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Bônus ou ônus?


21 de Junho de 2020

O #MTT (MondayToThank) de hoje vai para todos aqueles que estão sabendo se reconstruir diante de mudanças grandes em seus mercados, os que se mantém empregados, os que estão sendo exigidos além de suas capacidades e aos que perderam empregos, mas ainda sim não perderam as esperanças. 

Aos empresários e empresas que souberam ser justos e minimizar impactos, mesmo com alguma perda. E um senhor de um obrigado aos que nos inspiraram com exemplos de humanidade, respeito, senso de pertencimento e de seu papel na sociedade.

É também um voto de esperança por um futuro menos incerto e para que tudo isso determine um novo momento, uma nova fase e onde todos possam ser ainda melhores do que foram e serão. 

Gratidão a todos que fazem a roda girar, mesmo em tempos de crise. E aos que sabem ser flexíveis e têm a maturidade para se reinventar, relevar e ressignificar as coisas, usando sua grandiosidade para um restart e reboot gigantes, trazendo as coisas para o trilho novamente e prontos para uma “retomada”.

Ele trabalhou enlouquecidamente meses, semanas, finais de semana, dias, horas e não havia um momento em sua vida que não estivesse à disposição e seriamente priorizado para realizar suas tarefas, entregar seu trabalho muitas vezes em um tempo impossível, se deixando embriagar pelo discurso emocional do quanto formava um grupo incrível, entregando projetos estonteantes e fazendo parte do Olimpo das principais empresas do setor.

Mais do que o exercício do talento que tinha, mesmo questionado insistentemente, ele tinha autoestima, confiava no seu taco, inspirava seus companheiros a vestirem a camisa, a cueca, a calcinha, o boné ou qualquer peça de roupa que tivesse o logotipo da empresa. 

Ele era daqueles que tinha “dor de dono”, entregava 120%, focava na vida profissional, quase não tinha vida pessoal, não usava a palavra não para nada e simplesmente estava sempre e incondicionalmente “available”.

A empresa reconhecia esse nível de dedicação e os principais projetos sempre tinham nele um dos principais atores. Ele era generoso, deixava todos participar (e sempre apareciam muitos, parecia até a novela mexicana: “O Direito de Pertencer”), era paciente na venda interna (sempre dura, difícil e complexa), convencia a todos que aquele era um supercaminho e deixava claro que acreditava não só em vencer mais uma concorrência, mas em fazer a empresa cada vez mais ganhar dinheiro e prestígio.

E ela ganhava. O balanço do final do ano mostrava tantos números que ele enlouquecia. Não que ganhasse algum percentual, mas ficava feliz por sentir que fazia parte deste esforço. No máximo ganhava um rápido cumprimento, um agradecimento generalizado pelo esforço de todos, sempre havia uma festa onde se buscava na anestesia da celebração e de alguns drinques a celebração pela cumplicidade do time, que exaltado de forma emocional e psicológica, saía dali com a faca nos dentes e loucos para voltarem ao campo de batalha novamente.

Em certo momento, e inspirada pelos grandes exemplos do mercado, a empresa resolveu criar uma política de bônus. A regra era meio complexa, mas só o fato de poder ser remunerado com alguns salários a mais parecia de uma generosidade ímpar. 

Essa era a empresa que ele sempre quis trabalhar, era nela que gostaria de passar muitos anos, subir de cargo e contaminar mais pessoas com sua energia, vontade e dedicação. 

Ele era grato, muito grato e faria de tudo para ser merecedor do que via como “uma forma de retribuir a todo o esforço do nosso incrível time, afinal, o melhor ativo da empresa eram justamente as pessoas”, repetindo sem remorso o discurso do CEO.

E assim passou o ano. Não lembrava se tinha tido algum final de semana para si, mas os índices de conversão eram altíssimos. Ele era olhado com inveja nos corredores, e se havia algum projeto desafiador ou com alta expectativa, ele só acontecia se ele pudesse participar.

Nos steps possíveis da bonificação, ele chegou fácil ao mais alto, receberia várias vezes o seu salário no final do ano. E isso era incrível.

E mesmo com uma vida pessoal restrita, começou a pensar no que fazer com este dinheiro. Pensou em investir usando as dicas dos gurus financeiros da internet. Sonhou com aquela viagem, que também tinha a intenção de buscar mais referências para suas tarefas.

