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Participe, dizia a promoção. E todos obedeceram.

16/10/2017

Dra. Maria Aparecida Baccega

 “Consumir por necessidade, por desejo e vontade. Ou, na outra ponta, do iceberg, consumir por compulsão, por ansiedade. A escolha é, sim, de cada um de nós.” 
Dra. Maria Aparecida Baccega


Por que consumimos?
Por que queremos? Ou por que nos mandam?
Vivemos de trocas. Com nós mesmos, com o meio, com o próximo.
A mídia disponibiliza informações sobre estas trocas e nos sentimos imbuídos a consumi-las em forma de produtos, experiências, sensações. Ingerindo materialidades ou absorvendo imagens de uma certa composição de mundo com o qual interagimos. 

Por que participamos?
Julgamos vantajoso? Ou são as vantagens que nos julgam?
Conjuguemos então, para melhor entender a questão.
A primeira abordagem pode ser no presente (“Quem é seu personagem favorito…”), no infinitivo: (“Por que você quer assistir a…”; “Quer concorrer a um…”), ou no futuro do pretérito: (“Quem você convidaria para viajar com você?).

Mas o apelo sempre é no imperativo.
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Oras, oras, a adesão é sempre uma substantivação afirmativa.
Como em “fiz a minha inscrição”; “confirmei a minha participação.
Ou um gerúndio, na linha “estou participando”.

E nessa de “ando, endo, indo” é que fui de chapeleira maluca em uma promoção — de graça até injeção…— por acaso. Sem estes imperativos todos. Há alguns anos, comprei um livro de Alice, a do País das Maravilhas, traduzido por Nicolau Sevcenko (por conta do tradutor) e a livraria me presenteou com ingressos (não visivelmente anunciados) para a Pré-Estréia do filme. Mais que um gift, uma dádiva inesperada. Ohhh!
Ótimo. Para o feriado — pensei — um bom programa em família. Não fosse às 2 horas da manhã. Racionalmente, ainda mais para algo que ficará em cartaz e depois tornar-se-á DVD, a ida não se faria necessária.
Mas quem não cede ao grátis? 
Ao gifting? Ao sistema de trocas e de vantagens? À exposição de méritos, conquistas, distintivos? 

Então vem o passado perfeito. Conjugado com glória.
Eu fui. Eu vi. Eu ganhei.
Vini, vidi, vici.

O que explica isso?
O fato de existir uma permanente reconformação de novos hábitos de consumo, multiplicados com a devida freqüência e cobertura, propondo a degustação de novas experiências para a sociedade. Pois ao lado da indústria, que reproduz a matéria com suas receitas e fórmulas e as distribui em logística mundializada, estão os gostos. “Uma forma de dominação”, diria Pierre Bourdieu (2003), referindo-se à ideologia destes gostos que são socialmente construídos. 

Acorda, Alice.
Este país das maravilhas está repleto de possibilidades esperando para serem promocionadas. Por que? Porque as pessoas realmente gostam disso. Ou melhor, passaram a precisar disso — julguem os doutos da psique da forma como quiserem.
O papo está bom, mas talvez eu esteja perdendo alguma promoção.
Já dizia o coelho: “Ai, ai, meu Deus. É tarde, é tarde, é tarde!”.

Beba-me, disse a garrafa.
Coma-me, disse o bolo.
E eu obedeci.

Sócia-fundadora da Umbigo do Mundo, agência de comunicação estratégica criada em 1999, e sócia da UDM&Co Projetos para Comunicação Eficiente, consultoria para negócios alicerçada em relações de troca. Mestra em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM. Criou as metodologias Gifting&Rituals Map e Dádivas de Marca/The Gift of a Brand, aplicadas em cases premiados no mercado. Ministra palestras e cursos sobre o tema Gifting (estudo que estrutura políticas de troca em todas as plataformas de comunicação corporativa definindo parâmetros de valor, métricas de circulação e rituais proprietários), incluindo aspectos de Compliance (parceria com o IBDEE). Autora dos livros GIFTING (2009) e ECONOMIA DAS DÁDIVAS: O NOVO MILAGRE ECONÔMICO (Alta Books, 2016), entre outros 20 títulos.


Fonte:: Marina Pechlivanis