Vem pra caixa você também! Vem?

05/08/2019


Quem nunca viu um novo job, um pedido de projeto ou briefing que pedisse algo que fosse diferenciado? E para isso se usam várias e fortes palavras em inglês: estamos falando de benchmark, outstanding, out-of-box, innovative, unexpected, uniqueness, state of art e quando não suas versões em português mesmo, principalmente a velha expressão “Queremos algo fora da caixa”.

Pra quem está fora desta caixa, "fora da caixa" significa fora do óbvio, do esperado, do comum ou do "quadrado" que significaria a tal "caixa". Por esse ponto de vista, tudo aquilo que é surpreendente, inovador e supera as expectativas é fora da caixa e por aí vai...

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E já faz algum tempo que tudo o que se pede é fora da caixa: um produto, uma ideia, um evento, uma promoção, uma campanha, uma marca, um roteiro, uma apresentação em power point, um pensamento, um planejamento, uma criação, uma produção, um atendimento... Ufa!... enfim… tudo fora da caixa.

Até mesmo camisetas, brindes, backdrops, tags, selos, adesivos, banners... aquelas peças que cá pra nós, não tem muito onde inventar, né?

Se não bastasse tudo isso, fica também a pergunta: Ok para se querer algo diferente, inovador e “out of box”, mas será que a empresa, o produto, o cliente, a própria agência ou o briefing realmente são tão fora da caixa assim para ajudar nesse trabalho?

Porque não é fácil a gente ficar tirando coelho da cartola toda hora, e também sabemos que nem tudo se resolve ou precisa realmente de uma ideia profundamente disruptiva ou inovadora. E sim, na maioria das vezes, a gente resolve e muito bem um briefing com uma boa sacada, que seja safe (porque na sua maioria quem demanda nunca quer correr riscos) e uma ótima execução (o que no geral é um ótimo padrão mantido pelas principais empresas do mercado).

E isso quer dizer o quê? Que em muitas vezes em que se pede algo realmente diferenciado, isso é muito mais uma necessidade pessoal – beirando o capricho - do que do próprio briefing. Um parâmetro para medir entregas fora da caixa das empresas em concorrências que teoricamente buscam um caminho inovador e criativo, para depois colocar tudo dentro da caixa novamente, buscando uma saída segura e executiva.

E para quê? Num mundo aspirando a ser totalmente fora da caixa, quem ficar dentro dela poderá se destacar como se estivesse fora, entende? E explico isso que parece loucura: mas se a ideia é se diferenciar, se tudo mundo está fazendo de um jeito parecido e está, talvez possamos chamar mais a atenção não seguindo a tendência.

E isso seria simples se não percebessemos o quanto o tal do modismo, as tendências e fazer o que todo mundo está fazendo não fosse algo tão esperado e presente nesse mundinho de meu Deus… Lembram quando começaram os flashmobs? Todo mundo queria o seu, não importando o quanto já estavam datados e recorrentes, se fazia ou não sentido para a empresa, afinal ela também precisava de um.

Hoje, são os palcos centrais com palestras simultâneas via headphone, realidade aumentada, drones, vídeo mapping, robôs (bots), aplicativos diversos e tantas outras coisas que são repetitidamente usadas, pedidas e quase imploradas com um discurso de diferenciação, mas que não significam diferenciação alguma.

Quantas vezes você recebeu um briefing pedindo alguma coisa realmente inovadora, algo que fosse tendência e depois de muito trabalho de pesquisa, apresentou e se surpreendeu ao ver seu cliente preocupado e inseguro porque nunca tinha visto aquilo antes? (sic) Oras, se é tendência ele seria o primeiro a fazer, e é disto que estamos falando…

Por fim, vemos ainda hoje uma certa tendência de algumas agências em abrir tanto, mas tanto o processo criativo que quando falamos de "criação fora da caixa" praticamente estamos falando de um processo criativo sem nenhum criativo dentro dele (pasmem!).

Um insight criativo pode estar realmente em qualquer lugar e vindo de qualquer pessoa, mas me desculpem: isso não significa que quem deu a ideia seja criativo! São coisas completamente diferentes dar um insight e desenvolver uma ideia para atender uma necessidade e atender todas as necessidades de um briefing, inclusive o de ser “fora da caixa”.

O que está acontecendo é que a caixa está se desmontando e os profissionais que por muito tempo estiveram dentro destas as vezes confortáveis caixinhas estão começando a vazar pelas frestas.

As empresas que trabalhavam dentro deste conceito "geométrico e volumétrico" começaram a sair pelos vãos, os processos antigamente bem-definidos dentro das empresas começaram a escapar pelas fendas não lineares da desorganização e hoje o que temos é um monte de gente pensando em tudo e às vezes quase em nada em seu papel básico.

Todo mundo resolveu sair da caixa ao mesmo tempo, deixando-a vazia. Vejam a quantidade de pessoas que saíram das agências, vejam a quantidade imensa de excelentes profissionais que decidiram não voltar para uma empresa ou agência e hoje trabalham apenas de forma remota.

Eles também decidiram sair de uma caixa, mas não aquela que poderia ser a solução para a busca de processos não comuns, repetitivos e padronizados, mas aquela caixa que aprisionou por muito tempo dentro dela um produto muito especial, mas que teve que funcionar em função do rótulo que possuia.

São profissionais incríveis que viveram escondidos dentro de uma tarja “no profile”, que os escondeu sistematicamente e de maneira maquiavélica, evitando sua valorização em um mercado que por muito tempo funcionou contra as pessoas e só a favor do negócio.

O mundo mudou, o conceito H2H (Humans to Humans) domina a pauta das empresas e aí o que estamos fazendo com ele?

A verdade é esta: pra sair da caixa você precisa saber muito bem como é estar dentro dela e isso já sabemos. Não dá mais para lembrar com saudade do antigo slogan: “Vem pra Caixa você também.... vem!” porque estar dentro da caixa ou insistentemente querer fugir de dentro dela já não é mais o suficiente, tá na hora da gente pensar melhor no nosso tipo de embalagem.

 

Por Dil Mota.

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