O jantar de Oswalda

03/04/2019


Beijing, 7 de agosto de 2008

Restaurante South Beauty

A primeira vez que nosso grupo iria às ruas de uma das maiores cidades do mundo.

Impressionante as luzes e as cores dos luminosos em prédios novos, cheios de efeitos visuais.

Nossos convidados se prepararam cuidadosamente para este jantar. Afinal seria o primeiro de uma série.

Depois da experiência no Aeroporto Internacional Deng Xiaoping, estávamos tensos e cheios de cuidados.

Nossa equipe tinha bem claro que, se algum de nossos convidados se perdesse, seria como procurar uma agulha num palheiro.

Não entendíamos nenhuma das direções da cidade. Todas as placas, em Mandarim. Nada, em inglês. Não dava nem para identificar letras ou sinais.

Ninguém na rua conseguia se comunicar conosco. Poucos de nosso grupo falavam inglês.

Nesta noite de abertura, escolhemos um típico restaurante de comida chinesa.

Um lugar especial.

Muito bonito em sua arquitetura e decoração.

O grupo apreciou a entrada, com aqueles jardins chineses que misturam flores, pedras e água, que proporcionava aquele som de muita paz. Havia gente de todas as partes do Brasil. Culturas, muito diferentes.

Aquele lugar  chamava muito a atenção de nós, ocidentais. Parecia que o prédio havia abrigado uma das autoridades da cidade ou um integrante da alta sociedade imperial chinesa.

Escolhemos este restaurante como uma forma de trazer para o grupo coisas características da cultura chinesa e da culinária.

Buffet posto.

Lindo, maravilhoso.

A preparação da comida na China tem um ritual simbólico muito importante.

Outra característica é que existe uma influência da culinária francesa.

Isto se revela por meio das cores e formas como os pratos são servidos.

Só uma coisa preocupava: não conseguíamos identificar nada que ali estava. 

Discursos de boas-vindas, brindes, avisos em geral, e vamos comer. A fome já começava a bater naquele grupo recém-chegado ao país da Grande Muralha.

Surpresa !!!

Algumas das iguarias tinham movimento.

E aí uma grande dúvida: Como escolher?

Camarão ou cachorro?

Cérebro de macaco ou geleia de mocotó?

E o que seria aquela forma parecida com um ovo, mas que tinha a cor preta e um odor insuportável?

Fomos conferir o menu acertado com o chef em nossa visita anterior, 3 meses atrás. Mas este acerto não serviu pra nada.

A dificuldade era entender o que estava servido.

 Mas, perguntar pra quem?

E como num passe de mágica, imediatamente sumiram do buffet todas as folhas, legumes e frutas.

O jantar foi muito rápido.

E logo, logo, a turma ficou impaciente e queria retornar ao hotel.

Estavam cansados e com fome.

Lá, teriam algumas opções no room service, ou com sorte, conseguiriam ainda, um daqueles pratos, que se tornariam os pratos principais para muitos durante aqueles dias: spaguetti a carbonara, ovo frito e pêssego em calda.

Ok, ok. Vamos embora.

Silenciosamente, como nunca acontecia em nossas andanças pelo mundo afora, rapidamente, tínhamos os 4 ônibus tomados por nossos ansiosos e famintos convidados.

Começamos a contagem.

Faltavam 2 pessoas.

Imaginei, impossível.

Todos saíram.

Sim, alguém respondeu.

Vamos contar novamente.

Resultado, faltam 2.

Imediatamente saímos dos ônibus para ver se havia, realmente, uma falta.

Uma dupla foi enviada de volta ao lugar onde estávamos e os nossos anfitriões nos disseram em chinglês: `Todos já foram senhor`.

Corremos pro ônibus: conta de novo.

2 não estavam.

E começamos a conjecturar que aquela seria a viagem de incentivo mais excitante que já havíamos feito.

No aeroporto, o grupo inteiro sumiu; no primeiro jantar, 2 se perderam.

Onde será que havíamos errado?

Fomos até o quarto ônibus, e como os outros 3 não estavam lotados perguntamos se alguém gostaria de ir embora já, pois liberaríamos os 3 da frente.

