Geral

Priorize conexões reais assim que der e sempre que puder


9 de Julho de 2020

Como você gostaria que fosse o próximo encontro com seus amigos?

Como você gostaria que fosse o próximo encontro com aquele cliente que você está tentando conquistar há tempos?

Estou certa de que a maioria vai, intimamente, responder que gostaria de se encontrar pessoalmente.

Outros, para dizer o quanto são adaptáveis, dirão que será em uma sala de uma ferramenta de reuniões virtuais, compartilhando histórias (um de cada vez, sem intervenções, segundo as regras do happy-hour virtual) e um vinho (escolhido a dedo para cada participante por meio de algoritmo de IA), enviado via aplicativo de entregas.

Eu sou uma entusiasta do uso da tecnologia, mas acho importante olhar com reserva para alguns aspectos do uso dela em todas as áreas da nossa vida.

Que bom que temos as plataformas digitais que nos ajudaram a manter nossos relacionamentos enquanto estamos em distanciamento social, mas está na hora de falarmos a respeito da nossa necessidade como animais políticos e sociais que, segundo Aristóteles, buscam a comunidade para alcançar a completude.

Até que ponto as plataformas digitais, incluindo redes sociais, cumprem esta tarefa?

Pensando nisso, fui pesquisar mais um pouco sobre o assunto e encontrei um Ted de Susan Pinker, psicóloga canadense, que estuda sobre a importância do contato face a face em nossa época de mobilidade ágil e comunicações digitais. 

Ela diz que algumas ferramentas de interações virtuais estão bem avançadas, mas ainda não trazem os mesmos benefícios que as relações presenciais (face a face). Ela explica que o contato presencial (face a face) libera neurotransmissores. 

Um simples aperto de mãos, uma troca de olhares libera oxitocina, o que aumenta nosso nível de confiança e baixa o nível de cortisol, diminuindo o estresse. Dopamina é gerada, o que nos deixa mais animados e diminui a dor. “Construir interações face a face em nossas cidades e em nosso dia a dia, reforça nosso sistema imunológico.”, diz Susan Pinker.

Fiquei pensando nesta questão do sistema imunológico e me lembrei de minha mãe contar que ela era obcecada por limpeza quando meus irmãos mais velhos eram pequenos e que não os deixava se sujarem e, quando se sujavam, logo dava banho e trocava suas as roupas. 

Então, meu avô disse a ela: “Maria, deixa estas crianças se sujarem um pouco, limpos assim eles vão ficar doentes.”

Vendo nossa nova realidade com tanto banho, álcool em gel, higienização de tudo e distanciamento social, não ficaremos mais vulneráveis a outras doenças? E, neste meio tempo, caiu em minhas mãos um artigo do The Telegraphy, mostrando que a cientista da Universidade de Oxford Sunetra Gupta diz que o lockdown e o distanciamento social deixam nosso sistema imunológico fraco, pois as pessoas estão menos expostas a germes, e, então, desenvolvem menos defesas para protegê-las de futuras pandemias. Bingo, vovô José João.

E a formação da ética, do caráter, da personalidade e da empatia em um mundo futuro, em que a maioria das interações seria virtual? Em conversa com meu professor de filosofia, Osvaldo Rinaldi, ele me disse que tem medo que as pessoas neste contexto de virtualização voltem a viver dentro da caverna, a caverna de Platão.

Falamos um pouco sobre conhecimento ser linguagem e linguagem ser relações. Da mudança do “Penso, logo existo” para o “Apareço, logo existo”, que mata Descartes cada dia mais um pouco.

Já estamos vendo efeitos disso: informação por meio de fake news, polarização, terra plana, antivacina, negacionismo, e por aí vai.

O Ser humano é dicotômico e está sempre escolhendo um dos dois lados, em vez de tentar se equilibrar entre uma coisa e outra, eu fiz uma analogia enquanto fazia minhas tarefas domésticas da quarentena: poxa, a bucha tem o amarelo e o verde para justamente você saber quando usar um ou outro na lavação de louça suja. 

E tem gente que insiste em usar só o verde, e vocês sabem o que acontece, né? E no que diz respeito à tecnologia, que veio para nos aproximar e maximizar nossas interações, estamos pegando o caminho das discordâncias e disputas e, no seu aspecto mais sombrio, podemos estar sendo manipulados e controlados para agirmos assim.

A tecnologia é boa, mas precisamos tentar dominá-la antes que ela nos domine, se é que já não dominou e estou aqui dando tiro no meu pé, pois, daqui a pouco, vão me desligar da Matrix.

Por isso, a importância de questionarmos sempre. As soluções existem e vêm de vários campos do conhecimento que estão em ação para estudarem estas novas formas de relação: pedagogos, psicólogos, antropólogos, sociólogos, comunicólogos, filósofos etc., e deveríamos urgentemente buscar este conhecimento e repassarmos. 

Onde buscamos isto? Ora! Em livros e no Google (Santo Paradoxo). Busquem conteúdo verificado, conteúdo de universidades reconhecidas, veículos de imprensa sérios. E quando tiverem em posse de informação de qualidade e validada, divulguem e priorizem conexões reais, assim que der e sempre que puder.  

Assim, nos precavemos e às pessoas que nos cercam dos efeitos das vidas que inevitavelmente serão cada vez mais vividas virtualmente. Para que o mundo virtual não tire, ainda mais, nossa humanidade.

Tags: artigo | isolamento social | mercado de trabalho | distanciamento social | Fabrícia Botelho