Geral

Lugar de (quem) fala


15 de Junho de 2020

Ele tinha reposta para tudo e se engajava nas mais diferentes frentes.

Orador competente, conseguia transmitir suas ideias de forma tranquila e envolvente.

E, profundo estudioso de tudo o que acontecia, se antecipava aos grandes temas que viravam moda, trazendo pronta um visão abrangente e sempre na hora certa.

Foi aí que recebeu o convite para ser curador de uma palestra. Na época, começava-se a discutir sobre o tema diversidade, e ele já tendo participado de eventos e congressos, sentia que estava pronto para trazer o assunto. Escolheu então esse tema para a curadoria.

Desenhou então o argumento, estruturou o roteiro e ofereceu aos organizadores. E em uma reunião onde se unia ao grupo organizador, com alegria e cheio de boas intenções apresentou a ideia, mas se surpreendeu quando perguntado porque ele, branco, hétero, classe média, seria a opção melhor para discutir sobre o assunto.

Na mente dele era óbvio que não fazia parte de um dos grupos profundamente prejudicados, perseguidos ou alvo de preconceito, mas ele tinha na diversidade uma visão diferente, inclusive a de que como ser humano que era, filho de migrantes nordestinos, estudante apenas de escolas públicas, morador da periferia, vindo de uma vida muito humilde e podendo cursar uma faculdade apenas depois dos 25 anos de idade quando pôde pagá-la do seu próprio bolso, ele tinha tido também a oportunidade de conhecer os olhos tortos de quem era mais do que ele, o comparativo que aparecia sobre onde tinha estudado ou morava, o olhar descrédulo quando dizia que nunca tinha tido uma festa de aniversário e que não podia receber amigos em uma casa, que nem sala tinha.

Tinha consciência que isso seria pouco em vista do que acontecia com as vítimas do horroroso preconceito racial, à lamentável perseguição étnica, à incompreensível rejeição a outras opções sexuais, fora outras tantas coisas horríveis como o assédio moral ou sexual, o machismo, a pedofilia e outros tipos medonhos de coisas que infelizmente muitas pessoas passavam.

Mas conhecia o preconceito social, a ideia preconcebida das classes mais altas, os olhares tortos e a dificuldade em se impor em um mundo que achava óbvio que já conhecesse a Disney, que o seu pai tivesse um carro, que viajaria em todas as férias, que calçasse um Adidas ou tivesse uma Calói. 

Havia uma expectativa tácita de que usasse marcas da moda e pudesse sair todos os finais de semana para uma balada, cinema e um lanche depois em um dos lugares da moda. Mas ele não podia.

Não que hoje se sentisse frustrado ou traumatizado, mas já havia gasto muito tempo e dinheiro em terapias para aceitar o valor que tinha dentro de si e para se distanciar de inúmeras crenças ilimitantes que acompanham qualquer tipo de pessoa que não estivesse dentro de um status quo

Neste ponto, ele não era diferente daqueles que foram vítimas de outros tipos de preconceito, pois também havia pago o preço de não fazer parte de um preset, um padrão ou um tipo de conformidade que para alguns tinha que ser default.

Mas de nada adiantaram os seus argumentos, repetiam enfáticos que não tinha “lugar de fala” e mesmo insistindo que ele não estava tomando o lugar de ninguém, mas que como todos – inclusive os daquele sala – era um Ser humano que representava um dos 7.2 bilhões de tipos diversos do mundo, e, nesta condição, tinha todo o direito de falar sobre diversidade. 

Eles preferiam que fosse alguém que representasse uma destas “categorias”, e colocou na sua mente a palavra entre aspas, porque não tinha achado muito legal eles terem chamado de minorias. Achou também melhor não se indispor e agradecido abriu mão da oportunidade.

Ligou então para os amigos que já havia convidado para participar, avisando que não teria mais a palestra. Quando perguntado, não se furtou a falar a verdade, sendo apoiado por todos que ele estaria trazendo com a pertinência de falarem de suas histórias, afinal eram todos diversos e diferentes, mas divertidos pela forma como driblavam preconceitos e dificuldades. 

