O redator morreu. Viva o redator

03/10/2019


Sou redator há 20 anos. Há 39, filho de redator, crescido e criado entre redatores.

Arrisco dizer que entendo um pouco do bordado. Arrisco inclusive dizer que a profissão está diminuindo. Pelo menos quantitativamente: redatores vêm perdendo cadeiras para assistentes e diretores de arte, designers, planejamentos, atendimentos e clientes sob pressão.

Até os jobs parecem ressecar: anúncios descritivos, manifestos repetitivos, apresentadores falando para a câmera, textos foguete, bullets, hero shots, calls to action – até o português anda em baixa.

A sagrada tetralogia – anúncio, spot, filme e outdoor – despencou do absoluto para o obsoleto. Oh, redator, como chegamos a isso? Para onde foi o título, a sacada, o texto solto e o trocadilho infame, o roteiro moleque, o batuque alegre do teclado?

Aí, chega o pedido: o cliente quer redes sociais. Face, Twitter, Insta. Pesquisando essas novas mídias, o redator se anima. Porque Twitter é texto em estado puro, como o centenário spot de rádio, a tradição dos títulos petardos e mais: com número máximo de caracteres, o redator tem que fazer mágica para fazer bonito.

Face e Insta, então, são uma galeria de possibilidades: stories são filmes curtíssimos, cartelados; carrossel do Face pode ser o bom e velho anúncio sequencial. Internet veio, se consolidou e provou a máxima: mudar tudo para não mudar nada.

Podemos falar de eventos: tempos e movimentos são dramaturgia, narrativa que conduz o participante pela mão, altos e baixos, expectativas e surpresas. Podemos falar de ativações, texto invisível, mas presente.

Afinal, texto vem de tecer e é isso que acontece quando envolvemos fisicamente o consumidor: pensar no começo, meio e fim; etapa levando a etapa, a sucessão onde a ideia é estendida. De conteúdo e entretimento, então, podíamos falar pra mais de ano. Aqui o redator assume o ofício de roteirista, a capa do contador de história, bebendo em TV, cinema, deitando e rolando de podcasts a webséries.

Publicidade é, por essência, a linguagem do imediato. Uma verve adolescente no sentido do barulho, do impacto, da necessidade natural em chamar atenção. Mudam-se as roupas, trocam-se as gírias, o que se fala, como e onde se fala, mas a substância permanece.

O redator é o principal porta-voz da publicidade: sua matéria-prima é a mensagem. Mensagem que é uma flecha no alvo. Um tiro de uma chance, antropofágico, que utiliza um pouco de todas as escritas criativas para atingir o consumidor.

O redator pode até andar meio esquecido, mas cada vez mais tem surgido novos campos para montar seu cavalete. Basta seguir caminhando e procurando, acumulando conhecimento e consciência na mochila e nunca se esquecer de onde veio, onde está e para onde vai. Vida longa ao redator. 

 

Por João Vereza.

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