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A carta de tempo

Por: 27 de Janeiro de 2020

Se você está acostumado a usar uma folha de papel sulfite A4, imagine juntar 16 delas e aí você saberá o que é um formato A0 (841x1189mm), foi neste exato tamanho de papel que eu tive que desenhar uma carta, sim uma carta e talvez o meu trabalho mais curioso.

Era começo de vida profissional, eu era desenhista técnico e numa mesa “Archimedes”, com canetas a nankin, normógrafos, gabaritos e esquadros, fazia os desenhos que ilustravam os materiais didáticos da área de treinamento técnico da Itautec.

O trabalho em si era uma carta ou diagrama de tempo: uma infinidade de linhas que representavam ondas que sinceramente não entendo até hoje rs, mas que traduziam a análise dos sinais digitais de vários componentes, servindo como uma base importante para o aprendizado dos técnicos.

Desenhadas com esmero e cuidado, pareciam um grande osciloscópio ou equipamento de quase 1 metro quadrado que mostrava as ondas que determinavam os sinais ou metaforicamente a vida de cada componente ali descrito, quase como um equipamento da UTI mostra os batimentos e a frequência cardíaca de alguém.

Eu guardo até hoje uma cópia heliográfica deste projeto. Um pouco pela curiosidade e outra por ver num trabalho tão técnico, chato talvez pelo olhar da criatividade e da busca de novas ideias, um busca de cuidado e preocupação nos detalhes que já era uma característica minha, mas que hoje eu até posso até dizer de onde elas vieram.

Em dezembro último eu ganhei de presente simplesmente o rascunho deste projeto, guardado há 30 anos em poder do seu autor, numa colagem de várias folhas quadriculadas encontrei o draft a grafite do que eu depois transformei em artefinal.

Foi divertido ver este material depois de tanto tempo e se deixar impactar pelos significados tangíveis e intangíveis de tudo isso, afinal ele era mais do que um rolo de papel amarelado pelo tempo, ele significava o poder de transformar, de fazer melhor, de deixar legível e de buscar fazer bem tudo, inclusive aquilo que a gente as vezes não vê tanto valor.

O presente veio do meu amigo de 40 anos Zezinho. Nascido José Lourenço Pires, também conhecido por Joe, Lou, Lawrence ou por LOUrenço, sempre com a primeira sílada bem marcada e quase soletrada quando se identificava ao telefone.

Ele também traduzia a sua sempre presente preocupação em preservar a memória e a história, afinal era ele que possuía e mantinha muito bem organizadas todas as fotos do passado, vídeos e recortes de uma época que a gente sempre lembra com saudades.

Há cerca de 1 ano essa galera começou a se rever. Fora uns kilinhos a mais, cabelos de menos e as mudanças normais de tanto tempo, o reecontro foi um elixir da juventude, principalmente diante de um cotidiano cada vez mais complexo.

Lourenço foi um dos articuladores do reencontro e a cada um deles, trazia mais alguns materiais para reavivar nossa memória. Sempre organizado, meticuloso, inteligente, extremamente culto e polido de uma forma que sempre me surpeende. Ele sempre foi um mestre, seja como instrutor, professor, autor de inúmeros materiais didáticos, consultor e principalmente quando na posição de amigo, traz conhecimentos que numa generosidade sem precedentes divide e compartilha pelo prazer que tem em ser assim: amigo. E nestes encontros, ele cumpria seu maior papel: reunir gente.

Esse amigo de tanta gente, ao ponto da esposa Maria Eugênia não entender porque precisava e se comunicava com tantos amigos, nos deixou na última semana.

Depois de uma breve, mas intensa batalha, muitos de nós só pode revê-lo numa cerimônia onde emocionados não acreditávamos que talvez o maior agregador de toda aquela galera incrível que trabalhou há 30 anos juntos e que hoje reencontramos como se os tivéssemos deixado no mesmo lugar, estivesse numa situação onde não interagiria, não daria uma sugestão, não traria mais um conhecimento ou dado, nem usasse as canetas coloridas que sempre tinha a mão (e que foi uma costumes herados dele na minha vida), para esboçar suas ideias, ilustrar sua linha de raciocínio ou deixar mais claro onde estávamos e para onde deveríamos ir.

Não falaria de Kraftwerk, Deep Forest e Enigma, não dividiria seu prazer por ficção científica e por conhecimentos sempre intensos que iam de espiritualismo ao Excel. Como citou posteriormente o amigo Silvio Guerini: “Every time an old person dies, it’s like a library burning down”( Alex Haley).

Fora o ambiente triste, a consternação e a falta de palavras, sobrava aquele baque de não entender, ao mesmo tempo em que ao nos encontrarmos com pessoas que não víamos há muitos anos, aparecia um brilho intenso de prazer e de saudade por revê-los. Alguns sorrisos apareciam, uma piada escapava, até gargalhadas se ouviram, mas antes de qualquer chance de um olhar mais severo e do descumprimento de uma norma social para a situação, a gente entendia que essa era a melhor forma de homenageá-lo: manter acesa a amizade que ele tanto cultivou, quanto também incentivava.

