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Camaleão: 3 histórias de Carnaval


16 de Fevereiro de 2020

Histórias 1 | Um povo a mais de mil

Era o bloco da Banda Eva - no último ano de Ivete Sangalo como vocalista - se espremia na caminhonete até chegar ao prédio onde a última integrante do grupo se juntaria a nós. 

Como estava muito quente, descemos e ficamos embaixo de uma árvore, curtindo a sombra e dando muitas risadas, já contagiados pelo ambiente incrível de descontração que Salvador tem nesta época do ano.

De repente, o dono da casa em frente chega até o portão, e já esperando por uma reclamação pela bagunça, ele pergunta se estávamos indo para o Carnaval e em qual bloco iríamos sair. Respondemos e ele pediu que aguardássemos um pouco. 

Surpreendentemente, ele volta com 10 latinhas de cervejas geladíssimas na mão e dá uma para cada, propondo um brinde em homenagem ao Carnaval que iríamos aproveitar.

Foi assim que eu entendi o espírito baiano e a receptividade deste povo aos turistas na festa que muda o mood da cidade. 

Como um camaleão, compreendi que o nosso olhar precisa ter mais alcance, esperando que cada um “Vai compreender que o baiano é um povo a mais de mil. Ele tem Deus no coração e o diabo no quadril”.

Histórias #2 | Tá um empurra empurra aqui, mas tá gostoso

Eu tinha acabado de chegar na concentração do trio, havia muita gente e aquela expectativa por ter pela primeira vez a experiência de sair no “trio dos trios”: o Camaleão, com o carismático Bel Marques no vocais e sua banda Chiclete com Banana.

Já tinha uma certa experiência com o Carnaval de Salvador, já tinha me sentido “Chicleteiro” no Nana Banana, mas nunca no grande Camaleão e nem no desafiador Circuito Osmar (Campo Grande-Avenida Sete), que diferente do mais curto e arejado Circuito Dodô (Barra-Ondina), era abafado, ainda mais apertado e tinha o grande desafio da Praça Castro Alves e da subida da Carlos Gomes. 

Um percurso de 7km que muitas vezes demorava até 10 horas para ser percorrido. 

No final foram 12 anos naquele que foi por muito tempo considerado o “Melhor Carnaval do Brasil” e era mesmo. Era uma batalha conseguir comprar a camiseta mais cara que eu já comprei: o abadá. E que para trios tradicionais como o Camaleão chegava a custar mais de R$ 1.000,00 por dia.

E em meio daquela “muvuca” eu me admirava com a animação de todos. Mais ainda com inúmeros membros com um camaleão tatuado na própria pele, um deles com um camaleão de verdade em cima da cabeça e quando o trio anunciou seu começo com o conhecido rugido do “Rex”, uma emoção tomou conta daquele imenso grupo, todos impecável e orgulhosamente vestindo o abadá mais disputado e valorizado do Carnaval. 

Alguns choravam, outros mostravam os braços arrepiados, outros gritavam, pulavam e tudo parecia uma catarse, comandada pelo mestre que com sua tradicional bandana e sorriso nos lábios sabia muito bem como levar o trio com energia e animação.

A Lully, já veterana de trio, viu meus olhos arregalados e resumiu: “Camaleão é mais do que um trio, é quase uma religião. Seus seguidores não são foliões, são fanáticos e seguem o trio com uma energia impressionante.”

Era o que eu via ali e ele ainda nem havia começado… Eu não entendia porque havia tanta emoção, nem mesmo porque as lágrimas, mas eram muitas e dava para ver que eram verdadeiras.

Desta forma começou uma experiência que marcaria meu Carnaval para sempre. Os sucessos musicais se seguiam, com todos cantando o mais alto que podiam, enquanto pulavam, dançavam, se abraçavam ou simplesmente fechavam os olhos em transe como se tudo isso fosse uma grande cerimônia religiosa e estivesse conectados com algo divino.

Eu não conhecia todas as músicas, só as mais conhecidas. Para falar a verdade, eu nem gostava tanto assim da banda, para desgosto da LanLan – nossa companheira de todos estes carnavais – eu gostava mais do Asa de Águia porque o Durval Lellis tinha uma pegada mais rock’n roll. Mas Bel Marques era insuperável na simpatia e na forma de contagiar a todos.

Em certo momento, o tempo muda e a chuva cai impiedosa. E para acelerar o ritmo do trio e não deixar a galera esfriar, o repertório sempre repleto de músicas românticas é modificado para todas aquelas onde todos obrigatoriamente “tiravam o pé do chão”. 

Fizemos até a tradicional volta no trio, e eu no meio daquele furdúncio em muitos momentos nem sentia o meu próprio pé tocando o chão, era meio que carregado por um povo ensandecido naquilo que Ivete Sangalo definia bem na letra uma música que dizia: “Tá um empurra empurra aqui, mas tá gostoso…”

Foi simplesmente inesquecível, a chuva fazia sua parte refrescando, mas também trazendo uma tônica de superação e de uma energia além da esperada. Mas ao final do trio, horas depois de sua saída, onde o cansaço e a energia disputavam passo a passo os últimos metros do bloco, já com a corda abaixada e a galera se dissipando.

Como um camaleão, eu havia mudado minha cor, me adaptado tranquilamente aquele mundo que eu não conhecia. Lully então me olhou admirada e perguntou porque eu chorava: E eu só consegui dizer que era porque estava acabando!

