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18/03/2019


“Se espremer, sai sangue!”. Era assim que todos se referiam ao jornal “Notícias Populares”, que entre outubro de 1953 e janeiro de 2001 marcou época na imprensa escrita com um veículo de mídia que não tinha pudores e muito menos “papas na língua”.

Certamente, deixaria enlouquecido qualquer mínimo defensor do politicamente correto:

Popularesco, gostava de gerar ruído, comentários e opiniões, tinha linguagem muitas vezes pesada – apesar de ter sido um ótimo veículo de divulgação dos direitos dos trabalhadores, o primeiro a ter uma coluna dirigida ao público LGBTQ+, um dos primeiros a ter uma coluna que falava abertamente sobre sexo numa coluna escrita por Rosely Sayão e uma coluna especial com estórias contadas ao estilo de Nelson Rodrigues.

Gostava de fomentar histórias que beiravam o absurdo, adorava manchetes bombásticas e violentas e sua pauta sempre continha uma combinação de crimes, sexo e violência.

Criado por Jean Melle, o NP tinha como slogan: “Nada mais que a verdade” e era assim mesmo com sua opinião muito particular, incontrolável e ao mesmo tempo completamente intencional que ele foi por muito tempo um clássico da imprensa nacional, motivo de comentários, discussões e inclusive muitos defensores, mesmo com o tom exagerado que outros meios e jornais sinalizavam em suas críticas.

Do famoso “Bebê Diabo” à notícia do “Desaparecimento de Roberto Carlos”, o NP gostava mesmo era de causar. Em tempos em que fake news não apareceria em nenhum tipo de dicionário e internet era um sonho distante, foi possivelmente o primeiro sinal do que viria a ser no futuro as redes sociais e parte dos seus conteúdos.

Acabou saindo de circulação com a chegada de programas de televisão que tinham o mesmo tipo de abordagem, como o “O Povo na TV” ou “Aqui Agora”, algo que hoje se espalhou na programação com atrações de sucesso como Cidade Alerta, Linha Direta, Boletim de Ocorrências, Brasil Urgente e outros mais.

Em resumo, mais do que um jornal que marcou época, ele originou uma linha editorial que permanece hoje nos principais canais, mas com a mesma propensão em focar nas notícias mais sensacionalistas e mais chocantes, com a certeza de que a “audiência gosta de notícia ruim e não das boas”.

Hoje, basta ligarmos um programa matinal de notícias para vermos que a cada 10 notícias, 11 seriam suficientes para que nem saíssemos de casa, tal a riqueza dos detalhes de cada desgraça, morte, assassinato, acidente, tragédia ou situação que mostra a sordidez do ser humano e do mundo em que vivemos.

E eles ainda carregam nas tintas, afinal: Quantas vezes você viu Ayrton Senna morrer? Quantos vídeos dos acidentes com os Mamonas, a equipe da Chapecoense ou o jornalista Ricardo Boechat você viu?

Há quantos meses as imagens do carro metralhado de Marielle continuam aparecendo na sua frente? Quantas repetições insistentes você teve do acidente em Brumadinho? Quantos relatos de vítimas de assédio de João de Deus apareceram em jornais dos mais diferentes horários e canais? E recentemente quantas vezes você viu os vídeos do infeliz ataque na escola em Suzano?

Mais do que o papel básico da imprensa em divulgar fatos, expressar opiniões e trazer para o público as notícias da sua comunidade, do seu pais e do mundo, temos hoje a grande máxima de que quanto pior a notícia, melhor é. E acredite, se é melhor significa mais audiência, se significa mais audiência isto traz mais lucros.

Então, não fica difícil entender que tudo isso é uma grande máquina onde as situações mais bizarras, os acontecimentos mais tristes, as mortes mais chocantes e os acidentes mais inesperados ainda estão a serviço de uma forma de fazer negócios. Isto também significa que a culpa, espectadores e consumidores que somos, é nossa também!

