10 de Abril de 2020

A pandemia do Coronavírus trouxe junto uma terrível crise econômica. Um dos setores mais afetados no mundo inteiro foi o de ativações, eventos e ações de brand experience.

Na atual crise que se instaurou sobre o setor, o momento é de ouvir quem tem experiência com o objetivo de encontrar soluções a curto e médio prazo para superar essa fase tão difícil.

Leia também: Pesquisa apresenta o cenário para as agências de brand experience.

Dando sequência à pesquisa que Promoview realizou junto ao mercado, iniciamos, agora, uma série de entrevistas com quem conhece muito do assunto. 

Esta primeira é com Fernando Figueiredo (Feof), o fundador da Bullet. Ele fala sobre a maior paralisação que o mercado das agências especializadas já sofreu.

Promoview: O ano estava começando bem, com grande prestígio e larga utilização das ferramentas de brand experience pelo marketing das marcas, e, agora, precisa conviver com os impactos do Coronavírus. Qual sua percepção?

Fernando Figueiredo: Este mercado que escolhemos para trabalhar e desenvolver nossos negócios sempre viveu no limite. Com achatamento das margens, diminuição de verbas e aumento de demandas por parte do cliente, sempre tivemos pouca margem de manobra. 

Então, a mudança que vinha acontecendo vai se acelerar agora. As gordas verbas de mídia e pacotes da Globo sempre deram às ATLs um respiro maior para manobras. Certamente, agora eles já enfrentam mais problemas do que o normal.

Na outra ponta, as que vivem de fazer material de ponto de venda e promotoras na rua, sofrerão mais. Se puder arriscar, eu digo que o futuro será daqueles que desenvolvem ideia, estratégia e solução para fazer o ponteiro do cliente se mover para cima.

Promoview: Na parte prática, como a Bullet está encarando esse período de pandemia?

Feof: Trabalhando muito. O fato de você estar grudado no computador com a webcam ligada, faz com que você produza muito mais. Sem logística de locomoção, você faz 3, 4 ou 5 reuniões com cliente por dia, e três com a equipe.

A Bullet já estava preparada para trabalhar virtualmente, no que diz respeito a ferramentas. Mas na cultura de trabalhar remotamente, todos tiveram que aprender em uma semana. Então, é muita reunião de pauta, muitos controles e muita, mas muita proatividade com os clientes.

No entanto, a insegurança é presente o tempo todo.

Por aqui tivemos oito eventos suspensos. Nossa equipe é proporcional às demandas, nos adaptamos a essa realidade. Foram demitidos 30 profissionais de áreas diversas, em sua maioria da área de produção e associados a projetos cancelados. Não temos mais demissões previstas. Ninguém sabe quanto isso vai durar. E mesmo que soubéssemos, não sabemos como o mercado vai se comportar depois disso.

Promoview:  O que muda na produtividade da agência com o sistema home office? É um modelo que deve ser utilizado com mais frequência pela agência, mesmo após a quarentena?

Feof:  Neste momento minha impressão é a de que para aqueles que estão se habituando com o trabalho remoto será difícil voltarem integralmente ao sistema antigo. Porque home office é menos logística e mais produtividade. Sai o controle de horas e entra o controle por entrega. As pessoas, sozinhas, aprenderam a produzir mais. E arrisco dizer: administrando melhor o seu tempo. Adoraria ver uma agência 100% remota. Nunca estivemos tão perto desta realidade. Mas temos que esperar pra ver o que vai acontecer.

Promoview: O que vocês estão fazendo agora e que reflete no faturamento?

Feof:  Programas de incentivo digitais, engajamento digital e eventos por streaming estão sendo deflagrados agora. Muitas estratégias promocionais estão sendo desenvolvidas preparando o momento de after crise.

Promoview:  Fala-se de ajuda governamental para setores de turismo, cultura, publicidade. Isso leva à reflexão sobre a  posição do seu negócio no mercado. O que esta crise vem mostrando?

Feof: Nunca fui e não vai ser agora que vou esperar o Governo me salvar. A salvação não virá daí. Acho desnecessário qualquer investimento nosso enviando cartas ao congresso, ao senado, ao governo. Linhas de crédito são essenciais, mas fora isso, o Brasil entrará em colapso. Nosso mercado é apenas um pedacinho de algo que, se o governo olhar, terá que ser com carinho. Mas de maneira geral, a minha resposta sobre aquelas opções é de que estamos por conta própria.

PromoviewSobre a medida governamental que vai financiar salários e facilitar a questão de tributos.

Feof: O fluxo de caixa é a única coisa que as empresas tem que olhar com cuidado. Lucro ou prejuízo pouco importa. Portanto, qualquer coisa que suporte o caixa para um período que ainda ninguém sabe qual é, vale a pena.

Promoview: Quais devem ser os impactos na economia e no mercado de live marketing brasileiro em curto, médio e longo prazo?

Feof: Cada um tem uma teoria. Eu tenho a minha. No segundo semestre teremos mais entregas que tragam resultado aos clientes. Que mudem o ponteiro de sell in e sell out. Por isso, eventos corporativos perderão força no segundo período do ano. Foi assim no Plano Collor. Foi assim em 2008. Mas aí vem a minha visão mais apocalíptica. Não acho que as verbas não gastas no primeiro semestre migrarão integralmente para o segundo. Muitos clientes viram suas vendas despencarem. E verbas serão devolvidas às companhias para compensar resultados.

Promoview: E lá, dentro do marketing, onde estão as verbas, já se consegue perceber o estado de espírito?

Feof: Ali, de acordo com o que perguntaram na pesquisa, fiquei entre as opções A e C. Nas duas primeiras semanas do confinamento todo mundo ficou inerte. Muito pelo ineditismo dos acontecimentos. Muito pelas notícias conflitantes pipocando em todas as telas. Mas agora muitos clientes estão arregaçando as mangas e tentando tirar leite de pedra, migrando entre a causa da pandemia e a necessidade de vender mais. Nos últimos dias, percebe-se a diferença da atitude entre o pessoal de marketing das marcas de acordo com o segmento em que elas estão.

Promoview: E o papo com eles quando tudo voltar ao normal?

Feof: Bem, a gente já está percebendo que mudou muito. Resta saber se esta mudança se sustentará após a crise, quando anunciantes e agências resolverem sentar para tratar de vez a relação.

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