Eles não ligavam para o que tinha acontecido, viviam intensamente a vida que hoje tinham, praticamente esqueciam do passado, mas respeitavam as dores e se engajavam, porque eram o conteúdo, ele apenas os apresentaria, aliás, a curadoria seria essa: ele tinha imaginado ser apenas um fio condutor onde todas essas pessoas se manifestassem.

Ele era correto demais para passar à frente de alguém e se passar por quem não deveria, mas sabia o seu lugar e via naquela decisão dos organizadores um pouco de preconceito e muita falta de ousadia. Praticamente um visão fechada, em um mundo que um novo mindset pedia.

Ficou se perguntando sobre o tal lugar de fala, desde a forma de respeitar licitamente o conhecimento de causa de quem realmente faz parte da discussão – no que acreditava haver um profundo valor, à possibilidade que ele ali via um viés disfarçado onde lia um impedimento para que outras pessoas também se manifestassem. 

Como se manifestar não fosse algo que todo mundo pudesse fazer, inclusive em nome de outras pessoas, respeitando suas dores, mesmo aquelas que ele não sentia ou aos grupamentos que ele não representava.

E podado, como há muito tempo não se sentia, sugeriu a outro amigo que fizesse uma palestra em outro evento. Desta vez, disse que queria falar sobre empoderamento feminino e antes que outra vez fosse confrontado à coerência em falar do assunto, pediu-lhe que trouxesse algumas mulheres de sucesso para o palco e ele traria outras também. Mas não abria mão de fazer a mediação e assim foi feito.

E o dia chegou, com plateia cheia e um palco repleto de mulheres bem resolvidas e de sucesso. Elas se sentiam à vontade, falavam de suas vidas e carreiras, relataram casos de desrespeito e como saíram por cima. E em meio a um clima descontraído, mostravam o quanto eram protagonistas e empoderadas muito antes da palavra ter virado moda.

E ao abrir para perguntas, uma jovem se levantou e agradeceu a todas pelo excelente evento, e dirigindo-se a ele em especial, perguntou corajosa e inquisidora: Por que ele estava ali?

Ele sorriu e feliz deu os parabéns à jovem, perguntou o seu nome e disse que estava extremamente grato porque ela talvez tivesse sido a única pessoa a entender sua provocação: ter se atrevido a ser um homem apresentando um time de incríveis mulheres, num evento que celebrava justamente a grandeza delas.

E ele então lhe perguntou:

“Em algum momento eu as desrespeitei ou as tirei do protagonismo do evento?

Eu as interrompi ou sobrepus minha opinião sobre as delas?

Ocupei o centro do palco ou busquei um foco de luz exclusivamente para mim?

Como mediador, eu tirei em algum momento o foco de importância delas no evento?”

E com a jovem balançando a cabeça em negativa, ele disse: “Então eu posso estar aqui!”

E continuou:

“Porque as grandes questões da humanidade não podem ser discutidas sobre uma ótica só. O mundo fez isso por muito tempo e olha só como precisa ser repensado? Faria todo sentido o evento ser de mulheres para mulheres, mas o mundo não é só delas, existem muitas outras pessoas, inclusive quase 50 tipos diferentes de opções sexuais a serem consideradas. Ao termos o contraponto, talvez até de alguém que não tenha esse lugar de fala, estamos fazendo a discussão ser mais rica e trazemos a dinâmica clara do que a diversidade pode ter: aceitar todos como são, na importância que têm e do jeito que pensam. Com o agradecimento pela oportunidade deste caldeirão de opiniões e vivências poderem nos ajudar a construir um mundo melhor, inclusive sem dispensar a opinião, o apoio ou a defesa de causa vindos “dos outros”.

E profundamente agradecido, pediu uma salva de palmas para a jovem, pois ela havia feito todos se questionarem, aproveitando com sabedoria e legitimidade o seu “Lugar de Fala”, mas sendo extremamente generosa e inteligente para saber ouvir uma pessoa de fora falar do lugar dela também.

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