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Por quê o Uber Eats deixou o Brasil?

Por quê o Uber Eats deixou o Brasil?


20 de Janeiro de 2022

por Dennis Nakamura, Especialista em economia digital, cofundador, mentor, consultor e sócio de várias Healthtech, Foodtech e outras startups

Por ter tido a oportunidade de ajudar na gestão e ganho de escala do iFood, muitos amigos têm me questionado sobre os motivos que levaram o Uber a encerrar o Uber Eats no Brasil, sua divisão de delivery de alimentos. Mas o que pode tê-los assustado a ponto de abandonarem o mercado para Rappi, iFood e alguns outros menores? 

Em seu comunicado oficial, o Uber vai mudar sua estratégia para focar apenas em entregas de supermercados, lojas e pacotes last mile e o Uber Eats continuará funcionando apenas até 7 de março. 

O delivery tem um papel excepcional nessa pandemia, pois esse consumo é influenciado por fatores como a economia, acessibilidade e cultura, segundo a Dra. Rosa Garcia da USP. Pilares estes que foram completamente influenciados pela chegada do Coronavírus e agora outras "novas" doenças também. 

Como especialista em inovação e startups no Brasil, digo que esse mercado de delivery não é nada fácil nem mesmo para os grandes. Quero mostrar alguns fatores que podem ter impactado nessa tomada de decisão:

UBER EATS CRESCEU, MAS DÁ PREJUÍZO 

Apesar das vendas (GMV) e receita do Uber Eats quase triplicarem durante a pandemia, não cresceu tanto quanto a o "Uber Eats Asia", e também se mantém dando prejuízo, uma vez que a batalha acirrada pela fome do consumidor consome caminhões de dinheiro em marketing, desconto tanto para o consumidor quanto para o restaurante e incentivos financeiros para reter a preferência por entregas dos motofretistas. 

De acordo com levantamentos da Measurable AI, em 2021, empresa que analisa Notas Fiscais Eletrônicas por meio de inteligência artificial gerando dados "mais oficiais", e ainda há uma hegemonia muito grande do iFood perante o UberEats e demais concorrentes como mostrado no gráfico a seguir:

Podemos observar que o iFood ainda retém cerca de 80% das NF eletrônicas no Brasil, enquanto o Uber Eats têm 10%. Por uma prática de parte das startups em não gerar lucro, todo o caixa livre pode ser reinvestido no crescimento por meio de cupons de descontos e marketing como mencionado anteriormente. E segundo o CFO do iFood, é uma escolha da empresa dar prejuízos nos balanços patrimoniais em busca de crescimento e fidelização do cliente. 

Outro dado que confirma essa diferença de market share é o mapa de presença desses aplicativos em todo o Brasil: o Uber Eats tem visivelmente menos presença que o primeiro lugar.

FALTA DE CUSTOMIZAÇÃO E AUTONOMIA

Como a maioria das empresas globais, o Uber Eats possui governanças que precisam ser seguidas para facilitar a "ordem na casa". Já tive a oportunidade de contribuir com startups globais e pedir customização de plataformas e políticas era um verdadeiro parto. E customização é essencial para que uma plataforma ou startup se misture com a cultura e crenças locais para que fique mais atrativa aos parceiros e consumidores.

Essa falha não costuma ser uma falha da empresa, mas é importantíssima para uma expansão mais eficaz para outras culturas.

NÃO TER ATINGIDO SEU PLENO POTENCIAL COMO O IFOOD.

Apesar do Uber Eats ser um dos grandes players de delivery no mercado tupiniquim, ele ainda ficou longe de atingir seu pleno potencial. 

Uma das estratégias de algumas startups é crescer mesmo dando prejuízo, pois acredita-se que com uma base de clientes suficientemente grande, é possível reverter os prejuízos e ganhar dinheiro. 

E uma das formas para ganhar esse dinheiro é por meio de novas unidades de negócios, estratégia essa que o Uber não conseguiu explorar tão bem durante sua estadia por nossas terras. 

Vamos pegar o iFood como exemplo. Iniciou suas operações em 2011 ganhando comissão e mensalidade sobre as vendas de comida. Já em 2015, começou a fornecer o serviço de entregadores também. Em 2016, passou a revender embalagens para os restaurantes, e pouco tempo depois, vendo que a brincadeira era legal, começou a vender insumos como ingredientes e equipamentos também além do supermercado para os consumidores finais. 

Em seguida criou sua própria adquirência ou subadquirência para a prestação de serviços de cartão de crédito, que antes era terceirizada para a Elavon da Stone, depois veio o iFood Pay, meio de pagamento "por QR code" e que evoluiu para Mobile Pay que também possui Contas Digitais atualmente (banco). 

Em cada um desses serviços, o iFood cobra uma parte como qualquer banco ou prestador de serviços. Ele cria e fornece novos produtos e serviços para a sua própria base de consumidores e clientes que já possui. 

E além dos serviços listados anteriormente, iFood também oferece seguros para restaurantes e mais recentemente, o "vale refeição iFood". Todos esses produtos certamente já estavam mapeados pelo time de gestão do Uber Eats, entretanto não tiveram tempo hábil para implementá-los e gerar melhores resultados para a unidade de negócios Uber Eats. 

RISCO POLÍTICO BRASIL

O Presidente Bolsonaro sancionou no dia 5 de janeiro de 2022 o projeto de lei que obriga empresas de aplicativos a contratar para seus entregadores seguros para acidentes durante o período de trabalho. 

As apólices não poderão ter franquia e devem cobrir acidentes pessoais, invalidez permanente ou temporária e morte, entre outras questões, segundo a Secretaria-Geral da Presidência da República.

Estudo o mercado do delivery online há quase uma década, desde que fui um dos gestores do iFood e ajudei algumas outras grandes startups relacionadas, mas é um segmento agressivo, difícil e complexo.

Certamente a saída do Uber Eats do Brasil não foi à toa e conseguimos discutir todas as questões por horas afins. Caso não concorde ou tenha algum outro ponto que acabei esquecendo de mencionar, deixa aqui embaixo nos comentários.

Tags: aplicativos uber-eats melhores-da-semana delivery