Vamos pensar?

16/08/2019


Hoje, 16 de agosto, é o Dia de São Lárazo e de São Roque. Também é o Dia do Filósofo.

Como relacionar isto com o live marketing? Comecei a procurar textos sobre os temas. Descobri que São Lázaro e São Roque, no sincretismo religioso, correspondem ao mesmo Orixá, que é Omolu/Obaluaiê. Informações interessantes, porém, de pouca serventia para quem não é do Candomblé.

Foi aí que encontrei um parágrafo da Monica Aiub* que, na hora, fez muito sentido para mim:

“Mas diante da contemporaneidade, construída a partir da herança moderna, que busca soluções rápidas, padrões para se viver sem pensar, não seria o caso de resgatarmos a ideia do filósofo como aquele que busca a coerência entre o agir e o pensar? De que maneira a filosofia pode, de fato, contribuir para o nosso viver?”

Genial! Este deveria ser o nosso padrão no live marketing também: “A busca pela coerência entre o agir e o pensar.” Parece óbvio, mas é difícil de encontrar tempo para isso hoje em dia.

No dia a dia abandonamos a busca e passamos a uma verdadeira perseguição a padrões de vida que não nos obriguem a pensar. O Google, responde, mas eu prefiro o app, que já vem com um bot e me ajuda até a escolher a pergunta certa. E é mandatório que eu me adapte a isto para não ficar obsoleto. É isto que o consumidor atual quer e é nisto que eu vou focar! Certo? Hum... Acho que não é bem assim.

A tecnologia e a facilidade nas respostas que procuramos levar para o nosso consumidor não significam, obrigatoriamente, abandonar conceitos em troca de uma visão forçada do que seja modernidade. Eu, por exemplo, ainda sou um que resisto e me recuso, pelo menos por enquanto, a parar de pensar. Sofro muito por conta disso, pois raramente o tal do bot tem a minha opção desejada. Ou se tem, não é exatamente aquela que eu gostaria e preciso ficar tentando adivinhar a lógica daquele que o programou para poder escolher o próximo passo e não cair na famosa porta final do “agradecemos o seu contato... pi.pi.pi.”

Pior que isso é conseguir, finalmente, desvendar o mapa do bot e chegar a um atendente humano e descobrir que ele também é comandado por um bot que, muito provavelmente é o mesmo ou, pelo menos, um parente próximo daquele que até agora tentou me convencer que os humanos são inúteis. É muito frustrante.

É comum recebermos demandas de promoções que têm que acontecer a partir das redes sociais, sempre com o argumento que, se não for assim, as pessoas não participarão. Eu até concordo. Mas precisamos também assumir que não basta isso, para que a ação seja um sucesso.

Um exemplo disso é a promoção que, até hoje, conta com recorde de vendas de produtos que é a “Nestlé e você no Show do Milhão”. A mecânica era, para os padrões de hoje, extremamente complexa.

Quem acredita que haveria adesão para uma promoção em que o participante deveria recortar mais de 50 % de 8 (oito) embalagens de produtos diferentes, colocá-las em um envelope com um papel contendo a resposta para uma pregunta de qualificação, endereçar o envelope para a promoção e dirigir-se até uma agência dos Correios para pagar pela postagem da carta.

Pois foram mais de 75 milhões de cartas, ou o equivalente a 600 milhões de embalagens de produtos participantes. Gostaria de saber se hoje, com o apoio de toda a tecnologia disponível, alguma empresa conseguiu atingir este número de vendas no mesmo período. De verdade. Se alguém souber, pelos Orixás, peço que me mande o case.

 

*Monica Aiub - Tem formação em Filosofia (Graduação, Mestrado e Doutorado), Música e Educação e dedica-se à pesquisa sobre o problema mente-corpo e suas implicações na vida cotidiana. Atua como filósofa clínica, autora e editora. Além disso, dirige o Interseção – Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, onde é responsável pela formação dos filósofos clínicos e por pesquisas na área.

 

Por Antonio Salgado Neto.

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