Existem pessoas que passam na vida da gente deixando traços inconfundíveis, nos inspirando e nos moldando, em layers sucessivos com outras influências e que constroem o nosso eu, a nossa forma de ser, mas muitas vezes sem conseguirmos identificar estas origens e legados.

Eu consegui num flash ver sua grande influência em mim, e nos papos trocados, percebia a influência dele nos outros. Era o sinal claro que de que ali só velávamos um corpo, porque sua essência e vida há muito já havia sido teletransportada: um pedacinho para cada um de nós.

Nos últimos dias e com a fatalidade que se antecipava, eu me questionei severamente em como manifestar à ele alguma coisa. Discutindo os amigos Marciano e Helton, acatei o cuidado necessário de que não deveria promover um clima de uma despedida, mas não achava justo que não soubesse o que estava acontecendo aqui fora, queria que ele tivesse a noção que por traz do respeitoso silêncio e distanciamento que todos adotaram pela situação delicada, haviam muitos telefonemas e mensagens trocadas, muitos pedidos de boas energias e preces feitas, e muitos desejos de que tudo pudesse acontecer da melhor forma. Não queria que ele não soubesse isso.

E como desde sempre escrever foi minha mais usual forma de expressão, mandei-lhe uma mensagem e que muito gentilmente sua filha Elisa pôde ler para ele, e é com ela que hoje eu encerro minha coluna: uma grande homenagem não só a um grande amigo e ao qual eu devo um sonoro e gigante obrigado, mas um exemplo da essência do que é este movimento #MTT (MondayToThank): poder ter a oportunidade de ser grato e dizer o quanto uma pessoa é ou foi importante, tanto pela liberdade de expressão e consciência de ter dito, quanto pela justiça de poder chegar à ela ainda em tempo de ser ouvida, recebida e considerada, o feedback do legado que talvez ela não tenha tido chance de conhecer.

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“Lawrence, certamente eu não sabia e até hoje eu não sei para que serve uma CARTA DE TEMPO kkk, mas você me presenteou recentemente com a original deste meu trabalho mais intrigante. Afinal, quem vai ver sentido em desenhar numa folha A0 um monte de linhas oscilando, subindo, descendo, se estendendo em ondas e ainda tentando fazer isso da melhor e mais profissional forma possível? Você, certamente!

Se não bastasse o apuro e a consciência de um alto nível de entrega que você me passou e passou para todos em sua volta lá na Itautec, havia neste trabalho a síntese de uma relação de amizade que começou acreditando em alguém que nem acreditava nele direito, ainda mais depois do desastroso teste de desenho, usando mal e porcamente o normógrafo e a aranha kkk. Lembra-se?!  Se você não tivesse convencido o Ari (nosso chefe), eu nem tinha entrado…kkk

E hoje, a carta do tempo é uma metáfora para o momento de grande desafio que você está passando aí no hospital, com linhas muito parecidas oscilando numa tela ou várias... Apegar-se a estas linhas, deslizar por elas e acreditar na sua continuidade é a tônica deste seu momento e essa é a minha (e a de todos aqui de fora) maior torcida.

Infelizmente não consigo colocar mais nankin nas canetas 0.1, 0.3 e 0.5 e ajudá-lo a desenhar este seu diagrama, mas sem dúvida posso te dizer que todos nós aqui estamos unidos nos mesmos desejos por você e te enviando os melhores pensamentos, energias, preces e vibrações mais sinceras, honestas e cheias de gratidão, respeito e honra, porque fazer parte e estar junto são coisas caras à você, aprendemos muito bem isso contigo.

E mesmo aí no meio deste monte de “osciloscópios” e aparelhos, não deixe de acreditar que estamos juntos, em pensamento, em coração e em sentimento, respeitando obviamente o ambiente que não pode receber sem medo de bagunça a Turma do Ari, Minoru, Mauro e Lourenço, mas completamente conectados e unidos em desejar pra você o melhor, da melhor forma e sempre para um bem maior. Você sempre nos honrou com sua amizade e a nossa amizade hoje honra à você com a melhor das nossas intenções. Receba a nossa grande onda (sem oscilação) cheia de força, vida, energia, amor no coração e muita fé Zezinho, Lou, Joe, Lawrence e Lourenço. Estamos numa grande torcida por você(s)”.

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A carta do tempo da vida dele oscilou como o desenho que fiz há tanto tempo ou como a nossa própria vida faz, e no momento em que as ondas deram lugar à linha contínua e sem variação que mostrou que a própria vida não estava mais ali, só nos resta imaginar ou que nada há mais do que uma linha tendendo ao infinito ou que por obra de algo especial, mágico ou divino (se você assim acreditar) esta linha possa ter dobrado 90o e de forma vertiginosa subisse bem alto, onde um grande sol possa acolher a memória e a alma de mais um cara incrível quem soube que na vida, nosso maior legado são realmente as pessoas.

Que possamos encher de ondas, ritmos e movimentos a nossa própria Carta do Tempo, mandando os sinais mais claros e audíveis que estamos aqui vivendo nosso melhor momento.

#MTT Zezinho, Joe, Lou, Lourenço, Lawrence… o marido da Maria Eugênia, pai da Elisa e amigo de todo mundo.

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