MICE BUSINESS

MICE BUSINESS

Guerra na Ucrânia: impactos nos eventos para os próximos meses

Guerra na Ucrânia: impactos nos eventos para os próximos meses

Este canal é patrocinado por
Este canal é patrocinado por


23 de Março de 2022

Por Nuno Seleiro, diretor da AsserBiz, na Event Point International

No final de janeiro de 2022, que já parece ter sido há muito tempo, fiz uma reflexão sobre o “não arranque” dos eventos.

Entre os motivos, contavam-se as ausências dos colaboradores por infeções COVID e a incerteza sobre o levantamento das restrições.

Passaram 50 dias sobre essa reflexão. E a única certeza que temos é que há mais incertezas.

Em relação à pandemia, assistimos, desde o início de fevereiro, a um alívio das medidas e do sentimento da população de que estávamos a regressar a um novo possível normal. E assim estivemos duas a três semanas.

Leia também: Viagens corporativas crescem e diversificam exigências das empresas

25 de fevereiro de 2022. A guerra entra na Europa, algo que já não acontecia entre Estados, desde 1945. Nem o meu pai ainda era nascido.

Uma guerra com terríveis consequências para um povo e que fez renascer medos num continente que julgava ter paz eterna. Algo que a História ainda não conhece.

Aparte disso é uma guerra que decorre na globalização entre dois países com peso no fornecimento de matérias primas. O que é que isto tem a ver com eventos?

Tudo.

Vamos por partes:

- O fornecimento de matérias primas ligadas à energia (petróleo, gás natural) impacta em toda a cadeia de produção e distribuição. Desde as indústrias, aos transportes, ao varejo. Desde o momento em que sai da terra, que é minerado, que é produzido, até ao consumidor. A eletricidade que é necessária também em toda o ciclo económico. O resultado é um aumento de preços quase semanal em alguns casos e ainda sem perspectiva de parar.

- As matérias primas alimentares como os cereais (trigo, milho). Estamos a falar de impacto no pão, farinhas, massas, itens que fazem parte da cesta alimentar de todos nós.

- A restrição no acesso a fertilizantes. Um dos países é um dos maiores produtores de fertilizantes. Acresce a isto o fato de estarmos em seca, e a capacidade produtiva nacional fica afetada.

Nuno Seleiro: eventos corporativos irão viver contextos de incerteza devido aos orçamentos com custos a oscilar, com a incerteza da vinda dos participantes e os próprios orçamentos das empresas podem ser suspensos para este tipo de iniciativas. Crédito da foto: Hélder Pinto

Estes são fatos materiais. Mas a Economia move-se pelas percepções dos vários agentes: produtores, investidores, Estado e consumidores. E as teorias econômicas, perfeitas nos calhamaços das universidades, perdem força com a incerteza. Há perda de poder de compra, fruto da inflação (as previsões foram revistas na semana de 10 de março para números superiores a 5%). Com o BCE a aumentar as taxas de juro para combater a inflação, o que poderá acontecer e como poderá impactar o setor dos eventos?

- Com a diminuição do poder de compra, as empresas venderão tendencialmente menos, logo os seus orçamentos de marketing e comunicação poderão sofrer revisões em baixa. Além disso as pessoas que podem ir a eventos, por força do aumento dos combustíveis e do menor poder de compra, poderão ir menos do que se espera;

- O aumento dos combustíveis e matérias primas pode representar uma redução de margem muito significativa ou mesmo causa prejuízo pois por vezes estes custos representam 30%,40%, 50% numa empresa industrial ou de transporte. Mesmo não falando em suspensões e falências, a retração vai causar menos deslocações, menos investimento.

- Comunicação discreta ou em suspenso – Em tempo de guerra quem vai comunicar alegria e festa? O que comunicar nesta fase? Há 77 anos que não se assistia a um cenário assim em solo europeu. Aliás, desde 25 de fevereiro que estamos a assistir a um silêncio compreensível. E isso tem impactos em eventos, ativações de marca, campanhas promocionais.

- A saída das multinacionais da Rússia e da Ucrânia (esta última por força do conflito, a primeira pelas sanções) implica um orçamento global com quedas significativas para quem estava presente nesses mercados. Podem os outros mercados compensar? Podem, mas é um esforço hercúleo numa altura onde os consumidores estão a refrear os seus consumos.

Eventos de lazer poderão ser válvula de escape para a população e o turismo também promete um bom ano de 2022.

O artigo já vai longo, mas o que pode significar para os eventos em Portugal?

Permita-me dividir entre mercado corporativo e o de lazer, e entre portugueses e estrangeiros. O turismo em Portugal promete um bom ano de 2022, ainda para mais porque na Europa estamos afastados do conflito em termos geográficos. Os turistas estrangeiros têm mais poder de compra e por isso Portugal continuará a ser interessante por essa via.

Os eventos de lazer poderão ser o escape de uma população preocupada, com concertos e festivais a poderem retomar as dezenas ou centenas de milhares de pessoas. Mas em visitas culturais o impacto já poderá ser diferente.

A população portuguesa tem um poder de compra baixo para consumo em eventos. Com a inflação e custos de sua cesta básica a poder aumentar largas dezenas ou mesmo centenas de euros, podemos vir a assistir a uma quebra de consumo acentuada. Enquanto na pandemia estivemos fechados, mas a “mandar vir” take-away ou produtos online, o impacto no consumo poderá ser nestes tipos de compras.

Os eventos corporativos irão viver contextos de incerteza devido aos orçamentos com custos a oscilar todas as semanas, com a incerteza da vinda dos participantes que “fazem contas à vida”, e os próprios orçamentos de instituições e grandes empresas que podem ser suspensos para este tipo de iniciativas pelos motivos já explicados.

Se calhar daqui a 50 dias a reflexão será outra. É o defeito dos economistas. Mas a incerteza não diminuiu, diria que até aumentou.

Que a paz chegue depressa, primeiro, para bem de um povo que tanto sofre e, depois, para um continente que está receoso.

Tags: eventos negocios event-point opiniao mice-no-promoview ucrania guerra