Paulinho vem ao Rio

04/09/2018


Era o início de uma nova década. Pela primeira vez na história, um Beatle no Brasil para tocar no Maracanã.

Os dias 19 e 21 de abril de 1990 entrariam para a história do maior estádio do mundo. 

Um público recorde para assistir ao show de Paul McArtney.

Quando a notícia se espalhou, o mercado agitou-se. Quem patrocinaria um evento daquele tamanho?

Nesta época, eu era o cara de propaganda e promoções de uma grande distribuidora de petróleo. Logo me aventurei a entender a proposta de patrocínio, direitos, etc.

Era o final de 1989. O Brasil estava naquela gangorra da inflação. E as empresas estavam, mais uma vez, tentando se planejar.

Marquei um encontro para negociar com a agência organizadora do projeto Paul in Rio.

Foi um desastre. A grana envolvida era enorme. Havia um interesse gigante do mercado. Meus argumentos foram inúteis. E mesmo a experiência de venda de ingressos em postos de gasolina, uma inovação nossa, não conseguiu seduzir nossos interlocutores.

E assim foi.

Não dava pra nós.

Mas o que ninguém esperava é que logo no início do ano um novo plano econômico fosse lançado.

Os organizadores estavam otimistas até então.

Em 15 de março de 1990, toma posse o presidente Collor, e, no dia 16, o dinheiro sumiu.

Sumiu do bolso de quem compraria o ingresso, arquibancada a NCz$ 500,00 (US$ 40,00) ou NCz$ 700,00  (US$ 60,00) para a pista, e também dos possíveis patrocinadores.

O maior confisco da história econômica da República estava em curso.

Dez dias depois do lançamento do Plano Collor, fui convidado para um happy hour. Assunto: “Paul in Rio”.

Não tinham conseguido vender o show como imaginaram. E, o pior, os ingressos estavam ‘micados’.

Só havia um ponto de venda.

Lembrando aos apressadinhos que em 1990 não existia a internet.

Nos encontramos no escritório dos promotores do show.

Final da convers: a venda de ingressos era em nossa rede de postos, mas teríamos também que vender nos de São Paulo.

Eles distribuiriam os ingressos nos postos do Rio de Janeiro e nós nos de São Paulo. Era uma promoção de venda antecipada, com desconto.

Em 15 de abril, a prestação de contas e devolução de todos os ingressos restantes.

Sessenta mil ingressos no Rio de Janeiro e vinte mil em São Paulo. Além do custo da operação promocional, nós bancamos também o rabicho do filme de TV, isto é, os endereços de onde os ingressos estariam disponíveis.

Feito!!!

Tudo certo. Consegui. E a um custo baixíssimo para a empresa.

No dia 28 de março, convidamos os revendedores de São Paulo para apresentar a promoção, mas havia um pequeno problema: como enviar os ingressos para a Capital paulista de modo que chegassem a tempo da reunião para serem repassados aos revendedores e de maneira segura?

Afinal, significava cerca de NCz$ 10.000.000,00 isto é US$ 830,000,00 da época.

Mas, àquela altura, já éramos passageiros no trem fantasma. A ação estava na rua.

Material promocional impresso; ingressos distribuídos nos postos do Rio. Filme refeito e no ar. Contrato assinado. E transportar os ingressos para São Paulo não poderia ser a pedra no caminho.

Tomei a frente e disse: não há problema. Eu levo amanhã na primeira ponte-aérea.

Ótimo. Tudo certo.

Morava naquela época na Barão de Itapagipe, Zona Norte do Rio, em um daqueles prédios que tem dez apartamentos por andar. Começo de vida. Apertadinho, mas bem aconchegante. 
Pelas nove da noite toca o interfone. “Seu Luiz, tem um carro desses de entrega de dinheiro aqui querendo entrar no condomínio. Dizem que tem um material para entregar. E precisa ser só pro senhor mesmo.”

Imaginem um carro-forte procurando por um morador para fazer uma entrega, que certamente não era de pão fresco.
Pensei. Pensei. O que seria?

- Ok! Manda subir.

Em poucos minutos apareceram em minha porta, cinco seguranças enormes, armados até os dentes, quatro com pistolas e caixas nas mãos e o quinto com uma metralhadora em punho.

Quando olhei pelo olho mágico, pensei: danou-se!!!

Sem falar nada, abri a porta.

Todos entraram e um deles perguntou: “Onde põe doutor?”

Engoli seco. E pensei: tomara que eles estejam se referindo às caixas.

E respondi com firmeza: pode deixar aí.

Largaram as quatro caixas e foram embora.

Amém.

Depois do choque, comecei a raciocinar e olhei o tamanho das caixas. Eram destas que usamos em arquivo de papéis.

Depois fui checar o peso. Só dava pra levantar uma de cada vez, afinal, cada uma delas tinha cinco mil ingressos dentro.

5.000 MIL !!!!!

5.000 X NCz$ 500,00 = NCz$ 2.500.000,00!!!X4!!!!!

Simplesmente NC$ 10.000.000,00!!!!!! Quase um milhão de dólares. Simples assim.

