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Comunicado importante da terra Brasilis à Corte de Lisboa


3 de Junho de 2020

Carta a El Rei D. Manuel, Dominus.

Senhor,

Hoje, 22 de abril de 2020, posto que o Capitão-mor de Vossa frota, e assim os outros capitães, devam ter escrito a Vossa Alteza depois da notícia do achamento desta Vossa terra, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, sabendo, ora pois, que minha última missiva se deu em 1 de maio de 1500. Então passados alguns anos, desde aquela data, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!

Todavia não tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e continuo a perceber nestes últimos 520 anos. 

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo; E digo que?:

Primeiramente, durante estes anos de história, depois que proclamaram a República e afastaram a família real do poder, não sei se esta notícia chegou a Lisboa, o único rei que aqui fez um pouco de sombra aos Orleans e Bragança e sua estirpe, foi um moço chamado Pelé, que também atende pela alcunha de Edson.

A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março de 1500, foi cancelada por conta do isolamento social, mas é bem verdade que, sem prejuízo de nossa missão de nos perder em águas de calmaria, avistamos essa Ilha de Vera Cruz, então no dia 22 de abril daquele ano, conforme planejamento de nossa Capitânia.

Na noite seguinte à partida, amanheceu e percebemos que se perdeu da frota o Vasco, que com sua nau, ficou pelo caminho.

Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas... não apareceu mais!

Para aqui voltar, procedente das Índias do Sul, onde existe o temeroso Cabo das Boas Esperanças, tive que ir até a cidade que aqui foi criada em homenagem à Família Real Portuguesa, Joãonesburgo, e tomei uma nau voadora de nossa companhia Transportes Aéreos Portugueses – TAP. 

Quis o destino, que esta nau voadora tivesse o nome de Vasco da Gama, o que muito temor me causou, pois quando ela navegava com a frota poucos anos atrás, se perdeu e nunca mais foi vista até este momento.

E assim seguimos viagem.

Vossa ilha cresceu muito por estes anos; e como havia comprado acomodações até a capital desta ilha, fui parar em um lugar muito estranho.  

Esta imensa terra que apreciamos em nosso caminho, que segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas, parece-me que se desenvolveu na direção do mar Atlântico, tanto é que neste lugar a que chamam de capital, hoje só resta um lago e as praias que avistamos no passado, aqui não mais se encontram.

Quando aqui aportei, soube que o Capitão mor mandou lançar o prumo e convocar todos os preclaros comandantes, para durante a ancoragem limpa, tomarmos decisões em importantes temas neste novo 22 de abril. Ali ficamo-nos toda aquela manhã, por pouco mais de 2 horas, seguindo em direitura ao que mais importava.

Por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo nas conversas, a sondar as intrigas corte a dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia conselhos para aproveitarmos a quietude destes momentos de paz para passar a boiada toda, o que não entendi, dada a obtusidade de minha razão, pois o dito gajo deveria trazer os assuntos da grande floresta, majestosa, que é, e que ainda resiste por este nosso tempo nestas terras de Vera Cruz. E, pelo dito ou não dito, uma boiada irá por ali passar, destruindo as árvores. E o pior, peidando a torto e a direita, contribuindo para o aumento dos gases de má reputação.

Todavia, aquele momento tornou as feições de outrem, um tanto avermelhadas, apesar de bons rostos e bons narizes, bem feitos, estavam todos nus, sem cobertura alguma. Não percebiam, mas digo que estavam. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas, ou de mostrar a cara. Acerca disso são de grande incongruência. Metem-se pela parte de dentro; e a parte que lhes fica, e? feita a modo a ser a maior. E trazem-na ali de sorte que na?o os envergonha, nem lhes põe estorvo no falar, nem no agir.

Mostraram-lhes um papagaio pardo, que o Capita?o traz consigo, e logo este começou a tagarelar, dando ordem de prisão a outros mancebos que, se eu bem assimilei a mensagem, ali não se encontravam, pois ninguém se movimentou. 

Trouxeram-lhes água em uma albarrada, para que cada um o seu bochecho, apenas lavassem as bocas e depois beberem em xícaras um café pequeno.

Vossa Alteza deve saber que a decisão de enviarmos degredados para esta terra, deu resultados importantes. O Capitão, seguindo sua ordem, mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem já esta noite.

Eles cresceram em número, e hoje habitam estas terras. Andava lá um que falava muito aos outros e então uma senhora tomou a palavra e com muita veemência conclamou a todos que ali estavam para neste ilhéu, na Pascuela, fôssemos ouvir a pregação.

E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par de decretos para combater um povo, que imagino não seja destas terras abençoadas e que pela quantidade, não seria necessária tanta força; afinal eram somente 19, este povo estrangeiro chamado Covid.

E que, portanto, n]ao cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo. E assim ficou determinado por parecer melhor a todos.

Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos com outra notícia. 

Tomou a palavra um gajo, que reforçou ainda mais as questões relativas ao estranho povo estrangeiro, afirmando que nossa gente é de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, tudo seria mais ameno, visto que não têm nem entendem crença alguma. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor. 

E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta vossa terra revi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza ha? de ser de mim muito bem servida.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste lugar que chamam de capital, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, primeiro dia de junho de 2020.

 

Tags: artigo | Luiz Fernando Coelho