Geral

Dar&Receber S/A


1 de Junho de 2020

Ele sempre o recebia amistosamente e falavam sobre o mercado, um pouco sobre suas vidas e sendo um profissional que ele respeitava muito, dono de um olhar sagaz para oportunidades e um tino comercial inquestionável, tudo fazia crer que ele seria a pessoa ideal para buscar orientação.

Afinal, depois de um basta profissional, ele estava por sua própria conta, tinha planos de escrever um livro, quem sabe dar aulas e talvez até ter um negócio.

Ele contou a história que estava contando quase todos os dias e disse que gostaria de sua opinião ou um sinal para onde seguir. Ele, hábil nas palavras, trouxe a pergunta capital: “O que você quer fazer?”.

Ele não sabia ainda, tudo era muito recente e respondeu com a única certeza que tinha: “Eu não sei o que eu quero fazer, mas só sei que vai dar certo!”.

Anos, livros, cursos, coaches e palestras depois, ficou claro que ali estava a pergunta mais importante: Se ele não sabia para onde ir, como é que iria chegar? 

Um coach resumira muito bem como “ter muito motor e pouco leme”: Ele chegaria em qualquer lugar, mas não significaria ser onde queria.

Tempos depois, se achou melhor preparado: O escritório era o mesmo, a figura sempre simpática e a pergunta relembrou a antiga conversa: “E aí, você já sabe o que quer?”.

Disse que queria trabalhar para o próximo, ajudar as pessoas a serem melhores, ser um coach, ou mentor, quem sabe um professor, mas ser alguém que pudesse fazer sentido, e ter propósito.

O profissional, depois de um longo suspiro, disse que estava tudo errado. Que estava querendo dar antes mesmo receber. Que precisava primeiro buscar algo concreto, gerar provento, sustento e dinheiro. E aí, diante do sucesso evidente, poderia se dedicar à sua proposta.

E hoje, como um livro nas mãos, lembrando com carinho e gratidão aos mestres que escolheu na vida, pensou em tudo que aconteceu. 

Claro, por alguns momentos, o entendimento lhe faltara, ele esperava mais, talvez algo que facilitasse o caminho. Mas soube com o tempo também que os atalhos nem sempre o levam para o lado certo.

O livro se chamava Dar&Receber, e ele conseguia se ver ali de forma definitiva. E mesmo alertando logo no início sobre “Os perigos e as recompensas de dar mais do que se receber”, em seguida citava Mark Twain: “O princípio da diplomacia é dar e receber: dar um e receber dez”. E ele ria!

Embasado em pesquisa, cientistas sociais haviam descoberto que as pessoas eram muito diferentes entre si na reciprocidade: A combinação do quanto querem para si e o quanto desejam doar. Determinavam 3 tipos de pessoas: Os tomadores (takers), os doadores (givers) e os compensadores (matchers) - aqueles do “isto por aquilo” e do “toma lá dá cá”.

E ele fosse responder a pergunta: “Qual tipo de estilo de reciprocidade teria mais sucesso?”, certamente diria que doadores teriam mais desvantagens, mas se surpreendeu com a informação de que “Os doadores dominavam tanto a base, quanto o topo da escala de sucesso” de inúmeros grupos e de diferentes profissões que foram pesquisados.

Que “Todos obviamente tinham a chance de chegar ao sucesso”, mas que “Quando o doador chegava lá, o sucesso se espalhava e gerava um efeito cascata, enquanto que quando os tomadores venciam, em geral alguém perdia”.

Ele ainda lia que “Quem adotava a doação como estilo básico de reciprocidade acabava colhendo recompensas”, que também “Levava algum tempo, mas que por fim eles construiriam reputação e relacionamentos que aumentavam suas chances de sucesso”.

Como uma premonição, o texto dizia que clientes valorizariam ainda mais os parceiros que construíam relacionamentos e reputações como doadores, ajudando a cuidar de toda a cadeira de produção. E que “Todas as mudanças tecnológicas e organizacionais tinham tornado os doadores ainda mais vantajosos, pois eles tinham uma característica atemporal: quando refletiam sobre os princípios que guiavam suas vidas, concluíam que muito mais gente é atraída intuitivamente para a generosidade”.

Feliz, percebeu que não havia entendido lições valiosas, pois a falta de uma resposta clara lhe dava a possibilidade de reflexão mais importante de sua vida: “Que ele tinha o direito de não precisar escolher. Era possível ser doador e ainda alcançar o sucesso”.

E se pudesse responder a primeira pergunta lá trás, só confirmaria: “Quero criar uma experiência que beneficie a todos, não apenas a mim mesmo!”.

Tags: Responsabilidade Social | artigo | Dil Mota | empatia