Morre no Rio o cenógrafo Helio Eichbauer

22/07/2018


Helio Eichbauer, um dos maiores cenógrafos do Brasil, morreu nesta sexta-feira, aos 76 anos, em sua casa, no Rio, vítima de um enfarte fulminante. Nome importante no teatro, cinema e na música popular brasileira, era professor de cenografia da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O velório será neste domingo, na Capela 8 do Memorial do Carmo, das 10h às 16h.

Eichbauer foi responsável pela cenografia de "O Rei da Vela", na histórica montagem do Teatro Oficina, em 1967 (Entenda por que 'O Rei da Vela' é um marco no teatro). Seguia trabalhando com alguns de seus antigos parceiros, como Caetano Veloso e Chico Buarque. São dele as cenografias dos shows "Ofertório", de Caetano com os filhos, e "Caravanas", de Chico.

"Ele não era um cenógrafo que faz uma pecinha aqui e ali, era um artista da dimensão de Picasso e Hélio Oiticica" , diz Zé Celso Martinez Corrêa, responsável pela histórica montagem de “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, pelo Teatro Oficina, em 1967. " Helio é um patrimônio nosso, e teve influência enorme na minha vida e de tantos outros de várias gerações".

Divisor de águas da cultura brasileira na sua estreia, “O Rei da Vela” consolidou a carreira do jovem carioca nascido em 1941. Nos cenários da peça, Eichbauer usou algumas das ideias que vinha estudando em Praga com o tcheco Josef Svoboda, grande mestre da cenografia do século XX e de quem foi o primeiro aluno estrangeiro. Também havia estagiado na Berliner Ensemble e na Ópera de Berlim e trabalhado no vanguardista Teatro Studio, de Cuba (país onde morou um ano). Antes do estrondo com o Teatro Oficina, seu primeiro cenário profissional veio em 1966 para a versão de Sartre de “As troianas”, de Eurípedes, dirigida por Paulo Affonso Grisolli.

"Na Europa, trabalhava com os pretos e brancos porque, para estudar melhor a forma, retira-se a cor. Em Cuba, passei por uma revolução tropical, antes de “O Rei da Vela”. As pessoas não estavam acostumadas com aquelas cores, inspiradas em Tarsila do Amaral — contou ao GLOBO, em 2006.

O cenário trazia três concepções distintas, uma para cada ato. Primeiro um escritório expressionista, depois uma explosão de cores com um painel da Baía de Guanabara e, por fim, esqueletos e velas para representar a morte do protagonista. Tamanha era a modernidade que, cinco décadas depois, ao serem retomados para a nova montagem, os cenários ainda causaram impacto.

— Como pode um cenário feito há 50 anos continuar encantando a multidão? É perene a arte, é matéria viva — exulta Zé Celso.

Ao longo de sua carreira teatral, Eichbauer venceu diversas vezes o Prêmio Molière, pelos cenários de “Antígona”, do Grupo Opinião (1969); “A viagem”, adaptação de Carlos Queiroz Telles para “Os Lusíadas” (1972); “O percevejo”, de Vladímir Maiakóvski (1981); e “Grande e Pequeno”, de Botho Straus (1985).

Mas foi “O Rei da Vela” que levou o levou a outro extremo de sua carreira, a cenografia para os shows de música brasileira, que tomou corpo após a colaboração com Chico Buarque e Ruy Guerra na peça “Calabar”, em 1980 (o espetáculo foi proibido pela censura). Após o trabalho, Chico o convidou para criar os cenários do show “Tempo e contratempo”.

A partir daí, passou a ser requisitado pelos maiores nomes da MPB. Poucos conseguiam como ele traduzir o universo musical em cenários. Além de Chico, trabalhou com Gal Costa, Marisa Monte, Adriana Calcanhotto e Caetano Veloso. Iniciada no show “Estrangeiro” (1989), a parceria com o compositor baiano é profícua, incluindo trabalhos em “Tropicália 2”, “Fina estampa” e outros.

— Hoje o que mais gosto de fazer é show de MPB. São cenários minimalistas. Libero espaço para os músicos, e as músicas e as palavras o preenchem — disse ao GLOBO, em 2006. — Gosto dos grandes espaços vazios, onde se pode fazer cenários invisíveis, que são os melhores.

Para o diretor teatral Felipe Vidal, responsável por uma montagem de “O Rei da Vela” em 1995, esse minimalismo era uma das marcas de Eichbauer.

— Ele conseguia fazer uma cenografia eloquente com poucos elementos. Talvez “O Rei da Vela” seja um caso à parte, pela pujança barroca. Depois disso, ele evoluiu para a potência minimalista.

Trabalhou ainda no cinema, com Glauber Rocha em "Dragão da maldade contra o Santo Gerreiro"; Arnaldo Jabor, em "Tudo bem"; Joaquim Pedro de Andrade, em "O homem do Pau-Brasil" (melhor direção de arte e cenografia no Festival de Cinema de Brasilia); Bruno Barreto, em "Gabriela"; e Ruy Guerra, em "Kuarup".

Fonte: O Globo