Não só a ficha caiu, mas todo o resto em volta também.

Eu comecei a entender o espanto do porteiro no interfone, os seguranças armados.

Não conseguia imaginar uma forma segura de estar de olho naquelas caixas o tempo todo.

Lógico que não pensei nisso quando me ofereci. Afinal, os ingressos eram pequenos. Como um cartão de crédito.

Mas eram 20.000!!!

Praticamente não dormi a noite. Acordei às 5 da manhã e às 6h30 estava no balcão da ponte aérea no Santos Dumont.

Até ali tudo certo. Carreguei os ingressos de casa até o táxi no carrinho de supermercado do condomínio.

No táxi, ok. Tudo no porta-mala.

No aeroporto, mais tranquilo, peguei um carregador e pronto.

Quase metade da epopeia terminada.

Fiz o meu check-in e fui despachar as caixas com um monte de adesivos de frágil.

Rezava para que, mesmo reforçadas, elas não se despedaçassem no compartimento de cargas do Electra II da Varig.

No despacho, a coisa encrencou.

“O senhor vai ter que pagar excesso de bagagem.”

Respondi: Ok ok. Veja quanto é.

“Que é que tem aqui? É de quebrar?”

Gelei!!! Não se pode transportar mercadoria sem nota fiscal. Principalmente ingressos para qualquer espetáculo.

- Ah meu amigo, estou com um pouco de pressa... São arquivos pessoais que estou levando para a família. Nada de muito importante, disse ao despachante.

“Tá aqui o papel. Vai ali naquele balcão e volta aqui pra eu te dar os comprovantes.”

Fui até o tal balcão pagar.

Só que quando vi o valor e comparei com o que tinha na carteira, só daria pra pagar com cheque ou cartão.

Entrei na fila. Preocupado. O tempo estava passando e nada.

Tentei me acalmar, se não der pra ir nesse voo vou no próximo.

Ok, ok. Pensei tentando baixar a adrenalina.

Minha vez.

Bom dia. - Posso pagar com cheque? Perguntei.

“Não senhor, só aceitamos dinheiro ou cartão.”

- Tá bom. Vamos lá então...

Primeira tentativa – nada.

Segunda tentativa – sistema fora do ar.

Ouço então o barulho das hélices do Electra II levantando voo. Pronto já perdi um, pensei comigo.

Terceira tentativa – “Senhor, pode chegar aqui pro lado para eu atender os outros. Seu cartão não está passando.”

A essa altura, já estava suando de nervoso. A qualquer momento descobririam o que havia nas caixas e eu estaria preso.

Cambista de ingressos!!!

Passados os dois caras que estavam atrás de mim, ela voltou a me atender.

Foram mais três ou quatro tentativas até que, finalmente, a transação foi aceita.

Voltei correndo ao balcão de check-in.

Cadê o cara que me atendeu?Procurei.

Procurei. Sumiu o desgraçado.

Não sabia o nome.

Me dirigi então ao que estava disponível.

Apresentei o comprovante de pagamento e troquei o horário de meu bilhete.

E aí fiz a pergunta errada: - Por favor, poderia checar se a bagagem referente a esse pagamento de excesso de peso está ok?

“Ah. Claro senhor. Só um momentinho que a sua bagagem deve estar ali na sala aguardando embarque.”

Mais espera.

Mais aflição.

Que maldita ideia a minha.

Após alguns minutos vem o atendente com cara de ué!

E meio que balbuciando me diz: - “Senhor. Aaachhooo queee sua baaaagageem foi no voo anterior. Por que o Senhor não embarcou?”

Não acreditei no que estava ouvindo.

Tive vontade de gritar, esbravejar e colocá-lo como sócio no pagamento dos dez milhões de cruzados novos aos organizadores do show.

“Mas fique tranquilo que se não foi no outro vai nesse.”

Nesse momento, o sistema de som chama a ponte-aérea para embarque.

Nem tempo de argumentar teria.

Virei as costas e fui embora.

Seria uma das horas mais longas de minha vida.

Fiquei imaginando o que dizer se as caixas sumissem. Qual a explicação? A companhia aérea?

E depois, como eu iria conseguir pagar aquela grana?

Entrei no avião e sentei no corredor logo na última fileira da parte dianteira. O mais perto da porta possível.

Estava agitado.

Não conseguia ficar parado.

Mal o avião pousou e eu já estava à frente da porta esperando para sair.

Quando desci, fomos indicados a pegar um ônibus.

Mas eu não conseguia esperar mais nada.

Saí correndo pela pista que dava acesso ao terminal de chegada do Aeroporto de Congonhas.

Queria os meus dez milhões de Cruzados em minha mão novamente.

Muita gente me olhou.

Quando cheguei às esteiras de bagagem, vi aliviado, finalmente, as quatro caixas rodando sem que ninguém houvesse tocado nelas.

Abracei as caixas, e beijei.

Luiz  Fernando Coelho escreve colunas com casos irreverentes e verdadeiros aqui no Promoview