Não aponte esse dedo pra mim.

06/08/2019


Eu costumava usar meus dedos de forma diferente…

Por muito tempo o indicador indicava mesmo. A gente o usava para ajudar na leitura, para encontrar um telefone naquelas imensas listas telefônicas e quando nervosos tamborilávamos nossas carteiras escolares com ele, enquanto a prova não começava.

Com força apertávamos canetas e lápis entre lições de casa, bilhetes apressados e longas cartas. Quase que transpondo através do dedo a energia que passava por nossas mãos.

Tá limpando o salão? Era assim que éramos surpreendidos com o dedo no nariz e até hoje despreocupadamente no meio de um trânsito caótico é melhor abortar a missão pois sempre tem um retrovisor que vê tudo acontecendo.

Eu o usava para dar sinal para os ônibus. Hoje se fizesse isso talvez não saberia se entraria pela porta de trás ou da frente. Taxi então é melhor pedir por um aplicativo e desconfio até que se eu fizer um sinal nem eles vão entender, melhor usá-lo para apertar o ícone no celular.

Ficou proibitivo também apontar para o doce que você queria, o sonho ou a rosquinha cheia de açucar. Também é desnecessário apontar algo na vitrine ou usá-lo para manipular as capas de discos ou CDs, basta usá-lo no teclado e escolher na internet.

Mas por muito tempo mesmo, o dedo mais famoso era o polegar. Apesar de renegado à uma simples barra da espaço quando digitávamos (quem fez curso de datilografia sabe do que estou falando…rs), era aquele que possuia sua imagem gravada para todo o sempre na nossa Carteira de Identidade, e mesmo deformado e quadrado na sua impressão, deu a nós a primeira noção do que seria digital.

Pena que hoje, é muito mais fácil gravar o indicador nos leitores digitais das portas, cancelas, fechaduras ou para uso nos caixas eletrônicos. Mas o polegar não perdeu função não! Hoje é o mais usado dos dedos nos nossos smart phones e conseguirmos digitar nossos posts, mensagens e responder emails. De um dedo que apertava a tecla mais sem graça de um máquina de escrever/teclado, ele virou o mais importante de todos. Como o mundo dá voltas mesmos…

Voltando à falar de indicador, há um tempo atrás estava em um curso de liderança.
Em sua maioria os demais alunos eram da área de RH. Em meio à uma sessão de feedback eu apontei para uma pessoa para dar um exemplo. BUUUMMM! “Você está ameaçando-a!” Foi o que eu ouvi. Assustado e surpreso, não entendi o que eles estavam falando, parecia até que tinha feito aquele gesto que simulasse uma arma, como nosso presidente gosta de usar, mas eu só tinha indicado com o indicador… E percebi ali a paura, o medo e os imensos cuidados que alguns ali tinham em relação ao que as pessoas poderiam pensar do gesto. Pouco importava o que ele tinha de intenção na origem, importava o que pensariam ou o processo trabalhista que poderia gerar. Eu quase cortei meu dedo fora ali mesmo, mas depois de algum tempo pude entender que aquelas pessoas ali viviam com um indicador na têmpora, beirando o suícidio da pressão corporativa ou com o dedo apontado para si próprias numa mea culpa que buscava o bode expiatório, quem sabe até no ato extremo de extirpá-lo, como a Yakusa fazia.

Estou aqui falando apenas de dois dos nossos dedos, mas não poderia me esquecer do anelar, também chamado de “seu-vizinho”, e também mencionado como dedo anular, talvez por aqueles que preocupados com a importância da aliança que podem usar nele, já fiquem pensando em com desfazer o compromisso. Ele não mudou a sua importância matrimonial, mas viu o próprio compromisso ganhar inúmeras vertentes e cores, o que deu a ele uma importância capital: a de talvez ser o dedo que mais assegura uma visão da diversidade na nossa mão. Com anéis ou alianças, talvez seja o dedo mais confortável para carregar símbolos, adornos ou mensagens. Afinal ninguém põe um anel no dedo para não estar dizendo algo com isso.

O dedo mindinho ou mínimo, continua ai. Parece coadjuvante, mas já o vimos muitas vezes faltando em mãos poderosas, mesmo que isso não impedisse que essas mãos fizessem muitas coisas (boas ou não). Talvez hoje falte aquele velho hábito de usá-lo para ficar de bem. A gente anda brigando com tantas coisas e tanta gente, que precisamos trazer de volta algum gesto bom que pressuponha se reconectar e trazer de volta boas amizades.

Os dedos todos juntos trazem a conotação da muvuca e que tá muito cheio, espalmados e distantes trazem o gesto das mãos ao alto, mas também podem estar prontos para um entrelaçar com outros dedos, um hi five ou as sempre esperadas palmas.

Próximos, fazem da mão uma continência, um golpe de karatê ou se mostram prontos para um compromisso ou juramento. Estendidos em direção ao outro, se mostram afáveis no comprimento e ainda se transformam em aceno, em sinal de positivo ou like ou num grande gesto de desagravo.

E aqui chegamos ao dedo médio: o pai de todos. Por mais gestos ou significados que possa ter e talvez por ser o mais forte de todos, quando usado o gesto tem um significado forte, pois se é o dedo do meio e aquele que chegamos no número 3, é – quando sozinho e destacado pelos demais que se escondem – aquele que diz um basta, que diz exatamente o que a gente pensa ou em um grande momento de desabafo, deixa claro o que a gente gostaria de dizer e em um só gesto.

Estava eu aqui usando todos os dedos para digitar esta coluna, viajando no som de suas batidas no teclado e no seus movimentos, para buscar um like do polegar, uma indicação do seu indicador, um gesto de proximidade do mindinho, um compromisso com o anelar e obviamente esperando que você não use o do meio.

No fundo, eu continuo apontando para as coisas, para as pessoas ou para o assuntos. Apontando também para reflexões, questões ou provocações.

E colocando o dedo na ferida daquele episódio que relatei, daquele momento e daquele curso: que pena que eu não tivesse ficado tão perplexo e sem respostas para a acusação de que com o dedo eu estava ameaçando alguém, quando eu só o usava para indicar. Se não fosse este estado catatônico, eu talvez tivesse usado o dedo do meio pra deixar claro o que eu achava daquilo, dias depois poderia usar o polegar que deixaria claro que tinha extraído alguma lição de tudo isso, não teria sido exagero usar o mindinho pra ficar de bem, porque tinha fica puto com aquelas pessoas mesmos, mas eu ainda apontaria o indicador de novo e só de pirraça, apontando para todo mundo, deixando claro que estava falando com cada um deles, bateria ele também nas minhas têmporas para que eles pensassem um pouco, puxaria a pálpebra de um dos olhos para baixo para que ficassem de olho e prestassem atenção no que estavam fazendo e girando o dedo ao lado da cabeça pediria que não fossem malucos, colocando novamente o mesmo dedo indicador na frente de minha boca fechada, pediria para que ficassem quietos e não falassem aquilo que não sabem. Indicador indica, e por favor não me apontem esses dedos cheio de preconceitos pra mim!

[ Eu quero hoje deixar uma homenagem à uma pessoa que nos deixou e que eu sempre admirei pela riqueza das suas ideias e construções de inscríveis textos. De quem eu li livros, assisti programas, e admirava e me divertia com seus roteiros, colunas e a maneira inesquecível de dar sua visão das coisas, com sua maneira muito particular em se relacionar e ver o mundo: Fernanda Young ]

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