Tudo isso seria apenas uma comentário pessoal, se não víssemos este tipo de “Notícias Populares” em pessoas que abrem mão de ajudar um acidentado para poder filmá-lo e colocar em primeira mãos nas suas mídias sociais as imagens que ninguém tinha.

Se infelizmente não tivéssemos amigos em grupos do WhatsApp que se comprazem em compartilhar imagens de pessoas mortas e acidentes, pouco se importando com o pouco de humanidade e respeito ao próximo que deveríamos ter.

Se também não tívessemos que nos ver frente a frente com um mar de comentários, opiniões, compartilhamentos e posicionamentos políticos e sociais, que pouco trazem de profundidade e inteligência, a não ser a vontade de se fazer presente.

No final das contas, não temos mais um “jornal que espremendo sai sangue”, temos controle remoto, celular, TV, mídias sociais, canais, jornalistas, jornais, pautas, e, principalmente pessoas que se espremermos sai sangue, mas também maus sentimentos, ódio, raiva, inconformismo, pessimismo e uma série de coisas que certamente ninguém gostaria de ter, mas que infelizmente somos quase que obrigados a conviver ao assistirmos um noticiário, abrirmos nossos grupos no WhatsApp, acompanharmos os posts nas redes sociais ou simplesmente estarmos abertos aos assuntos que imperam em todas as rodas.

Fica fácil então expressar opiniões infundadas e levianas sobre qualquer assunto, se transformar num hater, criticar a tudo e a todos, ser um profanador da privacidade dos outros, criar fake news, disseminar o medo, a intolerância, a polarização e achar ainda que tudo isso faz parte de um mundo de livre expressão. Então, “NotíciasPopularize-se”! e crie um ambiente e uma energia que não serve pra nada, a não ser o prazer de buscar a recompensa de ser visto, “comprado” pelos seus seguidores e ocupando um espaço do que pode ser julgado liberdade, mas que esconde a mais vil das motivações: não se importar com nada e nem ninguém, só com você mesmo.

É o caso da discussão das motivações do ataque em Suzano e a culpa nos games… Eu não lembro de ninguém que tendo jogado o ancestral “Telejogo” tenha adquirido o hábito de ficar batendo em paredes e ficar recocheteando, desconheço também se “Mario Bros” aumentou o número de praticantes de kart ou se a obesidade cresceu com “PacMan”, mas o que estamos falando não é da indústria bilionária dos games, estamos falando de uma disseminação sem precedentes da violência, dentro de um contexto de jovens mais frágeis e sem um apoio mais presente da família, estamos falando de uma massiva influência dos meios em transmitir toda a sorte de tragédias, gerando uma celebrização  de quem não deveria sequer ser mencionado.

Estamos falando de jovens que decidem muito cedo não querer mais viver, estamos falando de “bullying” e de uma incapacidade de saber ser resiliente e reativo a isso (afinal, levante a mão quem nunca foi zuado na escola).

Estamos falando de um mundo onde decididamente o “Notícias Populares” realmente não resistiria a uma semana de publicação e isso não tem nada a ver com a decrescente audiência dos jornais impressos, mas sim por que não aguentaria a concorrência que saindo da TV, estaria em todos os meios, inclusive no mais importante e eficaz: nas próprias pessoas. Essas mesmos que hoje se espremermos, sai sangue!

Pense nisso ao decidir assistir, ler ou ouvir um jornal matutino, protegido pela avidez em se informar, mas alimentando-se ao mesmo tempo do medo, do pessimismo e de uma profunda vontade de não sair de casa. Pense também em todas as pessoas que você dá audiência e com o poder de mídia que todos têm, não propagam nenhum tipo de coisa positiva.

E aproveitando o slogan do finado NP: no final das contas, “Nada mais que a verdade” é entender que a gente realmente não precisa disto. Tá na hora da gente mudar!

 

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