Previsões imprevisíveis

21/07/2018


As transações estabelecidas nas redes sociais ficam a cada dia mais intensas e complexas, interessadas e interesseiras. Há negociações, compartilhamentos, intercâmbios o tempo todo. Como é comum em todos os sistemas de escambo, para conseguir algo é preciso dar algo em troca — pode ser desconto, free sample, trial. Ou também reputação, benefícios e acessos. Eis a questão: o que ofertar para as pessoas em troca de seus dados pessoais, o bem mais valioso da contemporaneidade? 

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Sim, todo mundo percebeu que não existe app grátis — e o preço é alto: são os seus hábitos e costumes de consumo que são analisados, tratados, empacotados e vendidos como “estudos preditivos”. O que é isso? Uma espécie de adivinhação estatística que prevê, pelas recorrências e pelas dissonâncias, o que vai acontecer. O que as pessoas postam ou deixam de postar, multiplicam ou deixam de multiplicar, comentam ou deixam de comentar traz o calor da situação social, política e econômica, entre outros aspectos, permitindo uma certa visão do mercado, uma pista sobre o que está por vir. Saber disso é ótimo para planejar como gerar awareness, vender mais e fidelizar com a mais alta qualidade.

Dizem alguns estudiosos que observando com atenção as informações compartilhadas nas redes sociais, é possível predizer o que pode acontecer com o destino de um país, de uma empresa ou de um líder. Será? Como é possível rotular hábitos, ritmos e rotinas na web, emitindo pareceres precisos de comportamentos que naturalmente são imprevisíveis em um espaço incessantemente reconfigurado por novas tecnologias e novas formas de socialização, com novos modos de estar junto, viver, habitar, sentir e se comunicar, com símbolos e sentidos passíveis de permanente transformação?

Para Jason Falls, guru norte-americano das redes sociais e coautor de No Bullshit Social Media, as pessoas já começam a questionar a finalidade de cada rede social e avaliar com mais critério o tempo que demanda ter uma vida virtualmente ativa em cada uma delas — expostos a promoções, patrocínios e, claro, invasão de privacidade. Falls prevê que, como alternativa às redes sociais generalistas está a criação de redes mais seletas e criteriosas, destinadas a públicos específicos e propondo relações mais claras também.

O que dizer de todas as previsões? Memes e modismos surgem e, qual metamorfoses ambulantes, modificam-se da noite para o dia. O que era in vira out; o que era low vira high, em um moto-contínuo nem sempre lógico. Pode-se estudar as pesquisas, projetar os dados, consultar os gurus do mercado, os visionários e os videntes. Não há teoria que verse com precisão sobre o devir. Prefiro focar no que é certo e garantido. Relacionamento sem trocas definitivamente não existe. Caso queira contra-argumentar, seja meu convidado.

*Adaptado do Livro Economia das Dádivas, de Marina Pechlivanis (Alta Books 2016)