Disseram que era só um joguinho…

02/12/2019


Era a minha primeira vez em um evento de eSports. Se não bastasse a curiosidade em vê-lo como um projeto de Live Marketing, e ficar atento aos detalhes da produção em si, eu me sentia um total peixe fora d’água. Ainda mais para um cara como eu que sempre se pautou em estar antenado e atualizado, pois conhecer somente agora o jogo de PC mais jogado do planeta, com estimados 100 milhões de jogadores ativos por mês e fazendo parte de um universo de mais de 21 milhões de fãs de eSports no Brasil, era como se eu tivesse ficado nos últimos 10 anos (exatamente a idade do game) preso no interior da Sibéria e só agora estivesse fazendo um upgrade de tudo o que tinha acontecido neste período.

Havia um sentimento interessante em administrar o estranhamento com algo novo ao mesmo tempo que me deixava levar pela novidade e tudo isso sem nenhum tipo de preconceito, simplesmente aceitando que não sabia nada, que iria ver tudo como uma tremenda novidade e que eu ali estava completamente aberto para aprender e me surpreender.

Já havia visto alguns vídeos de eventos anteriores e era simplesmente impressionante, pensando como uma produção focada numa transmissão televisiva, era uma produção grandiosa, lotando estádios e ginásios, e isso era o que mais me surpreendia: como é que 10 ou 15 mil pessoas poderiam curtir a ideia de assistir uma final de um game? Não era só um joguinho?

Se o número de praticantes de LOL no Brasil fossem uma torcida de futebol, elas seriam a 3a. maior do Brasil. E uma transmissão de TV para uma partida como essa significa em torno de 7 horas de transmissão ao vivo, com mais de 2 milhões de espectadores! Eu não parava de me questionar: como assim, ficar 7 horas assistindo à um game?

Resumindo, eu estava assistindo algo que não podia entender a dimensão, não tinha o envolvimento com sua emoção, não era um usuário ou consumidor, enfim… eu tinha ali uma oportunidade impar de estar envolvido com um cenário completamente diferente de tudo aquilo com que trabalhei em toda minha carreira, era como aprender de novo e isso era muito estimulante. E logo de cara uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o seu público formado por jovens entusiastas, muitos travestidos através do cosplay de um de seus “campeões” (como são chamados os principais personagens) preferidos, vestiam camisetas, falavam uma linguagem que eu não entendia (um até me fez uma pergunta que té hoje eu sei qual era), mas representavam ali uma coisa muito importante: novos consumidores. Tinham poder de compra, consumiam com paixão, eram entusiastas e tinham já instalado no seu mindset a máxima perseguida por todas as marcas: “não eram só consumidores, eram fãs”.

Mas muito diferente do fã patológico e de carteirinha que outros esportes possuem, como o futebol por exemplo, eram de uma educação e de uma postura que simplesmente me deixava estarrecido: educados, respeitosos e até polidos, mas claro que torciam, gritavam, faziam barulho com seus batecos e quando viam uma jogada incrível (que eu – um completo estranho – só reconhecia pela animação da torcida), mostravam a adoração que tinham não só pelo esporte em si (sim, porque game é um esporte, um eSport), mas pelos jogadores: jovens e profissionais, com uma grande quantidade de seguidores e que ao passar ao lado deles, em meio à um grande aglomerado de fãs no afã de conseguir um autógrafo ou self, eu simplesmente não os reconhecia, eram completamente estranhos pra mim.

Depois de mais de 20 anos conhecer um novo mercado, um novo produto, uma nova forma de entretenimento, um novo jeito de ser consumidor e se deixar levar por essa onda sem oferecer resistência, era extremamente revigorante e rejuvenescedor. Uma grande dose de um elixir que faz com que vejamos com novo olhos um mercado que ultimamente vive em torno dos mesmos dilemas, problemas, briefings, jobs e quando não muito trazendo as mesmas pseudo novidades em tendências como algo incrivelmente inovador, mas que em pouco tempo se dissemina por todos os cantos, se tornando padrão e conspirando para um mercado muito próximo do commodity.

