GERAL

Prontidão, atenção e jogo de cintura


1 de Maio de 2021

Uma reunião memorável com Lázaro de Mello Brandão.

 

Estava no meio de minha trajetória de 17 anos no Bradesco.

Um certo dia, meu diretor me chamou, e disse que estava saindo de férias, e que havia indicado meu nome, para que qualquer necessidade da diretoria, me fosse encaminhada.

Saí da sala dele, já pensando nos pepinos que viriam, com a maior certeza.

Mas, é sempre uma oportunidade.

Tudo transcorria muito tranquilamente, até que um dia, meu telefone de casa tocou, e uma voz do outro lado da linha, muito gentilmente, disse, sem deixar tempo para que eu esboçasse qualquer reação: “Senhor Luiz Fernando? 

Bom dia! 

Secretaria geral do banco Bradesco. 

O Sr. Brandão pede que o senhor suba, pois ele deseja falar-lhe”.

Para contextualizar a todos, alguns detalhes importantes da cultura da organização.

1 - Quando alguém da executiva chama, o mundo para, e você atende imediatamente.

Até aí nada demais. Em todas as empresas que trabalhei era mais ou menos assim.

2 - O expediente começava às 8 da manhã; mas como eu estava substituindo um diretor, deveria chegar à Cidade de Deus, até às 7 da manhã.

Voltemos a situação.

Atendi, muito assustado. Afinal, eram 6 da matina, e a secretária estava me dizendo que eu precisava subir imediatamente.

Quando se tratava do Sr. Brandão era sempre para ser o mais imediatamente possível.

Eu respondi incrédulo: Olha, muito bem, mas você sabe para qual telefone ligou, não é?

“Claro, tentei o seu celular, mas o senhor não atendeu”.

Pois é, eu disse. Ainda estou em casa, respondi como se eu estivesse atrasado umas 2 horas.

“Tudo bem Senhor Luiz, mas venha que ele está te esperando”.

Bem, só dava para escovar os dentes. 

Fazer a barba muito rapidamente.

Colocar o terno, ainda bem que a gravata era muito fácil de vestir.

Pegar o carro, e ignorar todos os radares do caminho.

Da minha casa, até Osasco, gastava 25 minutos em um dia bom.

Mas eram 6:15 da manhã, e de certa maneira era a minha sorte.

Consegui chegar faltando 5 minutos para as sete.

Subi, me apresentei na recepção do quarto andar, e aí mais uma notícia inesperada: “Bom dia Senhor Luiz. O Senhor está procurando o Sr. Brandão, não é”?

Respondi, quase antes da moça terminar a pergunta: sim, sim. 

“Ah, só um momentinho. Ele está na sala vermelha com uma visita”.

Nossa, mas que maravilha. Além de deixar o presidente do Conselho de Administração do Banco esperando pelo substituto do diretor, ele ainda está com uma visita.

Era impossível me acalmar.

A situação só se complicava.

Subi, e ao chegar na antessala, uma pessoa me avisou baixinho: “Ele está com o Sr. Laudo Natel”.

Gente é assim. Eu queria sumir. Eles estavam me esperando há 56 minutos.

Entrei.

E como sempre, Seu Brandão, muito educadamente se levantou, me cumprimentou, e me apresentou ao Sr. Laudo.

Eu de pé, tentando pensar um jeito de desaparecer, rapidamente.

Mas, Seu Brandão virou-se para mim e disse: “Luiz, sente aqui conosco”.

Eles estavam tomando café da manhã.

Sentei, apesar da vontade de querer sumir.

“Então Laudo, faça a pergunta que você queria fazer. O Luiz é do marketing, e certamente vai saber te responder”.

Eu imaginei, agora é que desandou de vez. O que será que esse homem vai me perguntar. Será que vou saber responder?

E aí veio a questão: “Luiz, o Bradesco vai patrocinar o Corinthians”? 

Até hoje, mesmo quando estou escrevendo este texto, lembro-me do que senti naquele momento. Sabem aquele cara, que vai para uma prova oral, com o reitor da escola, e cai o ponto que ele mais sabia? Pois foi isso.

Respondi, e Seu Brandão disse a Seu Laudo: “E agora Laudo, satisfeito”?

E emendou, dirigindo-se a mim: “Não quer tomar um café conosco”?

Agradeci muito e saí, me dirigindo à minha sala.

Ao chegar em minha mesa, vem um engraçado e diz, “É chefe, chegando tarde, não é? São 8:05. Vai que alguém da executiva te chama”.

Não respondi. E ele ainda virou para mim e perguntou: “Quer tomar um café?"

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