Geral

A tricotomia da solidariedade


29 de Abril de 2020

Neste momento de crise – aliás, esta deve ser a frase mais usada atualmente – muito se fala em solidariedade, e, felizmente, muito se faz em nome dela. 

Solidariedade entre pessoas, entre comunidades, entre países, entre empresas... um momento: Solidariedade entre empresas? Será verdade esta afirmação?

O lado positivo

Em parte, parece que sim. Quando buscamos as ações que estão sendo praticadas neste período, nos deparamos com vários programas como, por exemplo, o Brinde do Bem, uma atitude para lá de louvável e extremamente importante da Cervejaria Heineken, em prol dos bares, seus clientes atuais ou potenciais e que estão impossibilitados de manter seu faturamento por um período bem longo. 

No site, os textos são bem explicativos:

A Heineken sabe da responsabilidade que tem durante a pandemia da Covid-19. Por isso, decidimos ajudar aqueles que estão ao nosso redor: os bares.

Com o isolamento social, os bares, nossos parceiros, estão com um desafio enorme para manter seus negócios funcionando. Mas você pode ajudar.

As montadoras de veículos também entraram nesta onda:

- A BMW disponibiliza higienizadores com álcool em gel nos postos de carregamento de energia de carros elétricos, além de doar cestas básicas para comunidades carentes na região da sua fábrica em Santa Catarina. Também colocou parte de suas instalações fabris para reparar respiradores, em parceria com o Senac.

- A FCA, além de também trabalhar na manutenção e na recuperação de respiradores, doou duas ambulâncias e cedeu dez veículos para a Prefeitura de Betim. Também cedeu espaço para a instalação de um hospital de campanha com capacidade para 120 leitos de enfermaria e doou 2 mil protetores faciais para hospitais.

- A Renault tem feito reparos em ambulâncias inoperantes e manutenção gratuitas nas que estão em operação. Além disso, está fornecendo veículos à defesa Civil do Paraná, consertando respiradores e fabricando máscaras de proteção.

Estes são apenas alguns poucos exemplos desta solidariedade tão importante e bem-vinda, dentre muito outros que estão sendo praticados.

O lado negativo

No entanto, existe um outro lado que precisa ser encarado e com urgência. E ele é o nosso lado, das empresas de live marketing. Uma pesquisa recente da Ampro revela que houve cancelamento total ou parcial de 97,3% das atividades previstas. 

Destes, 54% não possuem nova data prevista ou já foram reprogramadas só para 2021. Mas o que impressiona é que apenas 8,1% aditaram corretamente seus contratos e fizeram algum tipo de adiantamento financeiro às agências, enquanto os demais 91,9% NÃO REPASSARAM QUALQUER PAGAMENTO

Mais impactante ainda é que 70,3% COMUNICOU APENAS INFORMALMENTE o adiamento das atividades, SEM QUALQUER TIPO DE COMPROMISSO!

Nestes casos, para onde foi a solidariedade? Ou ela vale apenas para clientes e potencias geradores de negócios futuros? Ou vale, desde que seja útil para criar notícias espontâneas e gerar buzz? Em resumo, a solidariedade vale somente se trouxer benefícios para o solidário? Não foi bem isso que aprendi em casa, na minha família.

Muito se fala hoje em Economia Solidária, que é conceituada como “Um jeito diferente de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver. Sem explorar os outros, sem querer levar vantagem, sem destruir o ambiente. Cooperando, fortalecendo o grupo, cada um pensando no bem de todos e no próprio bem.”

Este é um discurso muito bonito, que vem sendo usado por muitas pessoas e empresas. Mas eu preciso perguntar: QUANDO SERÁ, DE FATO, PRATICADO para nós, sejamos agências ou fornecedores de live marketing? Será que na crise deixamos de ser “parceiros” das empresas ou sou muito inocente e nunca fomos considerados como tais por algumas delas?

O lado de dentro

Também é muito necessário fazer um mea culpa. Temos entre nós alguns players nada solidários e que, no desespero de ganhar um job, aceitam qualquer condição a qualquer preço. 

Eu fui testemunha em mais de um episódio em que, pela manhã ouvi um discurso inflamado a favor da moralização do setor, da redução de agência em uma mesma concorrência e da necessidade da aplicação incondicional de uma tabela referencial de preços compatível com as necessidades do mercado, e, pela tarde, presenciei o mesmo executivo entrando em uma concorrência para lá de predatória, só para fazer portfólio.

Gente, a solidariedade começa em casa. Se não formos solidários entre nós, perdemos muita força em cobrar a solidariedade dos outros. Vamos pensar nisso para quando os sobreviventes da crise voltarem ao trabalho?

Movimento #jobentreguejobpago.

 

 

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