Histórias #3 | Meu amigo relaxe, curta seu Carnaval

Nós o conhecemos antes do trio começar, ele ia sair no Trio da Ivete – antes do Camaleão – tava animadíssimo e havia chegado aquele dia em Salvador, vindo no famoso “Carnavio” (O cruzeiro que saindo de Santos, chega na segunda-feira justamente para que todos possam ter ao menos um dia de Carnaval na cidade).

Encontramos ele ao final, e ainda superanimado, disse que terminaria a noite em um camarote, mostrando que a energia nem estava perto do fim e que antes do navio partir na manhã seguinte, ia aproveitar muito a folia…

Ele acordou no dia seguinte, e, ao olhar no relógio, viu que estava atrasadíssimo para pegar o navio. Saiu correndo, e, ao chegar ao porto, viu o navio já distante e indo embora. Procurou rapidamente alguém para alugar um barco e conseguir ir até ele.

O rapaz olhou divertido e disse: “Meu rei, relaxe. O navio já foi e ele não vai parar pra você. Você não é o primeiro e nem será o último. Vá curtir o seu Carnaval, porque agora só em Santos”…

Bom, ele teve que arranjar um jeito de avisar aos amigos que já estavam no navio e só no sábado seguinte foi para Santos retirar suas coisas. Lógico que ele curtiu o resto do Carnaval, afinal de contas como um bom camaleão, ele não ia deixar fugir uma oportunidade destas, tão ao seu alcance.

Meu #MTT vai especialmente nestes dias que antecedem ao Carnaval para as grandes histórias, incríveis pessoas e inesquecíveis experiências que temos no feriado mais esperado do ano. 

Quero agradecer muitíssimo a algumas das pessoas que me fizeram conhecer a energia, alegria e liberdade de “brincar o Carnaval” em uma Capital que praticamente só conheço assim: vestida de alegria.

#MTT LanLan, Claudinha, André, Preto, Patty, Milena, Zé, Gil, Andrea, Rô, Pedro, Gafa, Gio, Rachel, Fê, João, Juliana, Fernanda, Gustavo, Marquinhos, Senna, Alexsandra, Lula, Carlão, Paula, Anali, Fernando e muitos outros amigos, além de um #MTT especial à Lully, que sempre foi a parceira mais do que especial em todos estes anos de folia soteropolitana.

Depois de alguns anos, resolvemos começar a curtir o Carnaval de São Paulo, que hoje talvez seja o maior destino de Carnaval do Brasil. 

Continuo respeitando as festas que acontecem em Salvador, Rio de Janeiro, Olinda, Ouro Preto, São Luiz do Paraitinga e outras tantas cidades. E se por muito tempo, eu chegava em Salvador já na quinta-feira cantarolando mentalmente: “Ah, que bom você chegou. Bem vindo a Salvador. Coração do Brasil…”, hoje eu me sinto muito feliz, pois como um verdadeiro camaleão, a cidade que foi conhecida como “túmulo do samba” – na infeliz frase atribuída a Vinícius de Moraes – mostra a sua força, democrática como sempre foi, recebendo várias correntes, vários tipos de ritmos, pessoas, bandas, cantores e mais de 600 blocos de Carnaval, que tomam as ruas desta cidade generosa, com a energia de suas batidas, a força de sua mensagem, a descontração e criatividade de seus nomes e abordagens, mas com o firme propósito de devolver para a rua, aquilo que nunca deveria ser tirado dele: a liberdade de brincarmos nosso carnaval do jeito que a gente gosta.

“Não me leve a mal, hoje é Carnaval”… já dizia a música “Máscara Negra”, então vamos dar uma trégua ao policiamento e ao radicalismo das opiniões. Vamos deixar as pessoas livres para serem como são, brincarem o Carnaval do seu jeito, respeitados claramente o básico do seu limite em relação ao do próximo.

Afinal: “Não é não” e “Respeite as mina, os minos e as monas”. Curta, respeite e se faça respeitar. Essa é a nossa festa maior, a mais diversa e onde não cabe teorizar muito sobre “um penacho na cabeça de uma tribo de paz”, tudo é uma brincadeira e não uma afronta aos indígenas ou qualquer tipo de personagem ali homenageado. Carnaval não é para ser levado tão a sério assim!

Roberto da Mata, no seu livro “Carnavais, Malandros e Heróis” já dizia que é uma “Fabulosa inversão de papéis que acontece por quatro dias do ano – nas ruas, o pobre vira nobre e a elite posa de povo.”

Abordando, ainda, “O grande dilema entre os aspectos autoritários, hierarquizados e violentos da sociedade brasileira e a busca de um mundo harmônico, democrático e não conflitivo nesta mesma sociedade.”

Resumindo, em bom e claro português: “Relaxe e curta seu Carnaval”, pois agora em São Paulo a gente também pode falar que: “We are Carnaval. We are folia. We are the world of Carnaval. Mesmo não estando na Bahia.”

 

Então “Se me chamar eu vou”, depois só “Diga que valeu” e “Vumbora amar”, pois a “Fila andou”. Chame os amigos e “Voa Voa”, porque ainda “Quero Chiclete”, continuo sendo “Cara Caramba, Sou Camaleão” e tá na moda deixar o “Cabelo Raspadinho”. Carnaval Paulista, sou “100% você”.

 

Ah, e neste ano, terei uma nova experiência: vou sair numa escola de samba, mas esta história fica para a próxima semana.

 

“Um ótimo Carnaval”

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