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McDonald's volta a gerar polêmica nos Estados Unidos

Por: BBC Los Angeles. 30 de Novembro de 2015

É possível emagrecer comendo seis meses exclusivamente em um McDonald's? Para responder à pergunta, o professor americano John Cisna fez justamente isso. E sua dieta de seis meses, baseada exclusivamente nos produtos da rede de lanchonetes, aliada a 45 minutos de exercício quatro a cinco vezes por semana, teve como resultado a perda de 27kg e a redução dos níveis de colesterol em seu sangue. Diz ter restringido o consumo de calorias a duas mil por dia.

Imagem: Reprodução.
John Cisna mostra que é possível emagrecer se alimentando apenas com os produtos do McDonald's.

Cisna protagonizou uma experiência inversa a do jornalista Morgan Spurlock, que em 2004 fez um documentário - Super Size Me - mostrando os efeitos negativos de 30 dias de consumo exclusivo de sanduíches e afins do McDonald's.

E isso não passou despercebido pelos executivos da empresa, que o contrataram para ser embaixador da marca: e o professor passou os últimos 12 meses visitando escolas primárias ao redor dos EUA, exibindo o documentário em que relata a sua "dieta do palhaço".

Marketing 'Disfarçado'

O filme se chama 540 dias: Como a escolha faz a diferença. Nele, Cisna afirma que seu experimento "Demonstra não haver nada de errado com o fast food e nem o McDonald's" e que durante os seis meses de dieta ele consumiu hambúrgueres, sorvetes e batatas fritas.

No entanto, o uso de um embaixador do McDonald's para dar conselhos nutricionais a crianças e adolescentes despertou a fúria de inúmeras associações de pais e professores nos EUA.

A rede de lanchonetes está sendo acusada de fazer uma ação de marketing disfarçada. Nutricionistas mostraram preocupação com os efeitos da campanha do McDonald's em um momento em que as autoridades americanas e em diversos países ocidentais tentam conter os índices de obesidade infantil. E sobretudo com a "pregação" sobre o fast food em um ambiente escolar.

Foto: Divulgação.

"Nossas escolas não deveriam ser espaços em que corporações divulgam suas marcas a crianças.", disse à CBS News Sriram Madhusoodanan, da Corporate Accountability International, ONG que pressiona empresas por maior responsabilidade.

Para nutricionistas, o controle calórico e o exercício teriam feito Cisna perder peso de qualquer maneira. Eles criticaram o documentário por não fazer referência à importância de uma dieta balanceada e que inclua frutas e legumes.

O professor, no entanto, afirma que seu objetivo não era "recomendar que as pessoas comessem exclusivamente algum tipo de comida", mas sim ressaltar a importância das decisões pessoais. O McDonald's, por sua vez, defendeu o programa de Cisna com o fato de que muitos jovens americanos comem fast food. Mas a empresa recusou os pedidos de entrevista feitos pela BBC na Grã-Bretanha.

Em um comunicado enviado ao jornal Washington Post, uma porta-voz da rede de lanchonetes, Christina Tyler, disse que objetivo das palestras é "provocar um debate sobre escolhas e equilíbrio". "Acreditamos na oportunidade de mudarmos a maneira como falamos de nutrição e bem-estar para que os alunos tomem decisões mais bem informadas sobre sua saúde e sua dieta ao longo da vida.", disse Tyler.

Patrocínio

O Post disse que muitas escolas aceitaram a oferta das palestras de Cisna porque já recebem doações do McDonald's ou participam de programas patrocinados pela rede de lanchonetes, inclusive ações de relações públicas como uma que professores servem hambúrgueres em filiais (McTeacher's Night), com parte da renda sendo revertida para os estabelecimentos de ensino.

Por sinal, diversas associações de pais e professores já pediram a suspensão dessas atividades, que consideram exploratórias. Mas o McDonald's diz que os eventos com professores já renderam mais de US$ 2,5 milhões para escolas americanas.

A advogada Bettina Siegel, especializada em assuntos de política nutricional, foi quem alertou a mídia americana sobre o programa de palestras de Cisna. Ela iniciou uma petição on-line pedindo que o McDonald's suspenda a iniciativa e já recolheu mais de 75 mil assinaturas.

"Quem assiste ao documentário pode ver que se trata de um comercial disfarçado do McDonald's. É uma publicidade corporativa muito agressiva, algo que não deveria ter espaço em uma escola.", disse Siegel à BBC Mundo.

"Se o documentário quisesse ensinar as crianças a fazer escolhas mais saudáveis no McDonald's, tudo bem. Mas o filme não faz isso, e sim incentiva a comer ainda mais fast food.", declara Siegel.

Siegel afirma que o McDonald's há muito tempo tem uma estratégia para introduzir sua marca em escolas. "Sempre por meio de ações que ajudam a financiar estes estabelecimentos. As grandes companhias de alimentação sabem que crianças são impressionáveis e que lealdade a uma marca começa desde cedo. É importante que pais e professores tenham consciência do que está acontecendo."

A advogada diz que não defende a censura ao documentário, mas que não concorda com sua exibição em escolas - argumento endossado pela Corporate Accountability Internacional. "Este documentário é um item em uma longa lista de estratégias que o McDonald's tem usado para se dirigir às crianças. A empresa se aproveita dos problemas de financiamento das escolas para obter uma imensa plataforma publicitária"., diz Sriram Madhusoodanan.

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