Descartou comprar um carro, porque já tinha aderido à tendência de tipos alternativos de transporte. Talvez desse “um tapa” em sua casa, comprasse um presente legal para seus pais, e se sua vida não estivesse tão comprometida com a vida profissional, poderia até estar pensando num superagrado para um amor. Mas ele não tinha nenhum, mas amava o que fazia e ainda mais a empresa que lhe dava o espaço para ser o “fodão do pedaço”, que incrementava seu portfólio com incríveis projetos e marcas, que lhe oferecia um escritório inspirador e que todos os poucos amigos que ainda possuía, invejavam.

Sonhava nos poucos momentos que se dava, na maioria das vezes no banheiro, no banho ou indo de um lugar para outro em um Uber, no metrô ou até em um ônibus quando tinha vontade.

E foi dentro de um deles que ele soube que muitas empresas do seu mercado estavam tomando atitudes drásticas, demitindo muitas pessoas, inclusive amigos seus que o comunicavam por meio das redes sociais. 

Pensou o quanto distante estava isso do seu mundo, afinal tinha trabalho, muito trabalho, e todo mundo no escritório estava se desdobrando para cumprir a concorrida agenda. Eram uma equipe valorizada e essencial, e isso eram palavras da diretoria.

Chegou ao escritório top, bonito, moderno e com cara de coworking, subiu para sua mesa, cumprimentou aos amigos e mal chegou à sala, foi convidado a participar de uma reunião urgente na sala da diretoria. 

Ainda era cedo e não era um horário normal desses encontros, mas sempre se sentia privilegiado por ser chamado para uma reunião com o CEO. Ele definitivamente o admirava.

Poucas pessoas estavam na sala, algumas inclusive que normalmente nem estavam nas reuniões normais do dia a dia. O CEO começou olhando-o diretamente e falando do quanto era recompensador ter na sua frente um dos profissionais mais incríveis que ele havia conhecido, reconhecendo também o quanto ele havia sido importante para a conquista de inúmeros projetos nos últimos tempos.

Não era muito comum esse arroubos de feedback, e ele encheu o peito para receber com gratidão todas aquelas palavras incríveis que ele lhe dizia e que no fundo, mesmo mandando para aquele lugar todas as lições de não parecer arrogante, acreditava que era verdade mesmo e que nada do que ouvia era diferente em como ele se via.

Foi então que ele o apresentou a uma das pessoa, dizendo que era do RH, e que estava ali porque ele o estava dispensando. E que apesar da sua incrível folha corrida, a empresa passava por um grave momento, tinha que tomar decisões difíceis, cortar na própria pele, sangrar, ficar de peito aberto, e, como ele era um salário importante na folha, havia uma lógica. 

Ainda disse que não era o queria, não se sentia bem fazendo isso, mas que para o bem da empresa – que ele sabia que o profissional gostava – e o que ele tinha que fazer, mesmo triste, era assim que seria.

A RH olhava-o com certo distanciamento, frieza e confrontada com seu olhar incrédulo, lhe disse para entender o lado da empresa. Ele, não sabia em que lado estava, não conseguia entender o que estava acontecendo e simplesmente achava que ainda não tinha acordado.

Pensar no lado da empresa parecia ter alguma lógica, mas repentinamente se sentiu só e como se ninguém visse o seu lado também.

Estarrecido, ficou sabendo ali mesmo que já poderia ir embora imediatamente. Sugeriam inclusive que o fizesse sem se despedir de ninguém para não gerar nenhuma comoção na empresa.

Como se tivesse tomado um choque se levantou repentinamente, o CEO lhe estendeu a mão que apertou sem saber exatamente o que estava fazendo e foi aí que ele se lembrou: e a bonificação que eu ganhei por toda a minha performance durante o último ano?

O RH se prontificou a explicar que só seriam merecedores da bonificação os funcionários que estivessem na empresa até o dia 30 daquele mês. E como dia 30 ainda não havia chegado, ele não poderia mais receber nada.

Achou irônico perceber que até ali, a empresa era pra ele um bônus. Assim como ele se achava um bônus pra ela também. Não entendia como de uma hora para outra ele virara um ônus. Assim como ela também. Ônus e bônus ficaram na sua mente por horas e sem que ele entendesse nem um, nem outro.

