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Acabou a quarentena. Que venha o novo normal


24 de Agosto de 2020

Hoje, começa uma nova vida.

Acordei sabendo, desde ontem, que a pandemia acabou. Estou pronto para o novo normal.

Acordei cedo, talvez ansioso pelo novo, e fui tomar banho.

Ops, cadê a água? Liguei para o porteiro.

Ele disse que tá faltando água no bairro. Que isso é normal. Só tinha água no banheiro dos fundos, mas o chuveiro de lá não tem gás. Banho frio. Tudo bem.

Tomando banho, esqueci o xampu. Ao final, me dei conta que esqueci a toalha também. Ninguém mais em casa, todos saíram cedo para curtir a retomada tão esperada.

Saí do banheiro molhando tudo e... cadê as toalhas na corda. Minha mulher pôs pra lavar para começarmos com tudo novo o primeiro dia sem isolamento. Normal.

Fui pro quarto, molhando tudo, peguei a toalha, enxuguei-me. Que roupa colocar num dia desses? Não sabia. Roupa de festa, comemoração, ou roupa normal, do dia a dia – dia-a-dia antes da quarentena, porque se colocasse a da quarentena, sairia de cueca.

E lá fui eu e... elevador enguiçado. Normal. Tinha o outro, mas resolvi ir de escada, afinal era tudo novo.

Ganhei a rua. Gente passando pra lá e pra cá, poucos com máscaras. As máscaras caíram? - Pensei cá comigo de máscara. Não, as máscaras de quem não se tocou sim, mas, normal.

Rumo ao metrô. Lotadéssimo e atrasado. Aglomeração. Fui não. Normal mesmo.

Vou de bike. Não tinha nenhuma. Perguntei ao guarda: Tem não? Ele, gentil, respondeu: Tá vendo não? É, realmente, não tava.

Disse mais: Quebraram um monte, roubaram quatro e o resto alugaram. E terminou: Mas isso é normal.

Vou de Uber!

Preço nos infernos.

Peguei.

Janelas abertas. Amigo, dá pra fechar e ligar o ar?

Dá não, cidadão, responde o motorista de máscara, espirrando álcool gel pra tudo que é lado no carro.

Concluiu: Devido à pandemia, as normas e protocolos determinam que devemos viajar de janelas abertas.

Mas a pandemia acabou!, disse eu.

Quem disse?, perguntou ele.

Todos os Órgãos de Segurança de Saúde, governos, enfim.

A Globo disse?, retrucou. Não sei, creio que sim, respondi.

Pera aí, vou colocar no Jornal da Band.

No exato momento, veio a notícia do fim da pandemia e a volta ao novo normal.

Eu não acredito. Se quiser soltar, fique à vontade. Só com a vacina da Inglaterra eu fecho as janelas. Vacina chinesa, não.

Bom, fomos de janela aberta.

Cheguei ao Centro, saltei.

As pessoas passavam indiferentes. Fui tomar café. No café, todos sentados à mesa, ignorando todos ao redor, mesmo os da mesma mesa, celulares nas mãos, ligando teclando ou ¨liveando¨, e isso tudo é normal.

Cheguei ao meu prédio, vazio, um monte de salas fechadas.

Perguntei ao porteiro: Cadê as pessoas?

Que pessoas?

As que trabalham aqui.

Bom, estávamos fechados há 5 meses, comecei hoje, sábado. Muitas salas estão fechadas, empresas faliram, dizem, e acho que só começam, quem sobreviveu, na segunda. Qual seu andar, sua sala?

Informei.

Essa sala tá fechada faz um ano.

Putz. Esqueci. Tinha mudado para home office faz tempo. Normal, cabeça ao vento, sempre.

Bom, de toda forma, obrigado. Vou pra minha nova sala.

Voltei pra casa.

Lá estavam todos de casa, que também esqueceram que era sábado.

Caras tristes, me disseram: Nada mudou. Normal, disse.

E voltamos a nos isolar até segunda.

E descobrimos que o novo normal é igualzinho ao velho.

Vida que segue.

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