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E nós cuspimos e andamos...


7 de Julho de 2020

Quando éramos crianças e o coleguinha da creche não nos dava o brinquedo ansiado, por nossa falta de poder de argumentação, salvo o choro compulsivo que, normalmente, a tia ignorava, pedagogicamente ou por não identificar quem chorava, nós cuspíamos nele... e seguíamos.

Se ninguém nos admoestasse ou a mamãe não tomasse providências, a partir daí, cuspíamos em todo mundo que nos contrariasse: tia, amiguinho, irmão, até na mamãe no papai... isso até que a vida nos fizesse crescer, de fato, ou o papai, mamãe ou tia nos ensinasse, pela educação, porrada ou pelo conhecimento melhores maneiras de se defender e argumentar.

Os cuspes ficaram no tempo... e nós andamos.

Aí, nossa sociedade, que amadurecia, não só pela experiência democrática, mas também pela experiência profissional, nos fez engolir a saliva, e, por que não, alguns sapos, nos oferecendo o embate argumentativo profissional e maduro daqueles que sabem que o caminho é sempre buscar o meio termo.

Engolimos até o politicamente correto, depois a ideia de que ser profissional é ser amigo e passivo de quem gostamos, de que a Universidade boa era a que dava diploma e caminhamos para a ideia de que sempre um lado é que tem a razão. Qual?

Claro que num mundo de “memes” como esses acima fica muito difícil argumentar.

Propor leitura? Ninguém lê.

Instruem-se pelo que diz o Google ou as redes. Propor reflexão? Como? Se os argumentos são frases repetidas e miméticas que mais parecem lavagem cerebral em peixinhos de aquário.

Propor debate? Com quem não sabe falar e grita? Com quem só quer ser ouvido, mas não ouve?

O mundo tinha que parar. Parou!

Só que ninguém desceu.

A vida monótona, de coroa e tudo, chegou a você que era de um lado ou de outro. A verdade que surgiu era pior que a minha e a sua, mas era a verdade.

Deu no que deu.

Sem argumentos estruturados, estudo, livros, debates, profissionalismo, até grandes homens viraram brutamontes tolos, ou melhor, viraram crianças.

Começamos a chorar, lamentar, espernear e... a cuspir marimbondos.

Me dá a verdade aqui! Me dá a posição de fato! Me dá meu espaço! Me dá razão!... ou “scrash”, cuspo em você.

Ninguém tinha, ou tem, razão. Aí, “babou!”

E as crianças grandes tomaram o Congresso, as ruas, as casas, fazendo “pipi” e “totô” em público e cuspindo nos coleguinhas que não davam seu voto de confiança.

“Ficaram de mal”, terminaram relações de amizade antes do tempo, e os momentos legais sumiram no isolamento sem querer.

Sem ter o que fazer, sem nenhuma justificativa plausível, “liveamos” e andamos.

Enquanto isso, ganharam a TV, os telejornais dramaturgias, o BBB, as Fazendas dos realitys medíocres, que são o espelho do que somos, e valorizam, invariavelmente, o mau caráter, o surdo, o demagogo, a criança mimada e a história mal contada.

E o mercado... onde as crianças já tinham ganho espaço, não quis pagar a conta, nem a do Job entregue.

Na escola imatura dos donos da verdade, com seus MBAs do nada, agora virtuais, continua o cospe-cospe... em grandes projetos híbridos, com profissionais experientes e donos de argumentos que podiam mudar muita coisa para melhor, mas...

Eles batem o pé, apenas isso. Literalmente, estão em casa, com medo do Papai do Céu, surdos, mudos, querendo seus brinquedinhos de volta, seus cargos de nome bonito, sua cadeira fofinha e seus sonhos-desenhos de poder. 

Só para poderem cuspir, como no passado, em alguém. Mas, não vai dar. As máscaras tendem a não deixar.

Vivemos o momento do cuspe interno.

Mas o que esse momento reflete? Qual a reflexão? Eis a questão.

A nossa imaturidade, pessoal e profissional, tem destruído empresas, escolas, partidos, comércio, indústria, natureza, e, claro, o próprio País.

Imaturidade que nos aprisiona no medo, na covardia, na falta de argumentos e de visão; que paralisa o ser e não permite empreender ou buscar soluções; que mata ideias, pois não há o necessário confronto delas.

Imaturidade não tem ouvidos, tem boca. Agora, você entende por que seu cliente não te ouvia? Por que nós não ouvíamos nossos pares e nossa gente? Não ouvimos o mercado, o consumidor e o mundo? Não ouvíamos nada nem ninguém? Só o silêncio nos fez perceber isso, em casa.

Ou choramos, ou batemos perninha, ou ficamos emburrados, tristes e amuados, ou... cuspimos (os tais marimbondos, os gritos, os impropérios, a raiva...)

Estamos cuspindo faz tempo no prato-mundo que comemos.

O prato virou, agora é catar o que sobrou.

Chega! Engulamos o choro, a saliva e, mesmo de boca seca e vazia, ouçamos nossos corações e mentes.

Depois, vamos levantar e agir na live vida, no live marketing das ferramentas e novas ideias nas mãos.

Cuspamos, metaforicamente, na crise, no vírus, no medo, porque eles já cuspiram demais na nossa cara.

Já deu!

Até salivei!

Tags: Tony Coelho | artigo