Ligou para uma amiga e ficou sabendo que ela havia passado pela mesma coisa, mas que havia sido regiamente reconhecida ao usar da transparência e confiança de falar aos seus superiores que não iria fazer nenhuma conta, não saberia o quanto caberia a ela depois de quase uma década de serviços prestados, mas que acreditava que eles seriam justos. E foram. 

Sua posição e reconhecimento ao quanto a empresa tinha sido correta com ela, haviam se transformado em um reconhecimento claro e verdadeiro, e ela entendia o que estava acontecendo, reconhecendo que a empresa havia feito de tudo para minimizar danos e agir da forma mais correta seus funcionários.

Soltou o ar preso na garganta, e assim soube aceitar que não era alvo de uma ação conjunta, que nem todas as empresas pensam iguais e que não fazia parte de uma classe reprimida e comprimida diante de atos contra si por empresários malvados. 

Entendeu que nem todos eram assim, quem sabe a maioria, mas questionou talvez o azar de ter estado onde mais queria, mas talvez e só agora vinha essa ideia: no lugar errado.

Resolveu ir para casa a pé, avisou todo mundo, mandou mensagens, soube de mais casos parecidos e ficou o restante dos dias procurando alguém que se manifestasse, que processasse, reivindicasse ou fizesse uma manifestação em plena Avenida Paulista. Mas cada caso era um caso, haviam uns como o seu, mas muitos como o de sua amiga. Não havia padrão, havia lamento, incredulidade, insegurança e uma letargia que não permitia saber por onde todos iriam.

Decidiu então atualizar seu portfólio, começou a fazer os seus contatos e engolindo seco prometeu para si mesmo que nunca mais voltaria para um lugar como aquele. E foi inspirando profundamente que se questionou de muitas coisas, inclusive a vida que acontecia aqui fora e só andando a pé, ele via. 

Lembrou então da viagem já comprada contando com a bonificação que viria, aquela mesmo que de bônus virou ônus e nunca viria.

Passou na frente de uma vitrine e viu seu reflexo. Se achou envelhecido, encurvado e fora de forma, mas sentiu que dentro dele ainda havia alguém. 

Arrumou os óculos modernos, passou a mão no cabelo, respirou profundamente, encolheu a barriga, arrumou a mochila nas costas, viu até uma pessoa passando ao seu lado com interesse e decidiu não se arrepender de suas escolhas. Nenhuma delas.

Quem escolheu o lado errado foram eles!

Não desejava mal a ninguém, mas tinha sentimentos confusos, e nesse momento sentiu que nada era maior do que si próprio, da sua energia, sua vontade e do intenso potencial que ainda existia e ardia dentro dele.

Passando ao lado de um poste, viu um lambe-lambe colado que perguntava: “Como isso pode melhorar?”.

Muitas respostas apareceram rapidamente em sua mente, mas ele resolveu resumir e decidir simplesmente viver. Ele não precisava de vingança ou respostas, “a vida ensina” – já dizia sua vó. Viver e bem a sua vida seria definitivamente a sua melhor resposta.

Meses se passaram desde esses dias. Recebe então um telefonema, uma empresa o convidava para um vaga que poderia se transformar em fixa, era o que queria e precisava.

E apesar de tudo, respirou fundo e achou melhor não se importar, já que o convite era da antiga empresa. Relevava neste instante, em prol de um bem maior que agora seria seu, e se perguntou “Quem sabe não seria agora diferente?”

Ainda estava remoendo tudo o que passou, mas precisava pagar as contas, aquelas que estavam um pouco mais altas por pagar em várias vezes a passagem para ir para o lugar que sempre sonhava e buscar inspiração. 

Não acreditava que iria encontrar mais seu bônus, mas lutaria por um novo outra vez e dentro de um repente cheio de energia e positivismo pensou: quem sabe não seja agora outra empresa, uma onde ele poderia ser transparente e ter confiança em não fazer nenhuma conta, não saber o quanto caberia a ele depois de um tempo de serviços prestados, mas que se sentisse tranquilo em acreditar que seriam justos. 

Ele então manteria sua posição e reconhecimento ao quanto a empresa pudesse ser correta, e também esperaria com todas as suas forças que isso se transformasse em um reconhecimento claro e verdadeiro, pois nunca deixaria de ser bônus, com bônus ou sem. Já que jamais, e em tempo algum, aceitaria ser visto como um ônus.

 

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