Feitas as checagens após a mudança – continuavam faltando 2 pessoas – liberamos os 3 ônibus e seguramos um deles.

Tínhamos que resolver aquela questão.

Será que os caras voltaram para o hotel de táxi? Meio impossível pois, para pegar um táxi, precisava mostrar em um papel o endereço do hotel.

É; pode ser uma opção.

É; mas como confirmar?

Falar ao telefone era impossível.

Ninguém entendia inglês.

Outra opção. Alguém disse.

Se conseguirmos saber quem está faltando, assim, possivelmente teriamos o número do celular.

E aí bastaria ligar e saber onde os 2 se encontravam.

Para se chegar à exata conclusão de quem estaria faltando, iniciamos uma chamada oral. A cada nome, íamos marcando em nossa lista.

Aquele que não achássemos, seria o casal faltante.

Iniciamos a chamada rapidamente.

Depois, era consolidar as 4 listas para descobrir quem não estava a bordo.

Enquanto a chamada corria, fizemos uma última tentativa.

Decidimos voltar lá e revistar novamente o espaço, para termos a absoluta certeza, que não ficou ninguém para trás.

E lá fomos nós.

Quando cheguei no salão que ocupamos, já estava meio na penumbra.

Não avistei ninguém.

Mas quando olhei para um corredor pequeno e sem saída, vi o vulto de um homem, quase catatônico, encolhido, enrolado em seu casaco e olhando fixamente para uma porta.

Me aproximei.

Perguntei: O senhor é do nosso grupo?

A resposta veio insegura e baixinho, mas consegui entender: Sou sim senhô.

Mas o senhor não viu que estamos de partida?

Vi.

E?

Ele me olha com uma cara triste, de quem precisa muito de ajuda, pois não estava entendendo nada do que se passava.

Meio balbuciando, meio gemendo, e com aquele sotaque acentuado de quem mora no nordeste brasileiro, ele finalmente me revela seu drama: PÉRDI OSWALDA! Soltando em seguida um soluço.

Quando me deparei com a situação, não entendi direito, ou não estava acreditando no que ouvia.

Retruquei: Senhor, não entendi o que aconteceu.

E ele responde: Pérdi Oswalda.

Sim, mas  perdeu como, quem é Oswalda?

Oswalda, minha esposa.

Mas o senhor perdeu, onde?

Qui no restauranti!

Não acreditava no diálogo que estava rolando.

E falei: Mas como assim, meu senhor?

Ela se levantou da mesa pra ir ao banheiro e voltou não!

E o senhor estava onde?

Eu? Fiquei esperando. E aí o senhô chegou.

Fique calmo. Nós vamos achá-la!

Pelo rádio pedi ajuda ao time e começamos uma busca desesperada por Oswalda.

Até que uma questão óbvia passou em minha cabeça. Será que ela está passando mal no banheiro?

E pensei: tão ruim como perder alguém será ter uma pessoa assim passando mal, às 11 horas da noite, em Beijing.

Pelo rádio: chama o médico da equipe para que venha aqui imediatamente.

E o rádio respondeu: foi pro hotel com os 3 ônibus.

Acha alguém que esteja perto e mande pegar um de nossos carros, e se não tivermos um disponível, faça o ônibus voltar! Com o médico!

Percebi então que a porta à minha frente, que ele tanto olhava, era uma possibilidade.

Achei o banheiro das mulheres.

Hesitei pensando: que grande cagada vai dar se eu encontrar uma chinesa pelada aí dentro.

Tomei coragem e ........

Entrei!!!

Que cena maravilhosa eu presenciei.

Oswalda. De pé. Olhando ora para o local onde haveria um vaso sanitário e só havia um buraco no chão, ora para minha cara, como se eu fosse o seu salvador.

E ela me dirigiu a palavra, exatamente no tom de seu marido: Meu fiô. Graças a Deus ocê entrou aqui. Tô quase me borrando. Tô procurando o vaso, mas achei não. Aqui não tem não? Será que roubaram!

E era só o primeiro dia.

 

 

 

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