E eu não poderia falar de tudo isso, sem trazer para o MondayToThank de hoje, um super, imenso e forte agradecimento à dois jovens – não tanto quanto os gamers rs – mas que estão mostrando que todo este cheiro de novidade tem a ver também com empresas que nascem se prontificando a pensar diferente, a tentar trazer para o nosso mercado uma forma mais leve e sadia de trabalhar, buscando se adaptar à este novo cenário, construindo um negócio promissor, de extrema qualidade de entrega, de um profundo comprometimento com a parceria com o cliente, mas sem entrar no perigoso jogo pesado de fazê-lo com um ambiente tóxico, processos ultrapassados e profissionais desrespeitados.

#MTT Alê Salas e Fernando Abrão. #MTT Eleve Design de Experiências, pela quase ousadia de me fazerem ver em um mercado que eu já não enxergava com boas expectativase ficava perdido entre formas e jeitos que se repetiam a exaustão, um novo restart, um novo game pronto e desafiadoramente desconhecido para poder apertar o play, se sentir um player number one e se ver novamente no game, num outro game e ele não é só um joguinho!

Se não bastasse o incrível e inspirador trabalho com o eSPORT dos últimos anos, este espírito está buscando em outros mercados, produtos e clientes, a mesma forma de se relacionar. Aquela que busca numa relação respeitosa, sustentável e parceira um jeito de começar de novo este game maluco do mercado, porque esta partida que jogamos há muito tempo tá desgastada, num jogo que precisa há muito tempo de upgrade. Ok, não há ilusões, dá rapidamente pra saber que tem muitos clientes e players do mercado que continuam jogando Telejogo e antigos cartuchos Atari, enquanto o mundo é feito de LOL, CS, Fortnites e outros tantos… Tem muita gente pensando com cabeça de fliperama, mesmo em um cosplay de marketeiro moderno, mas ainda pensando num mercado que só vê um lado, com propostas absurdas de negócios e com concorrências e briefings que não colocam você em um game safe, fare e com iguais chances de ganhar.

Aliás, algo que definitamente deveria ser visto e revisto pelas empresas como um todo: analisar como estes games estipulam suas regras, regulamentos e um código de ética que faz que com que todos os gamers saibam que precisam ter um comportamento exemplar para poder continuar competindo (é só rever os recentes banimentos por más condutas), e como este mercado bilionário sabe fazer dinheiro sendo ainda inclusivo e pensando de uma maneira muito diferente do formato “extrativista” de muitas marcas.

Minha gratidão aos “queridos elevens” pela generosidade em me fazer conhecer depois de tanto tempo algo que me fizesse refletir sobre o futuro dos produtos, marcas e empresas.  Mas também dos consumidores, clientes, profissionais e das próprias agências. Afinal vivemos um verdadeiro game e já passou da hora da gente tirar da frente  quem está “embaçando a partida”, chegou o momento de novas cabeças, olhares e energias assumirem os comandos, teclados, mouses, celulares e joysticks. Isso sim é estar pronto e podermos partir para um futuro e “let’s play the game”.

Para terminar, o evento do CBLOL no ano passado – e um dos ganhadores do prêmio Caio 2019 - teve como uma das grandes atrações o rapper paulista Emicida e é dele a música tema do evento, que inspirou o nome desta coluna. A seguir, um pedacinho dela para fechar a coluna de hoje e deixar esta mensagem importante: “Let’s change the game!”

“É só um joguinho, eles disseram

Brincadeira, lero-lero

Quis me prender na estaca zero.

 

É só um joguinho, eles disseram

Pra ser sincero e severo.

O Zé Povinho, desconsidero.

 

É só um joguinho, eles disseram

Hoje tão igual bobo

Enquanto eu, pelo globo, reverbero.

 

É só um joguinho, eles disseram

Ok, é só um joguinho, né?!

Pega aí, então!”

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