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O “tio” do cachorro-quente


13 de Fevereiro de 2020

Por anos, esse foi pra mim o significado de um verdadeiro cachorro-quente. Anos antes de qualquer atentado a essa minha “predileção vintage” como colocar ervilha, milho, batata palito ou queijo ralado num pão sem gosto e ainda prensar tudo isso.

Sei que muitos gostam assim, mas não consigo deixar de lembrar que na infância, lá na Vila Anastácio, era comum voltar da escola e encontrar dois senhores que disputavam o “mercado de cachorro-quente do bairro”. 

Gentis e vestidos com impecáveis jalecos brancos conduziam seus limpos e brilhantes carrinhos, oferecendo um produto de muita qualidade e que deixavam muitos felizes. Ainda lembro-me daquele sabor.

Na escola também havia a merenda, e não me esqueço que toda quarta-feira era dia de pão com salsicha. Este era mais molhado, cheio de molho de tomate, mas era bom também. Se minha mãe preparasse uma salsicha com molho e cebola no almoço então… nossa! Eu certamente repetiria o prato.

Mas a memória mais antiga vem de uma experiência antes do período escolar: eu tinha ido “trabalhar” com meu pai e isso já era o máximo, mas ele me levou para comer alguma coisa em uma lanchonete na Avenida Santo Amaro. 

Era com pão de hot-dog, mas eles o tostaram, deixando um leve sabor adocicado, a salsicha veio correta e combinada com um refrigerante de laranja (Crush ou Fanta, não sei…), este simples cachorro-quente é uma das lembranças de sabores mais autênticas e originais que eu tenho. Mas que, infelizmente, nunca consegui repetir ou encontrar igual. E olha que já comi hot-dogs em muitos lugares, mas esse aí… não consigo achar!

Ainda na adolescência, um dos meus primeiros empregos foi num grande frigorífico e era comum conhecer toda a planta industrial. Alguns amigos da área que eu trabalhava me perguntaram se eu gostava de salsicha, e com minha confirmação automática, eles então me aconselharam: então não vá conhecer a salsicharia, pois se você for nunca mais vai comer uma salsicha. 

Claro que eu não fui! Para falar a verdade, nem quero saber o que acontece lá, lá lá lá…rs

Respeito a opinião de muitos amigos que são de fora de São Paulo e que não entendem como é que podemos colocar purê num cachorro-quente. Talvez seja a mesma sensação que temos quando os vemos colocando mostarda e catchup numa pizza, que às vezes pode ter sabores exóticos como coração de franco e strognoff.

Isso para não falar de um X-Salada onde conseguem colocar ervilha e milho, mas como assim? 

Mas semana passada estava conversando com meu amigo Gus sobre sanduíches e comentei sobre minha predileção por um cachorro-quente clássico e simples, inclusive lembrando de um outro tão bom, quanto inesquecível e que era vendido por um senhor muito simpático no bairro da Lapa – bem ao lado do shopping do bairro.

Quando eu ia lá, sempre pedia dois: um por fome e outro por gula mesmo, talvez quem sabe até para prolongar esse gosto de infância. 

Eu ficava completamente abduzido pela simplicidade do produto, pelos gestos mecânicos e ao mesmo tempo delicados do senhor que o preparava e isso tudo era muito contrário à complexidade que os hot-dogs ganharam nos últimos anos.

 Por mais que eu ache um cheese-dog do Fifties também imperdível.

E como ironia do destino ou aquelas “coincidências internéticas”, poucos dias depois deste papo, eu vejo um post da amiga Márcia, que comentava que o “Tio do Cachorro-Quente” da Lapa havia falecido. E como é estranho a gente entrar num estado de luto por quem de fato nem conhecemos com proximidade: eu era apenas um dos ‘muuuuitos’ clientes que ele tinha, mas foi assim que eu fiquei. 

A matéria, do Portal do Ó, dizia que “Faleceu, aos 89 anos, o idealizador do hot-dog do Seu Ângelo, ícone da Lapa e o criador do cachorro-quente mais tradicional da região”. 

Ainda ressaltava uma sensação que pude ver feliz que não era só minha: “O hot-dog do Seu Ângelo encantou gerações com o saboroso lanche, refeição de muitos trabalhadores e frequentadores daquela região.”

Fiquei feliz por ele ter sido lembrado num portal da internet, mas para mim ele merecia uma estátua, no mínimo. E quem sabe (porque eu ainda não sei), ele não tenha treinado alguém para dar continuidade ao seu ofício, como o saudoso Seu Oswaldo fez, tanto que seu famoso hambúrguer é um sucesso no Ipiranga até hoje.

Fiquei pensando em como a sensação de luto não fosse algo maior, pois aqueles dois senhores da época da infância talvez já tenham falecido também. 

A lanchonete do hot-dog inesquecível da Av. Santo Amaro nem existe mais e entre pedidos constantes de um bom e velho cachorro-quente a cada lanchonete que eu conheço, juntamente com um certo afastamento destes tipos e receitas que de tão melecadas, a gente acaba comendo rápido para diminuir a sujeira, eu ainda mantinha a esperança de voltar no bairro da Lapa e comer aquele cachorro-quentinho, do jeito que eu sei que ele era, porque ele não havia mudado com o tempo.

O saudosismo trouxe também a comparação entre uma época de ofertas mais justas, simples e menores versus a quantidade absurda de opções, modelos, tipos, influências e tendências de hoje.

 Acho legal a gente ter o poder da escolha e ter produtos que se abrem em SKU’s, variantes sabores, ingredientes, usos e possibilidades infinitas. Mas será que eles aderem à gente como os outros fizeram?

Todo mundo tem uma história de uma guloseima inesquecível da infância. Do bolo, passando pelo sorvete, o doce caseiro e o prato da família, até chegar a um simples sanduíche, como esse “meu”, o cachorro-quente da infância e de todos os tempos, aquele para não esquecer.

Meu #MTT (MondayToThanks) de hoje vai muito respeitosamente para o Sr. Ângelo, com uma gratidão pessoal e inusitada, pois ele simplesmente fazia o melhor produto que ele oferecia, trazendo o peso de um serviço tão bom como ele sabia oferecer, mas certamente não sabia o quanto isso impactava as pessoas e fazia com que tudo isso, que era apenas um negócio para ele, significava muito para seus consumidores.

Em tempos das marcas que buscam uma conexão mais emocional com seus consumidores, depois que o approuch funcional gerou uma grande ‘commoditização’ em todas as categoria, talvez esteja na hora delas lembrarem de outros Ângelos: pessoas simples que sabia que a única forma de cativar e manter sua clientela fiel – ainda mais com um crescimento absurdo da concorrência – era continuar fazendo aquilo que ele fazia e sempre da melhor forma.

Hoje eu comprei pão francês fresquinho e crocante na melhor padaria da região (Primícia dos Pães), cozinhei uma salsicha da marca que eu mais gosto (Sadia), confirmei se eu tinha o catchup e a mostarda que eu mais aprecio (Heinz) e roubei no jogo, fazendo um purê instantâneo da marca que me pareceu oferecê-lo da forma mais nobre (Yoki). 

Claro que não ficou igual, mas me conectou com a emoção legítima que me remeteu a todas estas histórias. Histórias de emoções, relacionadas com produtos e com pessoas. Histórias que marcam. Histórias de marcas.

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